terça-feira, 6 de março de 2012

Ninguém Escreve ao Coronel, de Gabriel García Márquez - livros que nunca devia ter lido, 19

Ninguém Escreve ao Coronel, Gabriel García Márquez, El Coronel no Tiene quien le Escriba
O primeiro livro que li de Gabriel García Márquez foi este Ninguém Escreve ao Coronel. Nunca gostei do título em português, nem sei porque decidiram traduzi-lo assim do original em castelhano El coronel no tiene quien le escriba. Ninguém escrever ao Coronel é completamente diferente de o Coronel não ter quem lhe escreva. Lá por ninguém escrever ao Coronel não quer dizer que o Coronel não tenha quem lhe escreva; mas se o Coronel não tiver quem lhe escreva, então ninguém escreverá ao Coronel.

E o Coronel espera até à última página que lhe escrevam. E nós esperamos desde a primeira página que haja alguém que decida por fim escrever ao Coronel. O desgraçado Coronel espera em vão pela pensão prometida por um governo há muito derrubado, e todas as sextas-feiras vai ao posto dos correios em busca dela. Quantas vezes esperamos em vão a correspondência que secretamente sabemos que nunca chegará, e ainda assim esperamos, porque é essa esperança que nos dá alento para continuar? «Quem espera cem, também espera mais dez.» diz o coronel.


Hoje, dia 6 de Março - vou-me despachar a ver se ainda acabo o post a tempo - faz 85 anos que nasceu Gabriel García Márquez, Gabo, para os fãs, amigos, e família. É provável que vão ler por aí algumas inverdades. É verdade que se comemoram algumas datas, estão sempre a comemorar-se. Assim, a primeira obra publicada por Gabo, no periódico El Espectador, foi o conto La tercera resignácion, a 13 de Setembro 1947 - completam-se 65 anos naquela data. Porém apenas em finais de Maio de 1955 publicaria a sua primeira obra em livro, o romance La hojarasca - serão 57 anos, em Maio. Também em Maio (e não hoje como já li em blogs e jornais) completam-se 45 anos da publicação de Cem Anos de Solidão [publicado em Buenos Aires, Argentina, pela editora Sudamericana; os primeiros 3000 exemplares a 30 de Maio de 1967]. O Prémio Nobel da Literatura foi-lhe atribuído fará 30 anos - obviamente não foi no dia de aniversário - a 21 de Outubro de 1982; e foi-lhe entregue a 10 de Dezembro de 1982. Estão quase a assinalar-se os 10 anos da publicação do livro de memórias romanceado Viver para contá-la (precisamente a 8 de Outubro de 2002, na Cidade do México].

El coronel no tiene quien le escriba continua a ser a minha obra preferida de Gabriel García Márquez, a par de Crónica de uma Morte Anunciada. Tenho poucos livros de Gabriel García Márquez. Cem Anos de Solidão emprestei-o a fundo perdido, e a maioria dos outros que li foram-me emprestados a mim e devolvidos. As datas ali acima foram retiradas da biografia autorizada de Gabriel García Márquez, escrita por Gerald Martin. É assim tão difícil aos jornalistas consultarem fontes credíveis, já que não sabem? E é assim tão difícil fazer contas?

O médico quebrou o lacre dos jornais. Informou-se das notícias de destaque enquanto o coronel - de olhos fixos no seu compartimento - esperava que o administrador se detivesse diante dele. Mas não o fez. O médico interrompeu a leitura dos jornais. Olhou para o coronel. Depois para o administrador sentado à frente dos instrumentos do telégrafo e a seguir outra vez para o coronel.
- Vamos - disse.
O administrador não levantou a cabeça.
- Nada para o coronel - disse ele.
O coronel sentiu-se envergonhado.
- Não estava à espera de nada - mentiu. Lançou ao médico um olhar completamente infantil. - A mim ninguém me escreve.

Gabriel García Marquéz, in Ninguém Escreve ao Coronel.

Na Blogosfera: O outono do patriarca; Gabo;

2 comentários :

  1. Merecida homenagem a um dos maiores escritores ainda vivos.

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  2. Não é realmente um grande livro, mas são tantos os bons livros de Garcia Marquez que me fizeram vibrar...
    Actualmente ando a ler os contos completos. Uma delícia.

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