terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Carnaval - Poema de Álvaro de Campos

Heterónimos de Fernando Pessoa - de Lívio de Morais.


Para terminar o Carnaval em grande, publico um poema de Álvaro de Campos. Este poema é a minha única celebração carnavalesca. É difícil celebrar o Carnaval condignamente quando temos um (des)governo que o faz de forma exímia. Grande partida de Carnaval que o Troca-Passos e o Corta-Relvas pregaram. Mas o Povo não se deixou ficar, e deixou-lhes as repartições às moscas. Pena que seja só no Carnaval que o Povo lhes dê uma resposta...

A vida é uma tremenda bebedeira.
Eu nunca tiro dela outra impressão.
Passo nas ruas, tenho a sensação
De um carnaval cheio de cor e poeira…


A cada hora tenho a dolorosa
Sensação, agradável todavia,
De ir aos encontrões atrás da alegria
Duma plebe farsante e copiosa…


Cada momento é um carnaval imenso,
Em que ando misturado sem querer.
Se penso nisto maça-me viver
E eu, que amo a intensidade, acho isto intenso



De mais… Balbúrdia que entra pela cabeça
Dentro a quem quer parar um só momento
Em ver onde é que tem o pensamento
Antes que o ser e a lucidez lhe esqueça…


Automóveis, veículos, (…)
As ruas cheias, (…)
Fitas de cinema correndo sempre
E nunca tendo um sentido preciso.


Julgo-me bêbado, sinto-me confuso,
Cambaleio nas minhas sensações,
Sinto uma súbita falta de corrimões
No pleno dia da cidade (…)


Uma pândega esta existência toda…
Que embrulhada se mete por mim dentro
E sempre em mim desloca o crente centro
Do meu psiquismo, que anda sempre à roda…


E contudo eu estou como ninguém
De amoroso acordo com isto tudo…
Não encontro em mim, quando me estudo,
Diferença entre mim e isto que tem


Esta balbúrdia de carnaval tolo,
Esta mistura de europeu e zulu
Este batuque tremendo e chulo
E elegantemente em desconsolo…


Que tipos! Que agradáveis e antipáticos!
Como eu sou deles com um nojo a eles!
O mesmo tom europeu em nossas peles
E o mesmo ar conjuga-nos (...)


Tenho às vezes o tédio de ser eu
Com esta forma de hoje e estas maneiras…
Gasto inúteis horas inteiras
A descobrir quem sou; e nunca deu


Resultado a pesquisa… Se há um plano
Que eu forme, na vida que talho para mim
Antes que eu chegue desse plano ao fim
Já estou como antes fora dele. É engano


A gente ter confiança em quem tem ser…
(…)


Olho p’ró tipo como eu que aí vem…
(…)
Como se veste (…) bem
Porque é uma necessidade que ele tem
Sem que ele tenha essa necessidade.


Ah, tudo isto é para dizer apenas
Que não estou bem na vida, e quero ir
Para um lugar mais sossegado, ouvir
Correr os rios e não ter mais penas.


Sim, estou farto do corpo e da alma
Que esse corpo contém, ou é, ou faz-se…
Cada momento é um corpo no que nasce…
Mas o que importa é que não tenho calma.


Não tenciono escrever outro poema
Tenciono só dizer que me aborreço.
A hora a hora minha vida meço
E acho-a um lamentável estratagema


De Deus para com o bocado de matéria
Que resolveu tomar para meu corpo…
Todo o conteúdo de mim é porco
E de uma chatíssima miséria.


Só é decente ser outra pessoa
Mas isso é porque a gente a vê por fora…
Qualquer coisa em mim parece agora
(...)

Álvaro de Campos, in Poesia (pp. 67-70), Assírio & Alvim. (...) - representa partes ilegíveis do manuscrito deixado por Álvaro de Campos na arca de Fernando Pessoa. Além deste poema mais completo, existem outras três versões mais incompletas e inacabadas.

Imagem encontrada aqui.

4 comentários :

  1. Sim, este é outro Carnaval...
    Abraço
    o falcão

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  2. Como "burro morto, cevada ao rabo", o execrável Relvas veio anunciar que no próximo ano não haverá Carnaval para ninguém.
    Mas talvez não esteja lá no poleiro, para apreciar os resultados.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É importar Corta-Relvas enquanto ainda estão baratos... Abraço.

      Eliminar

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