segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Mensagem de Natal de Pedro Passos Coelho*

Pedro Passos Coelho

O que leva o Primeiro-Ministro de um país a pegar no seu telemóvel - talvez sentado a uma qualquer mesa de casa com a mulher, talvez sentado a uma qualquer mesa de escritório ou restaurante, em amena cavaqueira [palavra que aqui assenta que nem uma luva] com amigos ou ministros, e escrever a mensagem abaixo?

Mensagem Natal Pedro Passos Coelho

Oh Pedro, sinceramente, não tens mais que fazer? Muito sinceramente só tenho isto a dizer-te: «Vai-te foder!» Vai-te foder, tu e o teu smartphone, vai-te foder, tu e as tuas banalidades, vai-te foder, tu e o teu ridículo sentido de oportunidade. Vai-te foder, e leva contigo os teus ministros e restante tralha humana. 
Tentar demonstrar-te que tens em mãos a responsabilidade de exercer uma função (para a qual foste eleito) para a qual não tens quaisquer habilitações [pessoais, sociais, humanas, académicas, etc], já o percebi há muito, é completamente inútil. Não tens habilitações para o perceber.


*Neste momento já não deve haver ninguém que ainda não tenha de algum modo conhecimento dela.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Ernestina em Italiano

José Rentes de Carvalho, Ernestina, Ernestina in Italiano

Uma óptima notícia: já posso oferecer um bom livro aos meus amigos Suíços que falam italiano, e italianos que estão na Suíça. Esperemos que em breve apareçam edições em inglês, francês, espanhol, alemão... Além demais adoro ouvi-los falar esta bela língua. [Entretanto, estou quase a acabar a leitura de Mazagran - recordações e outras fantasias...]

Con molto talento e umorismo, in questo romanzo Rentes de Carvalho ci racconta le sue memorie d’infanzia e le storie dei suoi antenati, che hanno vissuto tra la fine dell’Ottocento e l’inizio del Novecento in un paese sperduto del Douro: l’entroterra del Nord del Portogallo. Ernestina è allo stesso tempo il vero nome della madre dell’autore e dell’intrepida protagonista del suo romanzo. Su di lei Rentes de Carvalho ha dichiarato: “Madre di un solo figlio, la sua vita è stata così triste, amara e piena di solitudine, che non scrivere un romanzo su di lei era impossibile. E così l’ho scritto. La sua morte ha spezzato l’ultimo filo che mi teneva legato alla terra in cui sono nato”. Curiosamente, Ernestina è anche il nome del primo amore con cui il bambino, una volta diventato adolescente, perderà la verginità. Una specie di ritorno alla madre, o di fuga dalla madre, il passaggio nell’età adulta che deve però, suo malgrado, superare il velo di un inconfessato incesto. Un viaggio emozionante, tenero e divertente tra le memorie e le storie di una vita familiare e la descrizione di un mondo rurale che non esiste più in Europa. Considerato un capolavoro della letteratura del Ventesimo secolo, Ernestina ha convinto pubblico e critica. (DAQUI, via Tempo Contado)

domingo, 23 de dezembro de 2012

Ainda não foi o fim do mundo...

Salvador Dali, Caveira, Philippe Halsman, In Voluptas Mors

Não tendo vindo o fim do mundo até nós, fui eu para o fim-do-mundo, qual profeta sem religião, sem fé, sem casa, sem amor... Por este motivo o blog ficará nos próximos tempos mais parado que habitualmente, as respostas a e-mails e comentários poderão não ser imediatas - como talvez o exigissem em muitos casos. Chegado a Portugal, perdão - ao fim-do-mundo - fui aproveitar-me das poucas coisas boas que ainda há por aqui (admiravelmente ainda por taxar e impostar): comprei o último do J. Rentes de Carvalho, o último do Américo Rodrigues (aproveitei para comprar outros dois, um de teatro e outro de crónicas), os do último Prémio Nobel da Literatura, Mo Yan, e mais uns quantos para aplacar esta fome. Em casa tinha outros repastos enviados por amigos - logo logo lhes dedicarei os devidos agradecimentos. Não aqui no blog, pessoalmente, o que nem sempre é possível. Raridades da poesia profana, e da poesia pornográfica. Já vos desejei um Feliz Natal? Já, pois já. Vou-me ali a aguentar a depressão de estar aqui no fim-do-mundo, tomar uns cafés com os amigos, passar umas horas com a sobrinha, a irmã, a mãe, a madrinha... Sejam Felizes!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Merry Christmas

Christmas Three, Árvore de Natal, Sapin de Nöel, Árvore de Natal de Livros, Books Christmas Three

Esta é a época em que no telemóvel aparecem chamadas e sms's de pessoas que durante um ano não deram um sinal de vida - que até nos evitaram, que até nos ignoraram, que até nos esqueceram e desprezaram. É a pior parte do Natal, e dá-me a volta ao estômago. Por maior que seja o «espírito natalício», às vezes a conversa tresanda tanto que me é irresistível fazer o que fiz hoje: mandar alguém para a puta que o pariu. Bem sei que é um caso extremo, mas às vezes pagam todos por tabela. Perdi a paciência para estas pessoas e para as suas espontâneas manifestações de amizade. Que não queiram saber - estão no seu direito, ninguém é de ninguém - agora era de bom tom que não se dessem ao trabalho de nos dizer que existem. Que tenham a dignidade de morrer longe.

