terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A Maçonaria. Abriu a época de caça às bruxas, perdão, aos maçons...



Agora que não se fala noutra coisa na televisão e redes sociais, recordei-me da primeira vez que ouvi falar desta sociedade discreta. Teria pouco mais de seis anos, ou talvez já tivesse sete, não poderia ter muito mais pois foi antes de o meu pai morrer. Estava em casa da minha avó, a lanchar, pão migado com leite e açucar. Não sei a que propósito foi, não me recordo do que falávamos, não sei o que disse. Sei que a minha avó me olhou com um olhar acusador e desconfiado, como quem aponta o dedo sem o apontar: «Tu és maçom». E desde então até bem recentemente, a minha avó sempre me acusou deste «crime»: "Tu és maçom!" Era a acusação com que dava por terminada qualquer conversa que não lhe agradava. Passei longas horas da minha vida a ouvir a minha avó, as sua história, as suas tristezas - começava sempre pelas tristezas, amaldiçoava a mãe que a abandonou, os primos afastados que a acolheram em casa e a encheram de trabalho e maus tratos, ainda não teria 6 anos, o meu avô que a enganou, pensava que fosse um homem melhor e casou com ele, e depois saiu-lhe isto, dizia. "Tu és maçom!" era a acusação e a desculpa que dava quando a inquiria sobre algum pormenor ou momento da sua narrativa que eu queria ver esclarecido. Dizia-me "Tu és maçom!" como se concluisse sem concluir "portanto não podes saber isto". Outras vezes era como se dissesse "portanto tu já sabes isto muito bem, não manques comigo". Mancar era a palavra que ela utilizava tanto para dizer «aleijar», que é o significado deste verbo, como para dizer «gozar». Talvez porque os mancos fossem frequentemente vítimas de gozo. Mas não o dizia, deixava a frase pelo "maçom".
Só tive conhecimento efectivo desta sociedade quando aos 15 anos comecei a ler textos de e sobre Fernando Pessoa, que em 1935 escreveu o artigo «Associações Secretas» no Diário de Lisboa, na sequência de um projecto de lei apresentado por José Cabral (Dr.) com o objectivo de extinguir as Associações Secretas, e por conseguinte a Maçonaria. De qualquer modo, nunca consegui que a minha avó me dissesse porque é que eu era um «maçom». Nem sequer que me respondesse à pergunta «Mas isso é bom ou é mau?» Acresentava então o artigo indefinido: «Tu és um maçon...» Como que a dizer-me que não me sabia dizer se isso era bom ou mau... [Para inveja dos outros netos, fui sempre o seu neto dilecto.]

2 comentários :

  1. Sobre todo este assunto só não percebo porque é que o Jorge Silva Carvalho não está preso...
    Não por ser maçon, mas por ter usado a maçonaria e de forma gravosa para o país, em benefício próprio.

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  2. Pinguim,

    há tanta gente neste triste país que devia estar presa... uma tristeza... Abraço.

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