terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Uma década perdida: 2002-2012; uma década apenas?

Taxa Desemprego em Portugal 1990:2000


Tenho pensado muito na vidinha. A ilustar isto que quero dizer, o gráfico da evolução da taxa de desemprego em Portugal entre 1990 e 2010. Um gráfico que tinha para ali guardado na minha pasta das imagens. Não me perguntem a fonte que desconheço-a. Como se sabe, agora é de 14 e não-sei-quantos por cento. Agora tentem escrever isto de acordo com o novo acordo ortográfico? Percebem agora o que é que eu quero dizer quando digo que o novo acordo ortográfico é novilínguista? O que me preocupa não são as consoantes mudas, embora eu as pronuncie quase todas. Se me devolvessem o trema, e estivessem quietos! Num único ponto estou de acordo com os acordistas: kwy. Enfim, sempre escrevi com estas letras, não necessitava de nenhum acordo que me viesse dar autorização! 

Mas já me desviei do propósito deste post. Dizia eu que tenho pensado muito na vidinha. Digamos que a minha taxa de pensamentos na vidinha acompanhou a evolução da taxa de desemprego: pelo menos na última década. E se a minha taxa de pensamentos na vidinha continuar afinada pela taxa de desemprego, tenho que vos comunicar que nas últimas semanas a taxa de desemprego deve ter ultrapassado os 25%: sim, um em cada quatro pensamentos que tenho, é um pensamento na vidinha. Penso mais na vidinha que em sexo. Até penso mais na vidinha que em dinheiro, ao que isto chegou! Gosto muito de pontos de exclamação! Aquela berrarria histriónica que bradava contra o uso do ponto de exclamação já abandonou a praça? Pois... Deve ter abandonado, agora que vivemos em tempos de exclamação! Ai não é de... é de... interrogação? Humm... Pois... Para mim a exclamação nunca foi uma certeza, que eu nunca fui de certezas, sempre fui de dúvidas, de muitas dúvidas...


Sói. Dou voltas e voltas para voltar a escrever esta palavra: sói. Podia escrever dói. É exactamente o mesmo! Não acreditam? Então vejam: dói dizer-se que a última década foi uma década perdida para Portugal e para a economia portuguesa. Dói dizer-se que a década 1995:2005 foi uma década perdida para a nação Benfiquista. Dói-me dizer que a última década foi uma década perdida para a minha vidinha. Coincide com a última década a circulação do Euro. E com a entrada do Euro em circulação, em Portugal entrou também em circulação a palavra crise. Quem lê jornais - no meu caso, lia, que não há dinheiro para esses luxos - sabe que há palavras que de tempos a tempos estão em voga. A bem dizer-se, crise esteve sempre em voga desde que há Portugal. Mais nitidamente desde que há jornais em Portugal, mas mais acentuadamente na última década. A princípio pensei que fosse uma moda jornalístico-política que fosse passar quando a vaga passasse. Mas não passou. É esta a nossa sina: começar a sofrer antes dos outros e continuar a sofrer para além dos outros. Se considerarmos que esta crise - a mais acentuada - começou uns seis ou sete anos antes em Portugal, podem fazer as contas, quando esta crise terminar, se terminar, para saberem quando é que vai terminar em Portugal, uns seis ou sete anos depois...

Andamos sempre adiantados para o pior, atrasados para o melhor. Esqueci-me de dizer ali atrás: se não acreditam em mim nesta observação que eu julgo que seja do senso comum, que há palavras que de quando em quando estão em voga, nem precisam de fazer o teste com os jornais inteiros, peguem apenas nos suplementos culturais, daqueles que os tiverem, e leiam as críticas literárias: nesta parte específica as vagas de palavras em voga são mais vísiveis, porque são mais intensas e com menor duração: de três em três meses há novas palavras em voga, embora pungente seja uma palavra consistentemente utilizada, se escrita por um crítico que nem se deu ao trabalho de ler o romance na diagonal - ou pelo menos a contra-capa na diagonal, como faz o prof. Marcelo - dispensa apelidos, que é mais conhecido que o prof. Karamba. 

