quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

1984, de George Orwell - livros que nunca devia ter lido, 13

1984 George Orwell, Big Brother
A morte do líder querido, Kim Jong-il, reavivou-me na memória a história de Winston Smith, protagonista de 1984, romance distópico de George Orwell. Qualquer semelhança entre a Oceânia, em 1984, e a Coreia do Norte, pode não ser pura coincidência. Coincidência é o romance ter sido escrito, ou acabado, no ano em que o grande líder eterno, Kim Il-sung, chegou ao poder. 1948.

Num momento em que a Europa caminha a passos lestos para um paradigma que, à semelhança da China, junta o pior de dois mundos, o pior do capitalismo e o pior do comunismo, esta é uma obra a ter em atenção. Para sabermos aquilo que nos espera, ou para sabermos aquilo que temos que evitar que aconteça. O Grande Irmão, Big Brother, indica-nos o caminho, diz o que temos que pensar, como temos que o pensar, de preferência não devemos pensar, o que temos que fazer, como o fazer, não importa porque é que temos que o fazer, como temos que viver, onde temos que viver, com quem podemos viver. Só há um pensamento, só há uma visão do mundo, só há um destino, só há um caminho. 

Neste grande plano desenhado pelo Grande Irmão, o grande lider, querido e eterno, as pessoas são um pequeno, pequeníssimo pormenor, sem importãncia nenhuma. As pessoas já não são pessoas, pensar é crime (o duplopensar), amar é proibido (a cópula só pode ter fins reprodutivos, e não pode envolver emoções: é apenas um acto físico ao serviço do partido), e quem vai contra a ideologia (crimepensar, o mais grave dos crimes, que no fundo encerra todos os outros) é simplesmente apagado, transforma-se uma impessoa (uma pessoa que a máquina do partido se encarrega de fazer desaparecer de todo e de qualquer registo, de modo a que não só deixe de existir, mas de maneira a que nunca tenha existido). Qualquer semelhança entre o mundo do Grande Irmão, com a sua ideia única, o seu caminho único, e a sua visão única, as únicas admíssiveis, as únicas possíveis, e o trilho da Austeridade da Europa de Sarkozy e Merkel, e companhia, do não há alternativa, não é pura coincidência.

Há sempre outro caminho, há sempre outra solução, há sempre alternativa. Enquanto houver um homem ou uma mulher, como Winston Smith ou Júlia, que se recusem a não-pensar e a não-sentir, haverá sempre outro caminho. Ainda que no fim a grande máquina trucidante nos engula com as suas mandíbulas, cabe-nos resistir. Resistir sempre, a qualquer tipo de autoritarismo, de esquerda ou de direita, dos governos ou dos mercados, do comunismo ou do capitalismo, do socialismo ou do fascismo. Resistir sempre, resistir a qualquer opressão.

(Nunca gostei de reler livros. No entanto a crise assim o ordena. Ando a reler 1984, de George Orwell; mais logo seleciono um excerto para vos deixar aqui.)

(Era para transcrever um excerto do livro; depois lembrei-me que já tenho este publicado aqui no blog):

