quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Carta de Suicídio


Se fosse obrigado a resumir a minha vida numa frase, seria com esta frase: «Sozinho nunca fui capaz, ajuda nunca tive.» E assim estaria feito o desenho de uma tragédia, a minha tragédia. O drama disto é que todas as vidas são uma tragédia.


Em momentos de extrema lucidez radicalizamos os nossos pensamentos, emoções, e comportamentos. Isto conduz-nos à cegueira.


Claro que fui capaz sozinho, fui sempre sendo capaz, não teria chegado aqui se o não tivesse sido. E também tive ajuda, tem-se sempre ajuda, nunca se está absolutamente sozinho, não teria chegado aqui se o tivesse estado.


Tudo isto pouco importa, e mais não é que o intróito com que inicio esta missiva. Um intróito como outro qualquer, de outra carta qualquer. Podia ter-vos perguntado se estava tudo bem, e dizer que esperava que sim. Mas por uma vez serei honesto. Nem quero saber se está tudo bem, nem espero nada. Se quisesse não estaria aqui, agora, a escrever-vos estas palavras, que nem sequer sei se chegarão às vossas mãos.


Enfim, não sei da justeza da frase. Sei que ela é justa com aquilo que sinto aqui e agora.



Talvez vos surpreenda. Talvez choque com a força do meu sorriso ou com a convicção das minhas palavras. Artefactos com que construia a máscara que ocultava a minha tristeza e o meu desânimo. Não era para vos enganar. Era a mim, apenas a mim, que enganava. Era para mim que, todos os dias, a todas as horas, colocava a máscara. Porém os débeis elásticos que a seguravam na minha face estavam a ceder, já mal a seguravam, e por isso tantas vezes levava as mãos à cara.


Com a máscara posta arranjava força onde já não a havia; podia seguir caminho quando me via no reflexo dos vidros de uma montra, ou quando me encarava em algum espelho. Não era a mim que via, era à energia que não tinha, a mesma que me dava força para continuar.


A coragem e a cobardia são filhos gémeos do medo.


Morri? Para morrer, morri tantas vezes. Até serem mais as mortes que as vidas infinitas que tem a alma. Por fim não tenho mais alma que sustenha este corpo de pé. Nos últimos meses custava-me levantar-me, era doloroso o convívio com outras pessoas, e insuportável o convívio interior; já não há nada a ressoar dentro de mim; quantos esforços empreendi em vão para tentar compreender a vida e as pessoas que a habitam.


Morri, não apenas porque nunca encontrei o meu espaço e o meu momento entre as outras pessoas, mas porque não o encontrei dentro de mim. Viver é para mim um peso maior que a vida.


Podia escrever-vos esta carta para vos dizer... Escrevo apenas para vos ocupar um pouco do vossos dias tão cheios. Não procurem uma explicação, ou uma justificação, o suicídio nunca as tem. O contrário pode não ser verdade.


Existem muitas maneiras célebres para morrer. Podia embebedar-me e tomar estupefacientes; podia consumir uma dose de narcóticos que provocasse uma overdose; podia atirar-me para a frente de um comboio de alta velocidade; podia afundar-me lentamente num rio de águas calmas, com os bolsos cheios de pedras. Havia a hipótese clássica de me atirar de uma ponte para um rio de águas gélidas: era uma hipótese com grande probabilidade de sucesso para quem não sabe nadar, e sê-lo-ia mesmo para quem sabe. Outra maneira seria engolir o cianeto roubado do laboratório de ciências nos anos de adolescência, e religiosamente guardado. Armas não tenho, mas suponho que não seria difícil arranjar uma caçadeira ou um revólver. Por fim, havia as formas mais vulgares: cortar os pulsos é sempre uma hipótese a ter em conta; e o enforcamento é o clássico dos clássicos, porém o mero vislumbre de asfixia demove-me de qualquer acção.


Sozinho não consigo, ajuda não tenho. Assim, aqui me deixo estar, já sem força para me levantar, nem apetite para comer, à espera que a minha companheira de tantas horas sombrias me venha afagar, e envolver nos seus braços negros. 


Despeço-me com este vulgar pedaço de papel, igual a tantos outros papéis vulgares, vulgarmente utilizados para este e outros fins.

N., S., 17/08/1999


JN: «Um terço dos jovens inquiridos em estudo pensou em suicidar-se.»

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