quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Novilíngua



- Como é que vai o Dicionário? - disse Winston, erguendo a voz para se fazer ouvir no meio do barulho.
- Vai avançando devagar - retorquiu Syme. - Estou agora nos adjectivos. É fascinante.
O rosto iluminara-se-lhe assim que ouvira falar na novilíngua. Arredou para o lado a marmita, agarrou com uma das delicadas mãos o naco de pão, com a outra o queijo, e debruçou-se por cima da mesa para poder falar sem ser aos gritos.
- A Décima Primeira Edição vai ser a definitiva - disse. - Estamos a dar ao idioma a sua forma final, a forma que há-de ter quando ninguém falar nenhuma outra língua. Quando chegarmos ao fim, pessoas como tu terão que aprendê-la de novo. Julgas com certeza que a nossa principal tarefa é inventar palavras novas. Mas não é nada disso! Estamos é a destruir palavras, dezenas, centenas de palavras por dia. Estamos a reduzir a língua ao seu esqueleto.
(...)
Não compreendes a beleza da destruição de palavras. Sabias que a novilíngua é a única língua do mundo cujo vocabulário diminui ano após ano?
Winston sabia, claro. Sorriu, esperando que o seu sorriso traduzisse um assentimento, pois não se atrevia a dizer o que quer que fosse. Syme trincou mais um bocado do pão escuro, mastigou-o rapidamente e prosseguiu:
- Não vês que a finalidade da novilíngua é precisamente restringir o campo do pensamento? Acabaremos por fazer com que o crimepensar seja literalmente impossível, pois não haverá palavras para o exprimir. Todos os conceitos de que possamos ter necessidade serão expressos, cada um deles, exclusivamente por uma palavra, de significação rigorosamente definida, sendo eliminados e votados ao esquecimento todos os sentidos subsidiários.

George Orwell, em «1984». E ainda há quem se congratule com isto: «Words Banished from the Queen’s English for Misuse, Overuse and General Uselessness» (via Bibliotecário de Babel), e com outras formas de destruição das línguas, não é senhores idiotas do acordo ortográfico?

4 comentários :

  1. :) Estou a ver que não tenho hipótese consigo:) Escrevo - tento - de acordo com o acordo.:) Queimei-me na blogosfera, essa é a verdade :::)))

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  2. Eu só cumpro o acordo intuitivamente, naquilo que me parece bem e dou um exemplo: escrever sem hífenes certas palavras...
    De resto cago no acordo e com toda a força.

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  3. Fátima Laouini,

    este acordo, quanto a mim, é perfeitamente idiota. coisa de quem não tinha/ tem mais que fazer... Quanto ao resto, cada um é livre de fazer o que quiser, não discrimino ninguém por isso... mas que me desgosta ler em acordês, desgosta...

    Bjs.

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  4. Pinguim,

    E eu que gosto tanto de hífens :-)

    Abraço.

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