sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Geração à Rasca



Para escrever este texto que propus a mim mesmo escrever, socorri-me do bloco referido no balanxo 2011, pois há bastante tempo que se tornou evidente para mim próprio que não consigo escrever no computador; por isso tenho procurado uma máquina de escrever, mas como sabem já não se fabricam.
O texto vai ser longo. Podia eliminar estes devaneios todos e os que se seguirão, e ir directo ao assunto, para que os meus caros leitores não desistissem da leitura; infelizmente isso teria dois senãos: não sei se há verdadeiramente um assunto a que se possa ir de modo directo e, como se calhar o melhor que têm a fazer é abandonar a leitura deste texto, pois não há absolutamente nenhuma prova de que este texto venha a ter o mínimo interesse seja para quem for, e - dizia - estaria a fazer-vos perder tempo de qualquer maneira. Ainda assim, ainda que corra o risco de que ninguém o venha a ler, hoje escrevo para mim mesmo antes de mais, e só depois para quem possa vir a ter algum interesse em lê-lo.

Não é um texto científico, nem pretende defender, demonstrar, ou explicar o que quer que seja: escrevo como durante anos escrevi, nos meus diários de papel - que foram agendas, cadernos, folhas soltas - que nunca foram lidos por ninguém: se andar por aí algum daqueles amigos que sempre tiveram curiosidade em saber como era aquilo que escrevia nos diários, agora podem ter uma ideia aproximada. E grande parte deles não só nunca foram lidos por ninguém, como também nunca poderão vir a sê-los, uma vez que foram destruídos: queimados, para ser mais específico. Dos que havia entre os 15 e os 18 anos, nenhum sobreviveu, à excepção de umas sete ou oito folhas soltas. E ficou a minha memória para me enganar da mesma maneira que me enganavam os diários.
Nem sequer vou ter o cuidado de procurar substituir esta ou aquela palavra por outra mais apropriada: escrevo conforme me flui o pensamento, embora seja difícil acompanhar tal torrente com o lento manejar da esferográfica sobre o papel. Mais difícil agora que quase tudo é escrito no computador, e a minha letra se transformou em dolorosos gatafunhos. Enfim, por onde começar?

Antes quero dizer que este texto absolutamente inútil poderá prolongar-se por muitas folhas (tenho 10 blocos destes) e por muitos dias, ou pode acabar de repente, ou pode nunca vir a ser publicado no blog, o que não será o caso, no caso de estarem a ler isto. E também quero dizer que não me darei ao trabalho de cortar excertos, por mais inúteis que sejam, nem de trocar palavras, nem de lhes alterar a ordem para lhes dar mais sentido, ou algum sentido, sequer. O mais que farei será corrigir algum erro, que a minha dislexia nunca me permitiu escrever sem erros: e se no computador isso é fácil de corrigir, mesmo no momento em que se escreve, num texto à mão, que não tenha sido passado a limpo, os erros acumulam-se. Também poderei acrescentar e completar palavras que pela mesma razão deixo a meio, ou simplesmente omito, quando estou a escrever.
Geração à rasca. Há muito que queria escrever um texto sobre este tema. Ainda que o mais provável seja que no fim não tenha dito nada sobre o mesmo. Um texto de alguém, que por acaso sou Eu, que sempre viveu à rasca, todos os dias, desde o dia em que nasceu, qualquer coisa como 11150* dias (números arredondados, que não estou com pachorra para ir saber quantos dias tenho, limitei-me a multiplicar os meus anos pelo número de dias de um ano). Há coisa de 30 anos e alguns, cada vez mais, meses. E ainda assim, já tive o privilégio de nascer no hospital da capital de distrito, embora na certidão de nascimento conste a aldeia onde viviam os meus pais. Sim, efectivamente, nasci na Guarda. Foi o Ar da Guarda o primeiro que respirei com os meus pulmões.

