quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Guerra é Paz

Peace and War, Guerra e Paz, Guerre et Paix, Guerra y Paz


Da leitura de «1984», de George Orwell nunca consegui concluir se havia mesmo uma guerra. Numa sociedade como a descrita em 1984 é impossível concluir seja o que fôr. Não existe verdade nem mentira. Uma é sinónima da outra, da mesma maneira que guerra significa paz, ou liberdade quer dizer escravidão. O Grande Irmão controla tudo. A guerra que sempre foi com a Eurásia passa abruptamente, a meio de um discurso, a sempre ter sido contra a Lestásia. E numa semana de trabalho ininterrupto os funcionários do Ministério da Verdade reinventam todos os documentos que confirmam esta verdade. Ainda durante o mesmo discurso, funcionários zelosos do partido retiram em minutos todos os cartazes, panfletos, faixam que anunciavam o antigo inimigo. E aparentemente toda a gente sempre soube que a guerra é afinal contra a Lestásia...


Numa ou noutra combinação, estes três Super-Estados estão permanentemente em guerra, e assim tem sido nos últimos vinte e cinco anos. A guerra, porém, já não é essa luta desesperada e devastadora das primeiras décadas do século XX. É um combate de objectivos limitados entre contendores sem capacidade para se destruírem uns aos outros, nem causa material para se digladiarem ou qualquer divergência ideológica genuína a separá-los. (...) a histeria guerreira afigura-se permanente e universal em todos os países, e actos como violações, pilhagens, massacres de crianças, escravidão de populações inteiras, represálias sobre prisioneiros, incluindo mergulhá-los em água a ferver ou enterrá-los vivos, são considerados normais e até meritórios, desde que cometidos pelas tropas do próprio país e não pelo inimigo. (...) Nos grandes centros da civilização, a guerra manifesta-se apenas pela escassez constante de bens de consumo, e pela explosão ocasional de bombas podendo causar largas dezenas de mortos. De facto, a natureza da guerra mudou. Em rigor, o que mudou foi a ordem da importância das razões pelas quais se faz a guerra. (...)
(...)
O objectivo principal da guerra moderna (...) consiste em consumir os produtos da máquina sem subir o nível de vida. Desde o fim do século XIX, o problema de saber como utilizar os bens de consumo excendentários manteve-se latente na sociedade industrial. Hoje em dia, quando poucos seres humanos não têm sequer alimentos em quantidade suficiente, esse problema está muito longe de ser premente, e talvez não fosse mesmo sem a acção constante de processos artificiais de destruição. O mundo de hoje é pobre, faminto e devastado, em comparação com o mundo que existia antes de 1914, e mais ainda se compararmos com o futuro imaginário antevisto pelas pessoas dessa época.

George Orwell, in «1984»

Guerra e Paz, Peace and War, Guerre et Paix, Guerra y Paz

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