Sabemos muito bem distinguir quem está "longe" porque quer de quem está "longe" porque não pode estar perto, mas negamos isso a nós mesmos como forma de não deixarmos morrer dentro de nós aquele pedaço que foi daquela pessoa e que foi deixado ao abandono como um animal de estimação que já não se deseja. Eu por mim prefiro morrer à fome que aceitar migalhas. Que vão praticar a caridade - real ou metafórica - para a puta que os pariu. Não aceito que venham lavar a consciência à minha casa. "Amor", "Amizade", "Família", são palavras bonitas. Agradeço a estas pessoas apenas que não as conspurquem - já que não as querem valorizar e apenas as utilizam se e quando delas precisam. Não tenho mais pachorra para a prática da hipocrisia.

Desejo-vos um Feliz Natal junto daqueles que amam e que respeitam e valorizam (correspondem) o vosso amor.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Amigos para sempre como nas histórias de encantar...

Amigos, Amigos hasta la muerte, Amigos para sempre, friends forever,

Nas histórias de encantar os amigos são para sempre, o amor também, e o mais pobre e feio dos pedintes encontra a mais bela e rica das princesas, casam, têm muitos filhos, e são felizes... para sempre. O lenhador, o moleiro, o pastor, o caçador, pobres, viúvos, e com muitos filhos a seu cuidado, encontram a fortuna. A velhinha, o órfão, o mendigo, tristes e solitários, descobrem uma família que os acolhe. Os maus, os avarentos, os cruéis, os mentirosos, os vilões, as bruxas, os ingratos, os salteadores, são castigados. E às vezes tudo corre mal...

domingo, 16 de dezembro de 2012

Suíça: Swiss-ídios

Suiça, Switzerland, Svizzera, Schweiz, Svizra, Suisse

Deve ser do conhecimento de muitos, mas para mim foi novidade lê-lo no jornal holandês de Volkskrant. E porque perturba a noção bucólica que eu tinha da Suíça - montanhas, neve, lagos plácidos, rios de dinheiro - é melhor tocar já no caso, do que voltar a remoê-lo, como esta noite, na escuridão da insónia.
Juntamente com a Finlândia e as nações da antiga União Soviética, a monótona e bem arrumada Suíça encabeça no mundo inteiro o número de suicídios.
Nela, uma média anual de 1.500 desesperados acaba com a vida, quase o dobro do número das vítimas de acidentes de trânsito e abuso de droga, o qual ronda os 800.
O particular desses suicídios é 40% deles serem cometidos com armas de fogo, e essas armas fazerem parte do incrível arsenal que o Estado oferece aos cidadãos. Sujeito que acaba a recruta leva a arma para casa, não vá o inimigo aparecer de repente, de modo que cerca de dois milhões e meio de pistolas, carabinas, metralhadores, se encontram, por assim dizer, à mão de semear dos sete milhões de almas.
Transtorno nos amores ou na cabeça, chatices da vida, desesperos, desenganos… o suíço só precisa de ir à cozinha e tirar de lá a Parabellum. Não está certo. Não devia ser tão fácil. 

J. Rentes de Carvalho, no blog Tempo Contado.

Os Cadernos Secretos de Sébastian


Quem quiser deitar dinheiro fora este Natal já pode comprar o meu proto-romance, em versão IMPRESSA ou E-BOOK


O Romance «Os Cadernos Secretos de Sébastian» encontra-se à venda, em livro, na Amazon e na CreateSpace. Em formato e-book podem encontrá-lo na SmashWords, no iTunes, na Amazon, e noutras lojas online.
 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

«A amizade é uma espécie de amor que nunca morre.»*

Samuel Johnson and James Boswell, James Boswell, Samuel Johnson


Descobri hoje a maravilha que é ter uma máquina de lavar louça, e assim ganhei tempo para tomar banho** e começar a folhear Life of Johnson, biografia de Samuel Johnson escrita pelo seu amigo James Boswell. A melhor biografia jamais escrita em inglês, de acordo com a opinião de Harold Bloom, opinião que traduzida de bloomiano para português quer dizer que é a melhor biografia jamais escrita. "Boswell is the first of biographers. He had no second." Afirma Thomas Babington Macaulay, conforme escrito na contracapa do livro com mais de 1500 páginas - enviado por amigo que ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente - que fui levantar ontem à La Poste.

Diabo! Como é que se agradece isto? Obrigado.

*Mario Quintana, em Porta Giratória (fonte). Porque a biografia também é sobre a amizade; porque eu gosto muito desta frase lamechas, q.b.; porque a amizade é algo que me dói no fundo ferido da alma - porém não é o lugar nem a hora de tabelar a palavra amizade pela bitola do dejecto humano a que chamo melhor amigo.