Tenho algumas memórias que situo aí por meados dos quatro anos. Bastantes a partir daí. Mas que sei dos meus primeiros anos de vida? Nada, ou o mesmo que a maioria de vós. Ainda assim tudo me leva a crer que não foram menos à rasca que todos os outros que se lhe seguiram. Vou começar pelo principio, ou pelo menos pelo princípio menos distante, que para trás disso o meu desconhecimento é quase total.
Nas minhas confabulações, o acaso que marca o início da série de acasos que levou ao acaso de Eu por acaso existir aqui, hoje, foi o dia, por volta de 1910, em que o meu bisavô paterno, António Barreiros (outros acasos da vida, ou do registo civil, não sei, levaram a que eu não tivesse o nome de família que deveria ser o meu: Barreiros), tomou nos seus braços a decisão, a mulher, e os dois filhos então nascidos (viriam a ter mais nove - contando apenas aqueles que chegaram à idade adulta - ainda é viva uma das minhas tias-avós: fará 100 anos no próximo dia 01 de Maio de 2012), de sair de Badamalos, onde tinha casa, terrenos, e conflitos irreconciliáveis com o cunhado (talvez por causa de partilhas, que outra razão?). Veio construir uma casa num sítio que hoje se chama - oficialmente! - Quinta dos Badamalos. Tenho um certo orgulho neste homem que nunca conheci!

O meu avô paterno, que ficou com o último nome da mãe, antecedido pelo do pai, e não o contrário, como todos os outros irmãos, e que é hoje o meu último apelido, o chamado nome de família, era o filho mais velho, nascido em 1895, e participou pouco depois na I Guerra Mundial, não sei a que título (diz-se que se voluntariou; viria a participar também na Guerra Civil Espanhola, como GNR), e casou pela primeira vez com uma rapariga de Badamalos, com quem teve dois filhos, meus tios (um rapaz, o mais velho, e uma rapariga; ou será ao contrário? A minha tia ainda é viva, com 91 anos, o meu tio faleceu em 2010). Muitos anos depois casará pela segunda vez, com a minha avó paterna, uma senhora alguns anos mais nova, duma aldeia chamada Pai-Penela, que talvez tenha conhecido nas suas patrulhas enquanto GNR (patrulhas que consistiam em fiscalizar o vinho, bebendo-o, para confirmar se era ou não falsificado e qual a sua origem, não fosse ele do contrabando). Antes do meu pai, nasceu-lhes um outro filho, meu tio portanto, quando o meu avô estava já muito perto dos 60 anos.

Os acasos do lado materno da questão não são menos, mas são menos do meu conhecimento. A minha avó materna foi abandonada pela mãe, minha bisavó, deixada ao cuidado da minha trisavó, sua avó, filha que era de pai desconhecido, ou incerto. Nunca mais se soube nada da minha bisavó, e a minha trisavó morreu pouco depois, tendo a minha avó ido viver para a aldeia ao lado onde tinham uns incertos parentes que nunca lhe deram nada além de trabalho e maus tratos. Foi nessa aldeia que conheceu e casou com o meu avô (que tinha um irmão e duas irmãs, mas não sei nada para trás disso), e vieram então viver para a aldeia de onde a minha avó tinha saído, e onde tinha algumas propriedades: terrenos e, com muito boa vontade, parca habitação que herdara da sua avó, minha trisavó. Aldeia essa que é a mesma onde foi fixado o meu nascimento na certidão do registo civil, onde nasceu a minha mãe, e para onde - depois de incertas peripécias de quem fugiu da escola no primeiro ano, e nunca mais lá voltou, de quem cedo ficou órfão de mãe, a quem o pai nada ligava ou dava porrada - o meu avô viria a falecer com quase 80 anos, com o fígado destruído, aposentado compulsivamente da GNR, depois de ser apanhado no jogo clandestino: apanhado a jogar clandestinamente nas horas de expediente, em São João da Pesqueira - para onde o meu pai veio viver para casa de um dos muitos primos, pai da minha madrinha e prima em terceiro grau se não me engano a contar.