- Como é que vai o Dicionário? - disse Winston, erguendo a voz para se fazer ouvir no meio do barulho.
- Vai avançando devagar - retorquiu Syme. - Estou agora nos adjectivos. É fascinante.
O rosto iluminara-se-lhe assim que ouvira falar na novilíngua. Arredou para o lado a marmita, agarrou com uma das delicadas mãos o naco de pão, com a outra o queijo, e debruçou-se por cima da mesa para poder falar sem ser aos gritos.
- A Décima Primeira Edição vai ser a definitiva - disse. - Estamos a dar ao idioma a sua forma final, a forma que há-de ter quando ninguém falar nenhuma outra língua. Quando chegarmos ao fim, pessoas como tu terão que aprendê-la de novo. Julgas com certeza que a nossa principal tarefa é inventar palavras novas. Mas não é nada disso! Estamos é a destruir palavras, dezenas, centenas de palavras por dia. Estamos a reduzir a língua ao seu esqueleto.
(...)
Não compreendes a beleza da destruição de palavras. Sabias que a novilíngua é a única língua do mundo cujo vocabulário diminui ano após ano?
Winston sabia, claro. Sorriu, esperando que o seu sorriso traduzisse um assentimento, pois não se atrevia a dizer o que quer que fosse. Syme trincou mais um bocado do pão escuro, mastigou-o rapidamente e prosseguiu:
- Não vês que a finalidade da novilíngua é precisamente restringir o campo do pensamento? Acabaremos por fazer com que o crimepensar seja literalmente impossível, pois não haverá palavras para o exprimir. Todos os conceitos de que possamos ter necessidade serão expressos, cada um deles, exclusivamente por uma palavra, de significação rigorosamente definida, sendo eliminados e votados ao esquecimento todos os sentidos subsidiários.

George Orwell, in «1984»

6 comentários :

  1. Li o livro quando era rapazito e vejo que o devia reler agora...

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  2. Pinguim, eu nã gosto de reler, mas até está a ser uma (re)leitura agradável... e leio mais lentamente, não tenho a pressa de saber o que vem a seguir... saboreio as palavras...

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  3. Há já uns bons anos (desde 84, para ser preciso) que considero este livro como sendo especial: de obra de ficção, passei a vê-lo como uma obra de História Contemporânea. E não me enganei muito, o que não me agrada.
    Quanto ao título deste post, não o percebo...
    :-)

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  4. RIC, para perceberes o título do post, tens que ler os outros da série: http://thoughloversbelostloveshallnot.blogspot.com/search/label/livros%20que%20nunca%20devia%20ter%20lido

    (ou por outras palavras, o título não é literal, é uma ironia)

    Abraço.

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  5. Concordo que deve ser um livro de leitura obrigatória.
    Pelo menos para mim foi um do romances que mais me marcou, andava nos primeiros anos da faculdade. Li-o apenas por curiosidade, que não por obrigação, em inglês, ao pesquisar pelas prateleiras da biblioteca do Instituto Britânico.
    Muitas vezes relembro, a mim própria e aos outros, algumas das suas peripécias mais marcantes. Hoje, mais do que nunca, deveria ser lida por todo e qualquer adulto, para se entender melhor o mundo em que estamos. Quando o ano de 1984 d.C chegou, houve grande debate se as profecias de Orwell eram actuais ou não... As pessoas pareciam aliviadas por aquele mundo totalitário não estar generalizado, dizia-se que afinal fora só uma crítica ao regime estalinista do passado.
    Pois bem, quase três década passadas é o que vemos.... agora sim...
    Lembro-me que a Eurásia, no livro de G. O., ora se unia à Oceania contra a Westasia ou vice-versa. Veja-se agora a questão da China e de como passou de perigo amarelo a perigo... económico, mas muito estranho aliado dos vários continentes. A Coreia é a estranha cristalização do totalitarismo, um anacronismo (mas já houve a fechada Albânia e aquelas ex-repúblicas da URSS, cheias de patrólero mas completamente fherméticas, de que ninguém fala... não sei quantos-quistão...).
    Boa leitura!
    Conjuntamente com o "Animal Farm", esse livro de Orwell não deve nunca sair da nossa lista.
    Abraço

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  6. Claro que os aspectos em que esse romance mais me marcou foi nos que se relacionam com a manipulação das notícias e consequente manipulação da memória colectiva , do Ministério da Verdade, sendo a resistência central de Winston a esse totalitarismo. E também a história de amor que lá surge, que poderia ser perfeitamente secundária, é das mais bonitas e trágicas que recordo.
    (ups! vi agora o comentário anterior e claro que é "petróleo")
    (André, já li e comentei os tais versos)

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