domingo, 22 de janeiro de 2012

Ah, se te queres matar...



Nas horas sombrias de adolescente angústia lia Álvaro de Campos pela noite fora. Há sempre um verso de Fernando Pessoa & Ca. a levitar no meu pensamento, e vêm à tona da minha consciência nas ocasiões mais estranhas e inusitadas. Quando caminho pelas ruas ou percorro as estradas, quando me sento à conversa numa mesa de café, quando escuto as conversas alheias, ou vejo a absorta televisão. Quando vejo um jogo de futebol, ou estou estendido em estivais areias. Às vezes ao escutar a rádio, quando ouço as notícias, ou quando mudo para o CD. Quando observo uma rapariga que passa, ou vejo crianças a brincar. Por vezes não é um verso, é uma frase de Bernardo Soares, ou uma ideia das ideias absurdas de Fernando Pessoa sobre economia ou política. Um comentário sobre o Benito Mussolini, que devia ter fixado morada em profeta, ou o comentário sobre igualdade, em que fala de operários, macacos, e homens cultos - não vou transcrever o comentário para aqui, que aquilo envergonha-me. Sim, sinto vergonha alheia pelo Fernando Pessoa.
O que nunca tinha acontecido, pelo menos que o saiba o meu cérebro consciente, tinha sido andarem versos de Fernando Pessoa a atravessarem-se nos meus sonhos. Os mesmos versos de Álvaro de Campos que amainavam as minhas fúrias suícidas da adolescência, vieram angustiadamente acordar-me a meio da noite, depois de apenas três horas de sono. Fernando, eu gosto muito de ti! Mesmo quando escrevias imbecilidades indignas do teu génio. Mas deixa-me dormir em paz!



Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!


Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...


A mágoa dos outros?... Tens remorso andiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...


Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão vísivel e material,
E dos homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentado entre as últimas notícias dos jornais da noite,
Interseccionando a pena de teres morrido com o último crime...
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...


Depois a retirada preta para o jazigo ou cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...


Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.


Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?


Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem,
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?


És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?


Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? o que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?


Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...

2 comentários :

  1. Pois é, meu caro, acontece o mesmo a muito boa gente... E o pior é ser Ricardo Reis que entra pelo sonho adentro, qual figura da «Chuva Oblíqua», recita uma ou duas odes e eu dou comigo aflito, à procura de um dicionário que (não) encontro nenhures... E acordo então, com a sensação de ter corrido a maratona...

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    1. A mim foi a primeira vez que me aconteceu. Os meus sonhos (mais pesadelos) sempre tiveram outras questões não mais importantes, mas mais prementes, para debater consigo mesmo... Agora deu nisto... E é que acordei mesmo angustiado; uma daquelas angústias em que só apetece enfiar o comprimido de cianeto pelas goelas abaixo... Abraço.

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