Vamos lá então à geração à rasca. A primeira casa onde me lembro de ter vivido não tinha casa-de-banho, nem água canalizada. Nem a segunda, nem a terceira. (Oh Pedro Passos Coelho, olha que eu só tomava banho um vez por semana, às vezes passavam mais dias que a semana regulamentar, e era numa banheira, daquelas que parecem um alguidar grande, e era com água aquecida na panela à fogueira, não me venhas agora tu falar de banhos.) Mas a eletricidade já tinha chegado à aldeia, penso que há pouco tempo, e tínhamos uma TV. A preto-e-branco, mas apanhava os 2 canais, e ainda hoje funciona, muito melhor que essas tralhas que agora se vendem para durar meio ano. Ah!, e tínhamos fogão a gás! Mas isso era para o Verão, quando não se acendia a lareira. Ainda me lembro como se fosse hoje do dia em que vieram trazer a casa o frigorífico!, e um fogão novo, que o outro era um perigo que a qualquer momento podia provocar estragos.

E entretanto, entretanto nasceu a minha irmã. Tinha eu 5 anos, ou quase. E então é que era à rasca, mesmo à rasca. À rasca era os meus pais irem tratar das hortas e dos animais (um rebanho de ovelhas e uma!, vaca) e eu ficar em casa a tomar conta da minha irmã. Sabem lá o pânico que senti no dia em que a minha irmã continuava a chorar desalmadamente depois já lhe ter dado de comer e de lhe ter falado baixinho junto à carinha, e de lhe ter feito festinhas e dado miminhos, e da a ter embalado nos meus braços, sabem lá! Enquanto não tiverem sentido esse pânico com pouco mais que 5 anos de idade, não saberão o que é estar à rasca! [Ah, se eu ainda chorasse, era nesta parte que chorava]. Onde estarão os meus pais? Era o que eu pensava, mas eles tinham saído cedo e eu ficara com instruções do dia anterior, e do dia antes desse, e já nem eram preciso instruções, para tomar conta da minha irmã. Os meus avós também não estavam na casa deles, e vizinhos não havia nenhum por perto àquela hora. E eu não fazia a mínima ideia do que é que tinha a minha irmã, e ela chorava, e chorava, e chorava cada vez mais, já estava roxa de tanto chorar, e eu já tinha feito tudo o que sabia e estava em pânico, e em pânico somos incapazes de pensar. Foi a primeira vez que amaldiçoei a vida, e nunca mais deixei de a amaldiçoar.

Talvez queiram saber o que se passou depois? Depois o meu desespero e as minhas lágrimas foram invadidos pelo cheiro nauseabundo de fraldas que precisam de ser urgentemente mudadas. Nunca fizera tal operação, mas já a vira fazer. Não quereis que vos ensine? Não sei quanto tempo passou desde que a minha irmã começou a chorar assim sofregamente. 10 minutos? Meia-hora? Uma hora? A mim pareceu-me um século, o século mais longo da minha vida, e já tive muitos séculos nesta vida que passei a amaldiçoar.
Com cinco anos fazia comida para mim e para a minha irmã, quando tinha fome e por qualquer motivo a minha mãe e o meu pai se atrasavam. Descascava as batatas e metia-as a cozer. Sempre no fogão, que eu não gostava da lareira (acho que tinha medo de me queimar, não sei; hoje em dia adoro mexer em lareiras). Fazia uma salada de alface, tomate, ou pepino (se fosse a época, que não havia cá supermercados); cozia ovos ou estrelava-os. O meu pitéu preferido eram ovos mexidos com pão, ou a Cerelac que a minha irmã já não queria (eu fazia muita para poder comer o resto).