Como tenho pensado muito na vidinha... Ocupo o meu tempo livre de duas maneiras: ou entre o facebook e o blogger; ou entre enviar mais uns CV's (em quatro línguas, Português, Francês, Inglês, e Espanhol) e pensar na vidinha. Se fizerem as contas verão que isto ocupa 1/4 do meu tempo. Ou seja, os tais 25 por cento de que falei ali acima. Mas isto agora não importa para nada. Adiante. Como diz a Maria de Jesus Lourinho, num comentário a um post, «Todos querem que "isto" passe para voltar ao que era.». Na minha teoria mui pessoal é assim: as pessoas de esquerda querem que "isto" volte a ser o que era; as pessoas de direita querem que "isto" volte a ser o que era. Com esta nuance: as de direita querem que "isto" volte a ser o que era uns aninhos atrás daquilo que a esquerda quer. É a única diferença. Os ambidestros, como eu, estão indecisos e confusos. Sabem perfeitamente que "isto" nunca vai voltar a ser o que era, porque nunca nada volta a ser o que era, mas não sabem que fazer a "isto". Confuso? Compreenderam? A diferença entre esquerda e direita é esta: a direita não sabe fazer contas, e a esquerda nunca foi boa a matemática

A Europa foi nos últimos 60 anos, mais pó menos pó, o melhor lugar do mundo para viver. Talvez com a Austrália e o Canadá a par. Ou talvez estes é que estivessem um pouco à frente. O photofinish não é conclusivo. Quando digo Europa estou a falar no conjunto. Nunca foram limadas todas as arestas; pode até dizer-se que as arestas deste polígono eram bastantes e bastante agudas. Mas era acima de tudo um lugar de esperança, um lugar de confiança. Vejo agora que era uma profissão-de-fé como outra qualquer. Assim, a Europa foi o mais parecido com fé religiosa que experimentei. Talvez seja este conforto, esta cegueira, este bem-estar que a fé numa qualquer religião dá aos seus fiéis. Mas só agora que perdi esta fé sei que a tive. Talvez a fé mais profunda seja não se saber que se têm. Se calhar é isso... Sempre me interroguei como é que as pessoas acreditam em tais coisas? Sempre me questionei se não se dariam conta da cegueira? Sim, a Europa era a minha religião...

Tenho pensado na vidinha, mas a vidinha não tem pensado em mim. A vidinha não pensa em ninguém. Apetecia-me citar aqui William Shakespeare, mas não me recordo das palavras exactas, nem tão-pouco da obra onde foram escritas. A vidinha continua sempre. E um gajo chega a um ponto da vida... um gajo?!... que se dane, ora essa, o blog é meu, escrevo o que me dá na real gana - republicana. Às vezes penso quanto tempo faltará para me baterem à porta e me levarem para o calabouço? Mundo de merda! Não vos maço mais. Vou ali para um canto pensar na vidinha. E reler As Benevolentes, do Jonathan Littell. Não é que eu goste de sofrer por antecipação, mas um gajo tem que estar preparado. Além de mais, não tenho dinheiro para livros novos, e pensar na vidinha é uma coisa que se faz quando se está sozinho e não há mais nada a fazer. E como se sabe, quando não há nada a fazer, há que aguentar. Ou não.


Adenda: fiquei a pensar que seria injusto fazer-vos ler isto tudo, e não vos dizer afinal o que é que me aflige neste momento: é não ter para onde ir... Talvez conheçam e estejam recordados da epígrafe d' A Viagem do Elefante, Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam, pois é isso, aflige-me saber que não sou esperado em lugar algum, afligem-me as portas e as janelas que se fecham, afligem-me os dias que passam sem sair do mesmo sítio... Ai eu, se eu tivesse um gabinete ministrial para onde ir, eu também não era gago. Não é difícil não ser gago a ganhar uns milhares de euros. Difícil é não ser gago assim...

6 comentários :

  1. Um profundo e correcto ajuste de contas com a "vidinha", com o acordo ortográfico pelo meio...

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    1. A vidinha não deixa que ajustemos contas. O saldo é sempre a favor dela, por mais que paguemos, e no fim... Abraço amigo.

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  2. Simpatia não serve para nada na vidinha, pois não? Mas é o que tenho para oferecer.

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    1. Ouvi um poeta português dizer um dia numa entrevista (não vou dizer o nome que não tenho 100% certeza), uma frase que nunca mais me saiu da cabeça: «A simpatia é como poesia; toda a gente gosta mas não rende dinheiro.» Lembrei-me disto agora. Obrigado pelas tuas palavras.

      Eu sei que tenho um e-mail por responder. Mas talvez já tenhas chegado à resposta...?

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  3. Força, André! Não há mal que sempre dure... -- pelo menos, nisso quero acreditar.

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    1. Já estive mais certo disso... Observo... E o que vejo é o mundo todo a regredir... A nivelar pelo mínimo denominador comum...

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