**Tenho pena que os meus amigos não entendam o non-sense. Nunca leram Alice nem sabem quem seja Boris Vian. Pedir-lhes que conheçam Edward Lear talvez já fosse um pouco demais, mas ao menos Vian, ou Lewis Carroll...

Adenda. Harold Bloom, no capítulo 8 - Dr. Samuel Johnson, o Crítico Canónico - de O Cânone Ocidental:

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Notas de Escudo que substituirão o Euro...

Nota de 100 Escudos com imagem de Fernando Pessoa (versão antiga aqui)


O Euro vai acabar? E se o Euro acabar? Gonçalo Alho redesenhou algumas das antigas notas de Escudo, fazendo-as literalmente regressar do mundo dos mortos...

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

facebook offline

facebook, facebook offline
O facebook está offline, e ninguém sabe o que se passa. Desta vez nem sequer dá para aceder a uma página de aviso, está simplesmente inacessível. Alguém tem alguma informação?

Actualização: 15 minutos depois, o facebook está de volta. Pelo menos para mim. Alguém com dificuldades em aceder?

domingo, 9 de dezembro de 2012

O Amigo Dedicado - Conto de Oscar Wilde

Friends, Amigos, Melhores Amigos, Best Friends, Graffiti



O AMIGO DEDICADO

Certa manhã o velho Rato d'Água pôs a cabeça fora do buraco. Tinha uns olhos redondos muito vivos e uns duros bigodes cinzentos, e sua cauda parecia um comprido elástico negro. Os patinhos estavam a nadar na lagoa, semelhantes a um bando de canários amarelos, e a sua mãe, toda branca com patas vermelhas, esforçava-se por ensinar-lhes a manter a cabeça dentro d'água.
- Vocês nunca poderão frequentar a boa sociedade se não aprenderem a manter a cabeça dentro d'água - dizia-lhes. E de vez em quando mostrava-lhes como devia ser feito. Mas os patinhos não lhe prestavam atenção alguma. Eram tão jovens que não sabiam que vantagens existem nisso de frequentar a sociedade.
- Que criaturas desobedientes! - exclamou o velho Rato d'Água. - Mereciam realmente afogar-se.

Palavras - Poemas de Carlos Drummond de Andrade



A Palavra

Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.

Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.

In «A Paixão Medida»

sábado, 8 de dezembro de 2012

I'm Watching You: Amazing Mind Reader Reveals his Secret...

O Rouxinol e a Rosa - Conto de Oscar Wilde

O Rouxinol e a Rosa, Oscar Wilde

Post n.º 500. Para celebrar a marca, um conto que fala de Amor e Morte:

— Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas — exclamou o Estudante — mas não vejo nenhuma rosa vermelha no jardim.
Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho, o Rouxinol o ouviu e, vendo-o ficou admirado...
— Não há nenhuma rosa vermelha no jardim! — repetiu o Estudante, com os lindos olhos cheios de lágrimas. — Ah! Como depende a felicidade de pequeninas coisas! Já li tudo quanto os sábios escreveram. A filosofia não tem segredos para mim e, contudo, a falta de uma rosa vermelha é a desgraça da minha vida.
E eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! — disse o Rouxinol. Gorjeei-o noite após noite, sem conhecê-lo no entanto; noite após noite falei dele às estrelas, e agora o vejo... O cabelo é negro como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa que deseja; mas o amor pôs-lhe na face a palidez do marfim e o sofrimento marcou-lhe a fronte.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A Casa Incendiada, de Américo Rodrigues

A Casa Incendiada, Américo Rodrigues
© Fotografia Américo Rodrigues

A CASA INCENDIADA | Américo Rodrigues
Tiragem 250 exemplares | 140 Páginas
Capa e Trabalho Gráfico: Jorge dos Reis
Impressão: Oficinas de São Miguel | Guarda



8 de Dezembro | 17h30
Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço | Guarda
Lançamento do livro “a casa incendiada” de Américo Rodrigues
Apresentação por José Manuel Mota da Romana

8 a 31 de Dezembro
Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço | Guarda
Exposição “Américo Rodrigues: palavras em voz alta”

8 de Dezembro | 21h30
Café Concerto do Teatro Municipal da Guarda
“Fugir de casa”, leituras e música por Américo Rodrigues e Victor Afonso

15 de Dezembro | 21h00
Galeria e Livraria “Fabula Urbis” | Lisboa (Rua Augusto Rosa, 27)
Lançamento do livro “a casa incendiada” de Américo Rodrigues
Apresentação por Manuel Poppe
Leituras e música por José Neves, José Tavares e Rogério Pires

Organização: Luzlinar e Bosq-íman:os

Informação: Café Mondego.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Indiferença à Saüdade*


Escrevo-te esta carta em plena solidão… desde que foste embora tudo ficou tão cinzento por aqui, o meu rosto enruga-se, o meu coração aperta-se cada vez mais pela falta que fazes do meu lado… tenho medo que quando os nossos olhares se voltarem a cruzar se tenha perdido aquela magia que nos ligava, e apenas as tuas fotos e milhares de memórias são o pouco que tenho para me ajudar a matar o tempo enquanto estás longe.