Por esta altura vi pela primeira vez o meu tio (irmão do meu pai), a mulher, e a filha, minha prima. Apareceram-me a bater à porta, e disseram-me quem eram. Eu nem sequer sabia que existiam. Disse-lhe que esperassem na rua que ia chamar os meus pais. E lá fui. Eles queriam ir comigo, mas não deixei, fui por ali abaixo. Lembro-me que um ou dois dias antes tinha rompido uma sapatilha que a minha tia (meia irmã do meu pai) me tinha dado, pelo que nessa altura me encontrava meio-descalço. Tinha uma botas, mas era coisa que não gostava de calçar, não porque não fossem confortáveis, mas porque era Verão, e não me gostava de ver dentro delas. Felizmente os meus tios compraram-me umas sapatilhas novas. E fui passar férias com eles. E voltaram para França com a promessa que nos viriam visitar mais vezes. Voltei a vê-los, se não me engano, três vezes, uma das quais no funeral do meu pai. A última vez em 1993. A minha tia (a meia-irmã do meu pai) também deixou de aparecer. E o meu outro tio (meio-irmão do meu pai), tenho a vaga ideia de o ter visto no funeral do meu pai. Dizem-me que sim, que esteve presente. Foi a única vez que o terei visto na vida. Quando o meu pai faleceu tinha eu 7 anos e meio [falei aqui disso]. Era conhecido por alguns por Zé dos Badamalos, embora não tivesse nascido em Badamalos, outros conheciam-no por Zé Comunista; não sei ao certo se alguma vez esteve inscrito no PCP, embora saiba que era das relações dos comunistas da zona, sim, daqueles cujos nomes terão ficado na história, se não a vierem a reescrever, daqueles que conspiraram contra o Estado Novo. Não sei se tinha ficha na PIDE; talvez pelo facto de ser oficialmente analfabeto não lhe dessem grande importância. Foi a todas as Festas do Avante que houve enquanto foi vivo.

Depois fui para um colégio interno, onde deram trabalho (tenho tanta dificuldade em escrever trabalho, mas isso é outra história) à minha mãe. Tinha 8 anos. A minha irmã tinha 3 e foi para outro colégio da mesma instituição, onde andou até completar a 4.ª classe; foi depois para outro onde andou a até ao 9.º ano. Quando saiu para fazer o secundário, já eu andava na Universidade. Isto para dizer o quê? Para dizer que depois de ter perdido o meu pai, perdi a minha irmã, e via a minha mãe alguns minutos.
Sabem? Preferia ter passado fome. Ainda estou vivo, aqui, agora, a escrever estas palavras (sei tantas palavras, tantas palavras mesmo, algumas de que às vezes até me esqueço por não ter oportunidade de utilizar, tantas palavras que não me servem de nada, mas gosto muito delas todas: eu decorava palavras para as conseguir escrever correctamente: é que cada palavra dava direito a uma reguada, e eu levei tantas. A professora até me queria chumbar na 4.ª classe por causa dos erros que dava. Quando soube das minhas notas do 5.º ano ia tendo um ataque cardíaco.), ainda estou vivo, mas a prisão onde a vida me enfiou (sim, havia redes e tudo, redes nas janelas para não fugirmos), essa prisão matou um pedaço enorme daquilo que à falta de melhor palavra terei que chamar alma.

Se vos dissesse que aos 8 anos, no meio das minhas angústias e desesperos, no meio do meu choro seco, das lágrimas que ocultava para não fazer sofrer a minha mãe, me interrogava sobre questões que a maioria das pessoas que conheço (das outras não posso, não tenho como saber; trocava mil das minhas dúvidas por meia certeza, delas) nunca farão a si mesmas, dirão que estou a confabular, não é? Que é que isso importa agora? Vamos continuar a deambular pelo meu pensamento desconexo, isto é, se é que ainda há alguém que me esteja a ler neste ponto. Se calhar queriam um texto sobre a Geração à Rasca? Pois. Eu bem vos avisei que era um texto de alguém da geração a que deram esse nome, que sempre viveu à rasca. Não é sobre a Geração à Rasca. Não me vou imiscuir num território onde já tantos tudólogos chafurdaram e emitiram opiniões do alto do seu conforto aconchegado. Não. Este texto é mesmo assim. Sobre isto e aquilo. Ou sobre mim. duma maneira como nunca antes o fizera (sim, excepto nos meus diários, mas aí era só para mim que escrevia,  e por isso é natural que alguma diferença haja no conteúdo e na forma, ainda que pequena).

