«Mais lágrimas são choradas por súplicas atendidas do que por aquelas que não o são». Súplicas Atendidas, de Truman Capote, traz como aviso estes versos de Santa Teresa. Esta foi a obra derradeira de Truman Capote, a obra megalómana tantas vezes anunciada, ansiada por uns, temida por outros, e nunca concluída. Truman Capote tinha uma visão aguçada que transformava em palavras afiadas, contundentes flechas que iam certeiras ao cerne do alvo, que feriam e aliviavam. Este foi o romance que foi «considerado o mais famoso romance não publicado da literatura norte-americana».
Seria publicado em 1986, dois anos após a morte de Truman Capote, mais de 20 anos depois de A Sangue Frio, a obra com que atingira já a imortalidade, o romance de não-ficção, ou de jornalismo literário, narrativa literária feita de maneira jornalística, narrando factos reais. Mas poderá isso realmente ser possível, poderá um escritor escrever não-ficção? Não é isso a antítese da escrita literária? Para escrever não-ficção não teria um escritor que deixar de o ser? E um escritor consegue não o ser? Truman afirma que sim, os escritores de não-ficção afirmam que sim. Mas todas as palavras dos escritores são isso mesmo: ficção. Não são verdade nem mentira, são ficção.
Súplicas Atendidas, obra que devia ser a derradeira - ironia do destino - não seria a última obra de Truman Capote a ser publicada. Em 2006, Travessia de Verão, talvez o primeiro romance escrito por Truman Capote, resgatado pelo porteiro do prédio onde morava, e que ele abandonara numa caixa com diversos documentos, à beira do passeio do pequeno apartamento em Brooklyn, que ia deixar depois de ter conseguido melhores perspectivas financeiras, com a publicação de A Sangue Frio, que aquelas com que até então vivera.
Terão as súplicas de Truman sido atendidas? Sim, se consideramos que Súplicas Atendidas contribuiu sobremaneira para a queda, o falhanço, o abandono, a solidão, a depressão: foram estas as lágrimas que Truman teve que chorar. Truman Capote pretendia que Súplicas Atendidas fosse o equivalente a Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, e seria um estudo do mundo dos ricos, da aristocracia da Europa e do Leste dos Estados Unidos, os mesmo ricos para quem Trumam organizava festas, e que o chamavam ao seu convívio. Os mesmos que o foram abandonando à sua solidão e depressão. Antes ou depois de ele próprio se ter abandonado?
O prazo de entrega foi sendo sucessivamente protelado; inversamente o adiantamento foi sendo sucessivamente aumentado. Em 1980 o valor a ser pago adiantadamente tinha subido para um milhão de dólares, a serem pagos aquando da entrega do livro. Nunca foi entregue. Publicado postumamente, Súplicas Atendidas entrou para a galeria dos grandes romances incompletos; grande romance em potência, demasiado incompleto para aquilo que foi sendo prometido. Era a obra derradeira, a a obra final, a magnum opus de Truman. Acabou - ironia dos destino - por nem ser a derradeira, nem a maior. A derradeira seria publicada 20 anos depois, a maior já havia sido publicada 20 anos antes.
Tenho um amigo que não aprecia as mulheres apesar de não ser homossexual. Costuma dizer-me:«As únicas mulheres com que me amanho são a Sra. Punho e as suas cinco filhas - é asseada, nunca faz cenas, é de borla, fiel e está sempre à mão.»«Obrigada», disse-me Miss Langman quando voltei. É extraordinário que uma pessoa da sua idade saiba assim tanto. Tão confiante em si próprio. Julgava que ia receber um aluno, mas, pelos visto, não há nada para ele aprender.»A última frase é estilisticamente característica - directa, sentida, mas um pouco enunciada, literária. No entanto, logo me apercebi como era valioso e lisonjeiro para um jovem escritor ser o protegido de Alice Lee Langman e, assim, fui viver para o apartamento de Park Avenue. Ao ouvir isso, Boaty, que não ousava opor-se a Miss Langman mas, mesmo assim, queria fazer intrigas, telefonou-lhe e disse:«Alice, só estou a dizer-lhe isto porque conheceu essa criatura em minha casa e sinto-me responsável. Tenha cuidado! O tipo vai para a cama com qualquer coisa - mulas, homens, cães, bocas de incêndio. Ainda ontem recebi uma carta furiosa do Jean (Cocteau). De Paris. Passou uma noite com o nosso amigo no Hotel Plaza. E, agora, como prova, apanhou um esquentamento! Só Deus sabe as infecções que essa criatura tem. O melhor é ir ver um médico. E mais uma coisa: esse rapaz é um ladrão. Roubou mais de quinhentos dólares em cheques falsos passados em meu nome. Podia metê-lo na cadeia amanhã.»
Truman Capote, in Súplicas Atendidas.



Tenho este livro aqui em casa, há anos, à espera de ser lido.
ResponderEliminarComo só recentemente voltei a devorar livros, penso que já faltou mais.