Sinto falta dos momentos em que a nossa simples troca de olhares dizia tanto… dizia tudo! O teu olhar, o teu sorriso eram contagiantes. Perdia-me neles horas a fio sem que tu notasses, eram como alimento para um coração que tinha desacreditado de amar, e tu devolvias-me a crença apenas por seres tu mesma.

A distância é amarga, deixa-nos como um menino vadio sem saber para onde ir e sem saber o que fazer, sem porto de abrigo… Invades os meus sonhos, trazes neles aquele carisma que te caracteriza, respiro-te em tudo à minha volta nos aromas que ressuscitam momentos antigos, ouço a ecoar-te no meu pensamento com as palavras genuínas que tinhas para todas as situações. Vejo-te em todo o lado meu amor… e quem dera ver-te.

Já é Outono… e por mais que as folhas do calendário vão caindo, os dias sem ti parecem sempre os mesmos… nostálgicos, lentos, como se fizessem realmente questão de mostrar o quanto estamos longe um do outro. Enquanto me divido pelos espaços vazios da casa que me despertam lembranças da tua voz que os completavam, sinto o pesar da saudade a crescer a cada movimento dos ponteiros do relógio, sinto o frio miudinho das noites em que não tenho o teu aconchego, e só o cigarro é o meu cúmplice fiel enquanto te escrevo estas palavras. Dava o mundo para sentir um abraço teu… Fico sem o meu mundo sem o teu abraço.

O Relógio rompe tão devagar o tempo que conto com a incerteza… isto é uma carta de amor! A que tu nunca recebeste… a que tu te reservas a ler com medo de chorar… chorar é o amargo que desflora a saudade que se sente da doce presença de um passado… aperta bem estas palavras a ti, não agora , mas quando elas te encherem com o seu sentido… construímos na cumplicidade de simples olhares o que destruímos aos poucos por disparidades… foi só mais um dia solitário por não te ter perto.

Texto do meu brother in arms Trëk.

Procissão, texto de J. Rentes de Carvalho

Procissão, Militão dos Santos
Procissão, de Militão dos Santos

Francisco José Viegas regressou ao A Origem das Espécies - de onde nunca devia ter saído - a tempo do regresso de J. Rentes de Carvalho ao Tempo Contado. Francisco José Viegas regressou com um post de homenagem a J. Rentes de Carvalho, reproduzindo o texto lido por J. Rentes de Carvalho na cerimónia de entrega do Grande Prémio de Literatura Biográfica APE/Câmara Municipal de Castelo Branco, atribuído à obra Tempo Contado, que já havia sido publicado no blog da Quetzal, editora em que Francisco José Viegas decidiu, em boa hora, (re)publicar a obra de J. Rentes de Carvalho com o rigor e visibilidade que merece. Só por isso, já o disse, perdoo ao Francisco José Viegas ter-se deixado arrastar por gente tão enlameada. Talvez não esteja a dar nenhuma novidade aos meus leitores, mas convém sempre repeti-lo, não exista por aí algum menos avisado. A Quetzal tem vindo a publicar livros apetecíveis. Eu não voltarei a comprar nem um enquanto não publicarem Portugal, a Flor e a Foice. Boicotes são boicotes. Não será preciso dizer que as obras de J. Rentes de Carvalho que venham a ser publicadas não entram neste boicote. O blog A Origem das Espécies regressou também à minha lista de links, o Tempo Contado nunca de lá saiu, pois mesmo que J. Rentes de Carvalho não voltasse a escrever lá, uma visita aos posts antigos é sempre recomendada. Como uma procissão, o texto lido por J. Rentes de Carvalho chega agora a este postigo em que me refugio tantas vezes das dores existenciais da vida comezinha. Procissão, de J. Rentes de Carvalho:

"Os tolinhos. Os bufos. Os convencidos. Os pategos. Os membros e as suas esposas. Os amigos dum gajo que conhecemos há muito e  não é sério. Os fanáticos. Os sinceros. Os que foram maoístas. As bruxas. Os inimigos do povo. As irmãs do Salazar. Os compadres. Os hesitantes. O senhor Pacheco do táxi, do aviário e da bomba da gasolina. Os que comem peixe à sexta-feira. Os sócios benfeitores da Associação dos Bombeiros Voluntários de Oliveira de Azeméis. O médico dos Raios-X. A ex-telefonista da ex-PIDE do antigo regime. O clarim de Caçadores 9. Os filhos do falecido Prof. Dr. Joaquim do Amaral Thorensen Perestrelo Owen Ricciotti Matoso Guedes de Crespo e Bombarral (Marquês de Leça, Irmão da Ordem Terceira, Diplomé des Palmes du Mérite Agricole). O maquinista do ‘Foguete’ que levou o Papa a Braga. Os heróis do mar. Os gloriosos combatentes anti-fascistas. Os gaseados de 1914-1918 (Flandres). A tia da D. Amália Rodrigues. O cauteleiro de Cinfães. Os moradores do terceiro andar do prédio nº 42 do Beco dos Capachinhos 1300-444  Lisboa. Os que só gostam de cerveja. O que comprou as calças do Gungunhana e as ofereceu depois ao Museu de Bragança, donde parece que foram roubadas na noite de 7 de Fevereiro de 1952. A mulher do filho do vizinho do Marcelo. As figuras prestigiosas da nossa política acompanhados (acompanhadas? era o que faltava!) das respectivas esposas. O emigrante que construiu aquela casa. Os visitantes do Jardim da Estrela. Os dez mais elegantes. Os calvos, os obesos, os deficientes motores, os invisuais, os diminuídos mentais - que é como quem diz: os carecas, os buchas, os aleijadinhos, os cegos, os tarados. Os manetas e os gagos. O locutor da Rádio Renascença. O bissexual que casou com a Maria João e na intimidade lhe chama Zé Maria. O senhor doutor que está quase a chegar, não falta nada. Os três da panelinha. Os três. Os que dizem trinta e três. A Trindade. O senhor Pimpim. Os que leram Marx. O reformado que pinta aguarelas e imita muito bem o barulho da água a ferver. O eléctrico dos Anjos. Os senhores guardas. As senhoras guardas. As gentes da autoridade. Os defensores da ordem. A mulher que fugiu ao marido alcoólico e se foi juntar com um cego que tem uma barraca em Chelas. Os tocadores de violoncelo. Os fascinados pelo destino do proletariado. Os holandeses anticolonialistas, vegetarianos, com casa no Algarve. O ex-ministro. A Rosa que gosta muito de crianças. Os enfermeiros. As calistas a domicílio. A menina do quiosque. O bispo de Aveiro. Você e eu."

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Citação, 18: os estigmas e os mares

Fisco, Confisco, Ratos

Lembro-me por vezes da história desta mulher que coxeou e que simboliza na história do seu país o sofrimento e a determinação de tantos, quando vejo uma colega portuguesa que conheço há vinte anos, empregada, como eu, na marinha mercante norueguesa. Já ultrapassou há muito os cinquenta, coxeia também, em certos dias. Benevolente e correcta, vai arrastando o que lhe resta das forças por turnos de 12 horas de trabalho. Contava-me, há três ou quatro dias, balbuciando por vezes, vermelha, confusa, com as lágrimas a aflorar aos olhos, uma outra guerra: com o fisco português. Que lhe veio devassar os rendimentos obtidos na Noruega, tendo ela, por seu azar, residência em Portugal. E querem, agora, depois da correcção que fizeram após reclamação da interessada, pouco menos que 18 mil euros de IRS referentes a dois anos. Porque inicialmente eram eram três dezenas. Às dezenas é mais redondo.

Isto, é claro, depois de o Estado norueguês já lhe ter cobrado os impostos devidos. Não é sistema que falhe nisso. O que lhe oferece, é um bónus (como a mim ou a qualquer outro que trabalhe no mar em embarcação sob bandeira do país) é uma série de deduções, entre as quais, uma substancial de 80 mil coroas. Que os senhores do fisco português, obviamente, não contemplam nem dela querem ouvir falar. Muito simplesmente, pegam no rendimento bruto, consideram o que foi pago a cada mês de impostos, e exigem o resto, sobre o que noutro país é um salário normal e em Portugal um salário elevado. Quanto ao que a colega paga de aviões, hotéis, comboios, a cada mês que se dirige ao trabalho, não estão nem “prá i” virados. Taxam, como se a colega camareira, saísse a cada dia de sua casa e entrasse na empresa ali ao virar da esquina no fundo da rua. Resultado… um pouco menos que 18 mil euros. Ou seja, a pobre mulher que arrasta o corpo e a tristeza por aqui, terá que se deslocar de sua casa até Oslo onde embarca (a expensas suas) durante os primeiros seis ou sete meses do próximo ano para amealhar o que o fisco português lhe exige de impostos referentes a dois anos passados. O que virá daqui para a frente é incógnito. Que tenha filhos para cuidar e educar, é irrelevante, pais para agasalhar na velhice, idem, se estiver ausente durante os prazos que estipulam, problema seu. E para isto, exigem, ameaçam, espiolham e devassam. Aproveitando-se, é claro, de alguém que não auferiu de educação, nem tem “contactos” que a defendam, ou que a aconselhem.

Destes casos, ao contrário do de Helga Åbel, nenhum cronista croniqueia. Temos o cuco do pinhal da Azambuja que arrulha não-estigmas da vida do mar, os tribunais que entrincheirados em alíneas e parágrafos protegem quem torpedeia vidas alheias e tem tido interesses em minas de esterco. O advogado da minha colega, em Portugal, diz que talvez se consiga impugnar, mas que pague, e pague já, ou lhe penhoram os bens. Os tais, obtidos a coxear levemente, a lavar, a limpar, ausente dos seus, deixados num país que dos seus naturais faz órfãos. E que se justiça lhes der (nos tribunais) passada foi já uma década. A canalha somos nós, afinal.

soliplass, no post os estigmas e os mares, do blog Âncoras e Nefelibatas. Aconselho - obviamente - a leitura do post na íntegra, no link citado.