Não sei qual o tamanho que isto terá no blog, mas aqui no bloco já tem três folhas e meia. Entretanto os anos passaram, como sempre passam. E eu queria ir-me embora, mas não fui [como já aqui escrevi]. Nunca fui verdadeiramente aplicado. Não por ser preguiçoso, como muita gente me insinuou ao longo da vida, mas porque por dentro sempre fui um tumulto. E os recursos e a motivação não abonavam. Especialmente durante o secundário isso teve um grande impacto. Ainda assim conclui o mesmo com média 16, mesmo depois de um último ano desastroso, em que só faltou cortar os pulsos bem fundamente. E posso dizer, porque é verdade, e porque não devo nada a ninguém [bem, excepto algumas prestações do carro, e não é bem dever porque nenhuma está em atraso, que ainda não sei bem como é que vou pagar, mas logo se vê], posso dizer que fui bastante prejudicado (e quantas vezes isso contribuiu também para a minha desmotivação!): por exemplo, numa disciplina em que a minha nota mais baixa durante todo o ano foi 17,5, foi-me dado um 14 (que subi para 15 com a prova global).

A minha maior glória, e vingança, desses tempos foi a Ciências (da Terra e da Vida, era assim que se chamava a disciplina). Querem saber mesmo o quê? Fiz 3 testes em 50 minutos, dois dos quais a imitar a letra dos respectivos, e com respostas diferentes: os meus colegas tiveram 19,5. Eu só tive 17,5 (foi a minha nota mais baixa a esta disciplina), pois com a pressa para conseguir acabar o meu teste propriamente dito, enganei-me numa resposta. Porquê vingança? Porque eu queria um 20, eu tinha notas para 20, e nunca me deram o 20.
Cometi erros? Tantos! Quem não cometeu? O meu maior erro foi confiar demasiado que melhores dias viriam (mas era no fundo a minha única motivação, e a minha única esperança). Era inteligente e tinha a vida toda pela frente, embora já então trocasse isso por uns dias de beleza [já vos contei que muitos dos meus parentes do lado paterno são louros de olhos azuis? Pois, não tenho sorte nenhuma, nem na hora de remisturar os genes]. Sobrestimei demasiado a inteligência (ao ponto de me dar ao luxo de não estudar rigorosamente nada), e desprezei demasiado a «amizade» daqueles que apenas se lembravam de mim quando tinham algum interesse. Se me arrependo? Sinceramente, para falar sinceramente [Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Tenho sempre um verso do Fernando Pessoa à mão, acreditem], não sei. Sei que algumas pessoas - infelizmente a maioria, nesta sociedade corrompida - me provocam verdadeiro asco. Não tenho carácter para esta vida. Mas que me resta senão viver?

Agora talvez comece qualquer coisa que possa minimamente interessar a quem por aí anda a fazer análises, e reflexões, e estudos, sobre a Geração à Rasca. Neste ponto refiro-me em concreto àqueles que sofrem de Licenciatura, Mestrado e outras doenças, como diziam num cartoon, não exactamente com estas palavras. Licenciados como eu, desempregados ou com trabalhos precários, ou com trabalhos que nada têm que ver nem com a área de estudo nem com as habilitações, ou que emigraram.
Hoje, se voltasse atrás, iria estudar outra coisa qualquer: mas é isso que a vida tem de maravilhoso, não podemos voltar a cometer o mesmo erro, quanto muito podemos cometer outro igual. Na altura a escolha recaiu (dentro daquilo que a média permitia), numa área que eu sabia (e era verdade, pelo menos no que se refere à área de pré-especialização que vim a fazer, e que era a que eu queria) que teria trabalho. Hoje o critério seria outro: tentaria estudar algo que me permitisse sair daqui imediatamente: algumas engenharias para alguns países (Noruega); ou enfermagem, para a Noruega, a Inglaterra, ou a Suiça, é só escolher. Claro que se fala por aí muito dos índices de empregabilidade. Tenho pena das pessoas que hoje vão decidir em função disso; quem lhes garante que quando acabarem, os índices de empregabilidade são os mesmos? Esses idiotas que falam que as pessoas tiraram cursos que não servem para nada, esses mentecaptos também acertam no Euromilhões depois da chave ter saído. Enfim, este seria o meu único critério para a escolha da Licenciatura: uma Licenciatura que me permitisse sair daqui para fora fácil e rapidamente.

