sábado, 3 de março de 2012

Os Contos de Franz Kafka - livros que nunca devia ter lido, 18

Contos Franz Kafka
Ao adjectivo kafkiano está associada em grande medida a obra O Processo. Kafkiano é algo absurdo, surreal, confuso, ilógico, mormente associado à burocracia. Porém quando penso no adjectivo kafkiano é Na Colónia Penal que penso. Na colónia penal há uma máquina burocrática, «um estranho aparelho», cuja missão é cumprir a pena dos condenados. O condenado não tem nome, é apenas o condenado. Também não o têm o explorador (referido também como o viajante), que visita a colónia penal e é convidado a assistir à execução do condenado, nem o tem o oficial que o acompanha. Não o têm, tão-pouco, o antigo Comandante, aquele a quem se deve toda a obra da colónia penal, nem o novo Comandante, que em nada pode «alterar o que foi feito». Condenado, explorador, oficial, antigo e novo Comandante, existem apenas para que a existência da colónia penal tenha sentido. São apenas peças da engrenagem do «estranho aparelho», a máquina burocrática.

Esta obra, publicada pela Assírio & Alvim, reúne os textos publicados em vida por Franz Kafka. Os sete livros: Observação, A Sentença, O Fogueiro (seria depois publicado como primeiro capítulo da obra incompleta que ficaria conhecida como Amerika, mas cujo título mais fiel será O Desaparecido), A Transformação (a maioria das vezes traduzido e publicado com o título A Metamorfose), Na Colónia Penal, Um Médico Rural, Um Artista da Fome. E os textos publicados apenas em jornais e revistas. Há nesta obra contos muito diversos; alguns são apenas de algumas linhas, pequenas observações, outros são mais extensos e estruturados.


Quando comprei este livro já tinha lido praticamente todos os contos de Franz Kafka publicados em colectâneas que os reuniam dispersamente sem qualquer critério aparente além do aleatório capricho de um qualquer editor. Tê-los assim todos reunidos é uma tentação demasiado forte à qual cedi com inteiro prazer. Falta, que eu saiba, publicar o prometido II.º volume que reuniria os contos que não foram publicados em vida pelo autor. De acordo com a ficha técnica foram publicados apenas 2000 exemplares. E eu cogito como é possível haver apenas 2000 exemplares de uma obra imprescíndivel? Talvez por isso não tenha sido publicado o II.º volume (que eu tenha conhecimento) que reuniria os contos que não foram publicados em vida pelo autor.

A JANELA PARA A RUA

Quem leve uma vida solitária e tenha de vez em quando a necessidade de algum tipo de contacto, quem, atento às mudanças de hora do dia, mudanças de clima, das relações profissionais e afins, queira ter um simples braço, um qualquer a que se possa agarrar - uma pessoa destas não conseguirá aguentar muito tempo sem uma janela que dê para a rua. E se esta pessoa por acaso não estiver à procura de nada e apenas se aproximar do parapeito, como um homem cansado, para passear os olhos, e não quiser olhar e incline a cabeça um pouco para trás, então, nesse caso, os cavalos lá em baixo arrastá-lo-ão consigo no seu cortejo de carruagens e barulho e assim finalmente em direcção à harmonia humana.

OS QUE PASSAM A CORRER

Se vamos a passear à noite por uma rua e um homem que ao longe se avista - porque a rua sobe à nossa frente e a lua está cheia - vem a correr de encontro a nós, então não o vamos agarrar, apesar de ele ser fraco e andrajoso, apesar de vir uma pessoa a correr atrás dele e a gritar, vamos antes deixá-lo passar.
Porque é de noite e não temos culpa que a rua seja a subir e esteja iluminada pela lua, e, além de mais, talvez estes dois homens tenham organizado a caça para seu divertimento, talvez os dois persigam um terceiro, talvez o primeiro esteja a ser injustamente perseguido, talvez o segundo queira matar e nós seríamos cúmplices do crime, talvez os dois não saibam nada um do outro e cada qual apenas corra, por sua própria iniciativa, para a sua cama, talvez sejam sunâmbulos, talvez o primeiro esteja armado.
E afinal de contas não podemos nós estar cansados, não é verdade que bebemos muito vinho? Estamos contentes por também já não vermos o segundo homem.

Franz Kafka, in Os Contos (estes dois contos integram o livro Observação).

3 comentários :

  1. Terrível o universo de Kafka, porque é verdadeiro o "labirinto" absurdo em que nos meteram. Mas "eles" não podem alterar o que foi feito -e esse é o horror da denúncia kafkiana: ninguém fez nada...ninguém tem culpa...
    Abraço e boa semana!

    ResponderEliminar
  2. Alguém sabe onde posso encontrar esses dois volumes pra comprar aqui no Brasil? desde já agradeço!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Carlos, estes dois volumes só se encontram publicados em Portugal - não tenho conhecimento de nenhuma edição brasileira dos contos completos de Franz Kafka. Podem ser encomendados na internet, por exemplo no site www.wook.pt No entanto suponho que os portes sejam caríssimos (para a Europa são muito caros, penso que para o Brasil sejam ainda mais caros...)

      Abraço.

      Eliminar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...