Mais de um ano depois, retomo a série de Citação, em que fui citando maioritariamente outros blogs. Curiosidade, coincidência, ou nem uma nem outra coisa, retomo com o mesmo autor. Da última vez tinha sido o post Vint’cinco tostões; a imagem que escolhi para ilustrar este post, um cartoon encontrado na internet (cuja autoria não consegui determinar), ilustra aquilo que eu penso do fisco Português (não, não é o único no mundo, mas tem requintes de chico-espertismo, saloiice, subserviência para com os ricos e poderosos, e tiques ditatoriais para com os pobres e indefesos, que envergonham qualquer país minimamente civilizado). 
Para ser perfeito na sua podridão, ao País falta-lhe legislar uma lei que institua a Taxa de Nacionalidade; assim será mais fácil, transparente, e legal taxar aqueles que tiveram que partir para não morrer à fome, ou sobreviver da sopa dos pobres. (Um parêntesis para dizer a algum portuga inflamado de súbito nacionalismo, patriotismo, ou o raio que o parta, que por aí apareça, porque quando falo disto há sempre algum que levanta a voz: não fomos nós, os que saímos de Portugal, que abandonámos o País, foi o País que nos abandonou a nós.) Ao Governo - esse mesmo, que de dedo em riste aponta a porta da saída - quando perceber que as remessas não serão como antigamente, e que o aumento agora verificado se deve às contas que deixámos para pagar, talvez lembre esta ideia...

domingo, 2 de dezembro de 2012

Segundo Soneto da Morte

Long Way Home, Longo Caminho
© Fotografia Floriana Barbu


Este longo cansaço irá ser grande um dia
e a alma dirá ao corpo que não quer
arrastar o seu peso ao longo desta via
por onde os homens vão, felizes por viver.

Sentirás que ao teu lado cavam brutalmente,
que outro hóspede chega à serena cidade.
Vou esperar que alguém me cubra completamente
e depois falaremos uma eternidade!

Só então saberás porque é que, ainda imaturo,
para as profundas fossas o teu corpo iria
aí dormir tranquilo, aí permanecer.

E então far-se-á luz no campanário escuro.
Saberás que entre nós sinais de astros havia
e que, quebrado o pacto, tinhas de morrer.

Poema de Gabriela Mistral

Quando eu morrer, se me fizerem uma lápide, gostaria que a primeira estrofe fosse o epitáfio...

Feliz Natal e Próspero Ano Novo

Feliz Natal, Presépio, Árvore, Árvore do Conhecimento

Agora que entrámos no mês dele, permitam-me todos os leitores e leitoras deste cantinho - os assíduos, os ocasionais, e os acidentais - que lhes deseje um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo. Sei que ainda é cedo, mas como sói dizer-se, o Carnaval é quando o Homem quiser. E o resto não digo, para que não me chamem brejeiro - embora eu lhes chame interjeições. Um Natal Feliz, para mim, seria ter de presente uma árvore como a da fotografia, ou como a desta fotografia; porém o habitual é não receber nenhum - e dar cada vez menos. De tudo o que a vida nos leva, o que (me) dói mais são os amigos - que de qualquer forma não o terão sido. Acabamos por nos cansar de bater a portas cada vez mais emperradas, portas que ainda que nos esforcemos por lhes olear as dobradiças, vão rangendo cada vez mais, vão ficando cada vez mais pesadas, mais difíceis de abrir. Mas não falemos disto - a hipocrisia da época assim o determina. Aqui podia introduzir uma expressão em francês. Ficava mais bonito e dava um ar intelectual à coisa - coisa que mais não é que juntar palha para o presépio - aquele em que afinal não havia vaca nem burro, embora candidatos ao lugar haja muitos; talvez deva processar as minhas catequistas. Ou pelo facto de não acreditar em nada disto talvez me devesse remeter ao silêncio. Reparo agora que só tive catequistas. Longos nove anos até me livrar desse enfado. Nunca gostei que me pregassem. Menos quando os actos contradizem as acções - porcaria do corrector ortográfico a tentar induzir-me em erro! E é isto. Apenas uma miscelânea de frases parcamente ligadas entre si, para vos desejar que tenham - ao menos no Natal - uns dias de Felicidade e Comunhão - porque uma e outra são a mesma coisa. O resto é o vil metal, arma com que uns quantos seres, desmerecedores do humano substantivo, jogam com a vida de milhões (biliões) de pessoas, do alto do seu conforto, do seu egoísmo, da sua retórica de teorias nunca experimentadas na pele. Que sejam, meus queridos leitores e minhas queridas leitoras, Felizes. Nesta quadra e no resto do ano. Porque com li há uns meses num blog que agora não recordo, citando um autor, ou autora, de que não me lembro, o único falhanço na vida é não ser feliz. E a felicidade, a felicidade é isto, a comunhão. A possibilidade de partilhar com outras pessoas o curto tempo em que existimos entre duas inexistências, a possibilidade de comungar com família e amigos as nossas alegrias e as nossas tristezas, os nossos sucessos e as nossas derrotas, as nossas vitórias e os nossos fracassos, enfim, a possibilidade de comunicar, de partilhar - porque só é verdadeiramente nosso aquilo que damos, já alguém disse. E com isto, se fosse o Miguel Relvas, já tinha direito a uma ordenação num religião qualquer, quiçá em qualquer uma. Pronto, é isto, tinha que falar do Relvas para borrar completamente a pintura, se é que não estava borrada desde o início.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Fernando António Nogueira Pessoa, 13/06/1888 - 30/11/1935