Mas, em boa verdade, se fosse hoje, por mais que quisesse, não tinha a menor hipótese de ir estudar. Afinal vivia da bolsa, que era pequena (embora houvesse tantos com bolsas maiores e conduzissem mercedes), e de muita e complicada engenharia financeira. Ainda assim tinha uma regra: o dinheiro que de quando em quando a minha madrinha me dava era para comprar livros. E conseguia utilizá-lo para isso mesmo. Conclui com média 15, nunca deixei uma cadeira em atraso, que isso significava menos uns pozinhos no valor da bolsa; no certificado, papel, ou lá o que lhe queiram chamar, que eu ligo muito pouco a formalidades bacocas, diz que conclui com a classificação de «Bom». Se eu vos fosse contar todos os meus desesperos, angústias, e outras coisas que tive que suportar, talvez tivessem que concluir que a classificação é «Excelente». Infelizmente para mim, como para tantas outras pessoas neste país, quem não têm carácter ou cunha para tal, tal não serve. Olhem, consegui acabar uma Licenciatura, para a qual era preciso média quase 17 (não me recordo ao certo) para entrar, nos 5 anos regulamentares. E tendo em conta o estado de exaustão física, emocional, e psicológica, em que me encontrava quando acabei, direi que foi um grande feito. Um feito possível num intervalo de tempo único, que talvez não se venha a repetir. Sou pessimista, não sei se por natureza, se por defeito, se por causa do pânico que um dia me invadiu.

(Quanto aos políticos, e toda a tralha em volta, deste país, obviamente só há uma coisa a dizer-lhes: vão para a puta que vos pariu!)

Raios me partam se não hei-de sair deste país muito em breve! Não sei se me conseguirei safar em algum lugar, mas prefiro morrer à fome numa rua de Genève ou Paris, que viver neste país.


(Escrito em Dezembro de 2011) 

*Exactamente 11188 dias, a 08 de Janeiro de 2012

Post-Scriptum: para todos aqueles que procuram sempre uma moral da história, como se houvesse alguma moral na história, direi em jeito de conclusão: se aqueles que se dizem da geração à rasca, se houvesse mesmo uma geração à rasca para quem as condições sócio-económicas fossem insuportáveis, talvez muito já tivesse mudado, há muito. Infelizmente, o que mais vejo nesta «geração à rasca» é um enorme conjunto de indivíduos que nada quer mudar, mas que somente se revolta por ver escapar-lhe por entre os dedos os privilégios que sempre pensaram, deram, e assumiram como seus. Enfim, o que reclamam não é uma mudança, mas que tudo mude para voltar a ser o mesmo. Quando quiserem uma verdadeira mudança, uma mudança verdadeira acontecerá. Até lá, continuará o folclore...

12 comentários :

  1. A máquina NÃO é uma Hermes, hélas... Aliás, hoje não faço a menor ideia de qual seja a marca, já que a mesma «desaparexeu» com o tempo: era um daqueles decalques que vão saindo.
    Quanto ao «ler mais», é favor dar algum tempo aos leitores! Amanhã espero concluir a leitura. A noite de hoje é sagrada, porque amanhã de manhã há análises clínicas a fazer.
    Gosto da iniciativa de publicação.
    Abraço!

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  2. Tal como o Ric, só hoje li "o mais" e afinal ´´e lá que está toda a riqueza, que é muita do teu texto.
    A geração à rasca de hoje que ponha aqui os olhos.
    Sabes que não gosto de bajular ninguém; por isso fico-me por um único adjectivo, mas em maiúsculas: EXCELENTE!

    E volto a questionar-te como fiz no FB; "achas que são inúteis?".
    Sim, já li a tua resposta...

