quinta-feira, 1 de março de 2012

Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll - livros que nunca devia ter lido, 17

Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho, de Lewis Carroll
Nós leitores vorazes* temos esta mania de impingir livros uns aos outros, e muitas vezes caímos na tentação de impingir livros a pessoas que - não sabemos porquê - ficam aborrecidas. Quando comprei a edição conjunta - a que se vê na imagem, da Relógio D'Água - de As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, e Alice do Outro Lado do Espelho, de Lewis Carroll, comprei logo três exemplares, um para mim, dois para impingir. Eram tão baratos que nem queria acreditar. Nesse dia comprei também Sylvie e Bruno, igualmente de Lewis Carroll, outra pechincha, da mesma editora. Por quatro livros dei uma nota que muitas vezes não dá para comprar 1/3 de livro. Mas eu já tinha as três obras noutras edições? O que é que isso importa agora? E estes belíssimos exemplares vêm com as ilustrações originais de Sir John Tenniel, e de Harry Furniss.

Há um momento na vida em que todos os bibliómanos se questionarão se gostam mais de livros ou de obras, embora provavelmente gostem sempre tanto de uma coisa como da outra. Os bibliófilos, esses são casos perdidos na maioria das vezes. Para eles os livros são jóias que não usam e que têm como única utilidade ocupar cofres nos bancos. Nós os bibliómanos gostamos muito de dar livros. Emprestar é que não! Podemos abdicar da posse daquele livro especial para oferecer a um amigo especial, ou até a um estranho, não nos peçam é emprestado. Enquanto forem nossos são só nossos.


Ler é como adormecer à beira-rio e ver passar o Coelho Branco que mais ninguém vê. É por isso que nós, leitores vorazes, gostamos tanto de impingir livros aos outros. Quando damos um livro não é bem um livro que damos, é uma visão. Ver sozinho é loucura, ver acompanhado é revelação. Não damos livros porque pretendamos que aqueles a quem os damos passem a ver o mundo como nós, porque sabemos que a visão do mundo que cada um tem, é única. Damos livros porque há paisagens tão belas que nos sentimos compungidos a revelá-las aos outros - ainda que durante algum tempo as guardemos só para nós - para que os outros as vejam por si.

Que mundo maravilhoso esse onde se podem comprar dois livros para nós e dois livros para impingir. Eu se pudesse passava as tardes a impingir livros, as manhãs a ser impingido de livros, e as noites a ler livros. Só dormia ao crepúsculo ou nas tardes modorrentas de Verão. Impingir livros é das coisas mais maravilhosas que há. Já impingi livros de todos os géneros, feitios, e tamanhos. Adoro quando me impingem livros, e adoro livros impingidos! É verdade que tenho poucos livros impingidos, e nunca sei como agradecer quando me impingem um livro. Mas o sentido profundo disto tudo é isto tudo não ter sentido nenhum. Impingir livros não é apenas dar livros. Impingir livros é também - tristemente a maioria das vezes - falar sobre eles. Espero que não se importem por virem aqui ao blog a ser impingidos com livros.

- O que é uma Corrida Eleitoral? - inquiriu Alice, não tanto por querer saber, mas porque o Dodó se calara como se pensasse que alguém devia falar, e mais ninguém parecia disposto a dizer fosse o que fosse.
- Ora, a melhor maneira de explicar é fazê-la - respondeu o Dodó. (E, como também vocês poderão querer experimentá-la, num dia invernoso, vou contar-vos como procedeu.)
Primeiro, desenhou uma pista de corridas, numa espécie de circunferência («não interessa a forma exacta», disse ele), e depois colocou cada um deles num ponto da pista. Não havia nenhum «um, dois, três, já!», mas principiava-se a correr quando se queria, e desistia-se também quando apetecia, de maneira que não era fácil perceber quando terminava a corrida. Todavia, após terem corrido cerca de meia hora, e estarem de novo secos, o Dodó gritou de repente:
- Acabou a corrida!
E todos o rodearam, ofegantes, a perguntar: - Mas quem é que ganhou?
O Dodó só pôde responder a esta questão depois de pensar longamente, e permaneceu durante muito tempo com um dedo apoiado na testa (a posição em que se costuma ver Shakespeare, nos retratos), enquanto os outros aguardavam em silêncio. Por fim, disse:
- Ganhámos todos e todos devemos receber prémios.

Lewis Carroll, in Alice no País das Maravilhas.


*Expressão surrupiada a um e-mail de um maravilhoso amigo da blogosfera que decidiu presentear-me com livros e a quem não sei como agradecer. Obrigado!

3 comentários :

  1. Dar livros é um prazer imenso, quando sabemos que são apreciados...

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  2. Se ainda tem algum destes, ou outros, meu endereço é rua Coronel Leonardo Ribeiro, 143, Glória, Porto Alegre, 91710-050, Brasil.
    Ah, também gosto de selos bonitinhos.
    PS.1- Retribuo com outro, pois afinal, vais gastar mais com correio que o preço dos livros.

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    Respostas
    1. Já respondi no outro comentário. Não tenho nenhum exemplar, mas vou tentar encontrar quando chegar a Portugal, de férias. Beijinhos.

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