Fernando Pessoa
Fernando Pessoa, 13/06/1888 - 30/11/1935

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza. 


Poema de Alberto Caeiro

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

rascunhos encontrados num caderno abandonado*

Solidão, Vazio


houve um momento. um momento em que ainda podias parar. um segundo em que já é tarde demais. um instante em que podias. depois é tarde demais. houve um momento em que todos poderíamos ter sido. depois morremos. um instante em que tínhamos. depois perdemos. um sonho. adormecemos. acordámos. demos uma volta na cama. um movimento brusco. um salto. um sobressalto. uma dor. um aperto no peito. uma lágrima. onde poderíamos ter ido. houve um momento. um instante em que poderíamos ter sido tudo. depois acordámos. nascemos. e a vida é tudo o que nos resta.

domingo, 25 de novembro de 2012

Yukio Mishima, uma Máscara, 42 anos depois...

Yukio Mishima, young Yukio Mishima
Yukio Mishima, 14/01/1925 - 25/11/1970


Nessa noite, depois de chegar à nossa casa dos arredores, comecei, pela primeira vez na minha vida, a encarar seriamente a hipótese de me suicidar. Mas, pensando bem, esta ideia pareceu-me extremamente enfadonha e acabei por decidir que seria um acto profundamente ridículo. Por disposição natural, tinha sempre relutância em dar-me por vencido. Além do mais, disse para comigo, é inútil ser eu a cometer esse acto decisivo, com tantas maneiras de morrer aqui mesmo, à minha volta: a morte durante um raid aéreo, a morte no meu posto, a morte no serviço militar, a morte no campo de batalha, a morte num desastre de automóvel, a morte por doença. Era indubitável que o meu nome já estava inscrito numa dessas listas; e um condenado à morte não se suicida. Não, qualquer que fosse o ângulo de abordagem, não me parecia que os tempos estivessem para suicídios. Seria melhor que algo me fizesse o favor de acabar comigo. O que, em última análise, é o mesmo que dizer que estava à espera que algo me fizesse o favor de me manter vivo.


Yukio Mishima, in. Confissões de uma Máscara. (Assírio & Alvim, 1995, 3.ª edição, tradução do inglês por António Mega Ferreira).

sábado, 24 de novembro de 2012

Melhores Amigos


Dá-me uma vontade de rir tão grande, quando ouço a palavra «amigo» vinda da boca de certas pessoas, que se por acaso risse, me mijaria a rir. Mas não tem piada nenhuma.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

10 livros em que tenho pensado...

As Vinhas da Ira, John Steinbeck, John Ford
As Vinhas de Ira, filme de John Ford, adptação do romance homónimo de John Steinbeck



Olá André,

Gostava muito de deixar um comentário no teu blog. Mas como não tenho nenhuma daquelas identidades que lá estão (só tenho um blog no sapo), deixo aqui:

É sobre o post do Camus (A Queda) [sic]

Aprecio que escrevas sobre este tema, tragas estas preocupações e apresentes uma lista de livros notáveis. Deixa-me só fazer uma pequeno comentário:
Assumindo que quando dizes "a Europa" te estás a referir ao processo de integração europeia, estranho que a tua lista apresente livros que falam daquilo que levou à sua criação... Ou seja, As Benevolentes ou o Diário de Anne Frank são livros sobre o que aconteceu antes. Aquilo que levou a que a UE fosse não só necessária como possível.
O que é incrível é que ela tenha conseguido impôr-se e tenha sobrevivido. Agora está numa encruzilhada, e já esteve em muitas. Vamos ver como se sairá desta.
Quanto a livros como o Ensaio sobre a Cegueira, ou o Fome, ou A Queda, são sobre a humanidade, em qualquer sítio, em qualquer tempo. Estranho vê-los associados a uma explicação de crise europeia. Porque eles explicariam qualquer outra circunstância em que os homens estivessem com problemas. Ou seja, é verdade que explicam isso. Mas explicam muito mais do que isso. Não mostram porque é que a Europa (parece) estar a falhar. Explicam é porque é que tudo pode falhar.
Por exemplo, podias usá-los para explicar o terrível destino que tiveram os países que ficaram de fora do processo de integração (tanto os que já entraram como os que ainda não entraram).

