quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Teleny ou O Reverso da Medalha, de Oscar Wilde - livros que nunca devia ter lido , 15

Teleny, O Reverso da Medalha, Oscar Wilde
Teleny ou O Reverso da Medalha, de Oscar Wilde. Durante anos pensei que já tinha lido tudo o que Oscar Wilde escrevera. Porque razão esta obra me passou ao lado não sei bem. Talvez porque nunca me interessou por aí além a vida dos escritores, mas tão-só a suas obras*. Contam-se pelos dedos as biografias que li: Fernando Pessoa, várias, Gabriel García Márquez, e José Saramago (uma, nem se pode chamar bem biografia, aquilo é mais um rascunho de biografia). Do escritor cuja vida mais me fascina, Yukio Mishima, nunca li biografia nenhuma. E gostaria de ler a biografia sobre Luiz Pacheco. Talvez por isso esta obra de Oscar Wilde tenha para mim permanecido no limbo do desconhecido. Porém, de cada vez que entro numa livraria ou alfarrabista, lá vou ver dos meus autores dilectos, ainda que saiba de antemão que não vou encontrar nada de novo. Até que um dia dei com Teleny.

Obviamente, comprei logo, nem sequer olhei para o preço, que até era bastante em conta. A minha edição é esta que digitalizei e que ilustra este post. Foi a leitura deste post que me lembrou de escrever sobre este livro, e também sobre Opus Pisturum, de Henry Miller. Teleny é uma obra pornográfia, e faz parte, na nomenclatura, do que se convencionou denominar literatura gay. Quando esta obra foi publicada pela primeira vez, autor e editor permaneceram anónimos. Convém não esquecer que Oscar Wilde acabaria preso por perverter Alfred Douglas (lorde), o seu Bosie, a quem escreveu a longa carta De Profundis, outra obra emparteleirada na literatura gay. E o amor que havia entre Douglas e Wilde, além de levar Oscar Wilde ao cárcere, arruinou-o e contribuiu para a sua morte permatura. 

Subsistem muitas dúvidas quanto ao verdadeiro autor de Teleny. Quanto a mim, não tenho o mínimo prurido em afirmar que é de Wilde. Ou pelo menos, que Wilde contribuiu decisivamente para a sua escrita e publicação. Quem ler esta obra notará decerto aquilo que foi a marca wildiana mais relevante no estilo da sua escrita: a escrita epigramática. Há quem negue veementemente que Wilde tenha sido o autor desta obra? Há! Também no Japão continuam a negar veementemente que Yukio Mishima fosse homossexual...

Porque associo Opus Pistorum, de Henry Miller, e Teleny, de Oscar Wilde. Na verdade têm bastantes pontos em comum: ambas são obras pornográficas (ainda assim Opus Pistorum é bastante mais dura, hardcore, e menos literária); apenas após da morte dos autores foram publicadas com o nome deles (Opus Pistorum só veio a público após a morte de Henry Miller); e na minha mitologia literária privada, vejo Henry Miller como a versão heterossexual de Oscar Wilde. O contrário não, porque Wilde viveu primeiro. E por fim, porque nesta série de livros que nunca devia ter lido, ao lembrar-me de escrever sobre estas duas obras que leria sempre, estes são dois livros que nunca devia ter lido mesmo. Uma perfeita perca de tempo; mas há algo melhor que perder tempo? Guilty Pleasures, sem prazer nenhum, no fundo, pois há que ter estômago para ler estes livros.

- Pela parte que me diz respeito, certamente. Mas não tinha aquilo que se pode definir como olhos hipnotizadores. Eram muito mais sonhadores que penetrantes, mas com tal poder de penetração que, a primeira vez que os nossos olhares se cruzaram, pareceu-me senti-los até às profundezas da alma e, embora a sua expressão fosse pouco sensual, sempre que me fitava o sangue fervilhava-me nas veias.
- Ouvi dizer com frequência que era muito bonito. É verdade? Como só o vi uma vez...
- Sim, era particularmente belo, ainda que mais de uma beleza singular do que daquelas que impressionam. A maneira de vestir, apesar de impecável, revelava um pouco de excentricidade. Naquela noite, por exemplo, tinha na lapela um ramo de heliotrópio branco, embora estivessem na moda as camélias e gardénias. As maneiras eran de um cavalheiro impecável, mas no palco, como diante dos estranhos, assumia um ar levemente arrogante.

Oscar Wilde, in Teleny ou O Reverso da Medalha.


*No entanto fui reler as notas biobliográficas nas outras obras de Oscar Wilde (aquelas que a têm) que tenho espalhadas pelas minhas estantes, e constatei aquilo que já desconfiava: em nenhuma é referida a existência desta obra. Porquê? Não preciso de respostas de nenhum editor. Porque o Oscar Wilde era homossexual.

Esta série de posts está aberta à participação de todos. Escrevam sobre os livros que nunca deviam ter lido. Mais informações aqui.

4 comentários :

  1. Excelente texto, com o qual concordo.
    Apesar de tudo, são duas obras menores da literatura de cada um dos dois escritores, pelo seu cunho pornográfico.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Concordo que sejam duas obras menores, mas não concordo que seja pelo cunho pornográfico, isto é, uma coisa não é causa da outra. Podiam ser pornográficas e obras maiores. São simplesmente obras menores. Mas excelentes obras menores... Abraço.

      Eliminar
  2. A verdade é que não tenho, na minha vida, um único livro que não devia ter lido, ou um único sítio onde não devia ter ido.
    O bom e o mau fazem parte das aprendizagens globais e ajudam-nos a fazer escolhas.
    Mas tenho que acrescentar que, com o passar dos anos, perdi inibições que antes não me deixavam largar o livro antes do fim.
    Assim, nunca poderia participar no Livros que nunca devia ter lido.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Fico à espera da tua participação!!!

      Porque ao dizer «Livros que nunca devia ter lido», tal é dito ironicamente. Se houvesse mesmo algum livro que eu julgasse que nunca devia ter lido mesmo, Opus Pistorum, e Teleny, seriam dois candidatos...

      Eliminar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...