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  3. Não sabia de algumas coisas que aqui escreveste, porém, outras são do meu conhecimento pessoal.
    Posso dizer-te que li o texto todo seguido..., apesar de ter demorado quase uns 40 minutos a lê-lo.
    Bem, uma coisa é certa, somos a geração a rasca.
    Tens aqui escritas umas partes muito interessantes...
    Gostei muito do teu texto, mas sei que isto não é só um texto qualquer, é uma pequena parte da tua vida.
    Não desesperes agora.
    Aqui fica um grande abraço por tudo.

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  4. impressionante como a vida que já te trouxe tantas provações continua a trazê-las. se eu fosse um crente dizia-te que tinhas um lugar bonito no céu à tua espera. se eu acreditasse em vidas múltiplas, dizia-te que o teu karma ia dar-te extremas vantagens numa próxima vinda da alma à terra. a ausência de uma finalidade pós-fim da nossa matéria, na minha filosofia, não me permite enveredar por nenhum desses padrões. mas permito-me a desejar-te que procures e encontres a felicidade. mesmo com muitos becos sem saída como os que já atravessaste ou atravessas, a minha única crença é que, oferecendo-te ao caos, um dia vais encontrar o caminho certo. e o teu conjunto de moléculas vai fazer aí ainda mais sentido.

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  5. Bem,

    Não sei bem que dizer...depois de começar um email e direcionar-me para o blog pra acabar de ler o texto...tens talento em cativar na leitura, isso se calhar é o teu grande dom, se assim se pode chamar...Uma coisa é certa, cada um de nós tem suas lamentações, nada melhor que tentar ultrapassar e dar um rumo a nossa vida, nem que para isso seja preciso procurar um lugar melhor, mesmo que esse lugar seja algo distante...

    Um forte abraço e ficam aqui os meus parabéns...

    Depois falamos...

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  6. Olha digo-te, como tu já sabes, detesto ler e não lia nada tao grande talvez á uns anitos, mas valeu a pena, aquele abraço.

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  7. Meus caros amigos,

    Peço desculpa por não responder individualmente a cada uma, mas ando sem vontade, ou paciência, não sei...

    Quanto às vossas palavras, direi apenas que não tenho certezas, nenhumas, nem uma apenas, a que me pudesse agarrar. Só tenho dúvidas. Tento não perder a lucidez (a pouca que ainda tenho).

    Obrigado pelas vossas palavras. Um forte abraço a todos.

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  8. Ora... eu fui uma daquelas pessoas que ameaçava constantemente ler os teus diários, e não era só porque sabia que isso te irritava (e isso me divertia), mas acima de tudo porque tudo o que escrevias era intenso, logo matéria de interesse! A tua escrita prende e dá vontade de ler mais e mais... Foi o que aconteceu com este texto que acabei de ler! Quando dei por mim já estava no fim! Foi um prazer voltar a ler um texto teu... Desejo profundamente que a vida te sorria pois tu mereces! Aquele abraço e um bjo*

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  9. Fui à feira de Aveiro- Dias Europeus do Emprego- e pareceu-me ter-te visto lá. Lembro-me de te ver andar pela faculdade. Eu tiraria o mesmo curso, parece que não aprendi nada, mas ainda tenho esperança de vir a trabalhar em Psicologia, não neste país, claro. Também eu quero sair deste país o mais rápido possível. Estabeleci uma meta.. até Maio tenho que ir embora. Vamos ver o que me acontece.

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  10. Olá Ana Martins, pelo nome não sei quem és... Adiante. Viste-me e não me falaste?! Beijinhos. E boa sorte.

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  11. Não me conheces, reconheci-te porque foste da turma de uma rapariga que viveu comigo e ias lá a casa. Entrei 1 ou 2 anos mais cedo que vocês. Identifiquei-me na magoa (rancor?) por este país que me virou as costas. Boa sorte também.

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  12. Podias-me ter falado na mesma! Há dias em que sou muito sociável... Embora não sejam a maioria :-)

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