Obrigado,


domingo, 18 de novembro de 2012

Teste de Masculinidade


Havia nesses tempos um teste de masculinidade muito popular, que consistia em três perguntas: (1) Olhe para as suas unhas (uma rapariga estende os dedos, um rapaz dobra os dedos sobre a palma da mão); (2) Olhe para cima (uma rapariga limita-se a erguer os olhos, um rapaz inclina a cabeça toda para trás); (3) Acenda um fósforo (uma rapariga afasta o fósforo do corpo, um rapaz aproxima - ou talvez fosse o contrário, não me lembro). Mas havia sinais menos esotéricos. Um homem cruza as pernas, fazendo descansar um tornozelo sobre o joelho; um maricas suspende uma perna em cima da outra. Um homem nunca se mostra efusivo, não desata a tagarelar por dá cá aquela palha; ou é silencioso ou então fala bem alto e claro e sem excessos. Eu não sabia dizer palavrões: dizia sempre o g final de fucking e nunca sabia em que sítio da frase devia meter damn ou hell.

Edmund White, in. A Vida Privada de um Rapaz 


Sempre que leio notícias sobre padres e paneleiros recalcados e a sua irritante tendência para meterem o bedelho naquilo que não querem que lhes diga respeito, pergunto-me porque é que não metem a merda do indicador no olho do cu? Para Alan Escada, a homossexualidade é “um mal que deve ser corrigido, devendo as pessoas que têm este pecado optar pela abstinência”. Oh meu querido, mas já alguém te obrigou a foder? Abstém-te se te queres abster, mas principalmente abstém-te de abrires a boca. A quem tanto proclama as virtudes da abstinência, ficava-lhe bem começar por praticá-la. Abstenham-se se se querem Abster. Não se esqueçam é do significado de abster: privar do exercício de uma função ou direito. Fodam se querem foder...

Pintura de Marcus Blättermann (daqui)

10 livros para compreender a encrenca em que estamos metidos...

A Peste, Albert Camus, A Peste de Albert Camus


Desde que dei para mim mesmo o sonho europeu como acabado*, que penso muitas vezes nestes 10 livros, quando em momentos de reflexão (ou apenas introspecção) tento compreender o que se passa afinal? Como foi possível chegarmos a este ponto sem retorno? Sim, a Europa tal como a conhecemos nas últimas décadas está acabada. O paradigma europeu que nos venderam perdeu a validade. Talvez venha a emergir dos escombros desta crise um outro paradigma que responda aos nossos sonhos e inquietações. Se sairmos vivos. Aqueles que saírem vivos. 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

In memoriam

16/10/1955 - 14/11/1988


Já era noite. Talvez sete, ou oito, ou mesmo nove horas da noite. Talvez fosse mais tarde. Na memória resta-me apenas o frio, o escuro e o último olhar. Agarrei-lhe o tecido das calças, e abraçei-o pela cintura. Tocou-me na cabeça e disse que não podia ficar. Nunca fui pessoa de insistir. Mas insisti. Uma, duas ou três vezes. Talvez mais. Voltei para junto da minha mãe, e da minha tia. Ele afastou-se alguns passos. Olhou para nós, aquele último olhar que me resta na memória. Ou talvez já nem seja esse último olhar, não sei. Virou-se e caminhou lentamente, subindo a rua empedrada. Uma lágrima queria sair-me dos olhos, mas eu não deixei. Queria que ele ficasse, a minha mãe insistira. Eu também. A minha tia aconselhara-o igualmente a ficar. Ele disse que não, que não podia ficar. Já era noite.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

The Man I Love. Richard Zimler e Alexandre Quintanilha

Richard Zimler, Alexandre Quintanilha, Amor, Amizade, Casamento
© Fotografia Nelson Garrido

Anabela Mota Ribeiro foi entrevistar Richard Zimler e Alexandre Quintanilha. Deste trabalho resultou um fantástico testemunho de duas pessoas que se amam. Das coisas mais fantásticas que li em toda a vida. Uma entrevista que todos aqueles que gostam do ser humano (apesar de tantos apesares), do amor, e da amizade; que todos aqueles que acreditam que este mundo, a sociedade, e a maneira como vivemos em sociedade, podem melhorar; que todos aqueles que apreciam a beleza do ser humano, devem ler. Sem preconceitos. Ou para os combater. Aqui fica o texto completo:


GREVE GERAL

Greve Geral, General Strike, Huelga General, 14 Novembro 2012, European Strike, Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Chipre, Malta

Os Portugueses, por Isabela Figueiredo


«Os portugueses não acreditam na união, na força do grupo e muito menos lhes entra na cabeça que o poder são eles próprios, unidos, e que contra isso nada existe de mais forte num estado democrático. Os portugueses têm medo. Não acreditam na democracia. Desconfiam. Fazem ou não fazem à cautela, não por convicção. Escondem-se atrás dos outros. Enterram a cabeça na areia. Resumindo, isto não é gente, são sombras esperando por outra sombra que passe, para apanharem a boleia e passarem despercebidos.
Dizia ontem Angela Merckel, em visita a Portugal, que os portugueses são um povo orgulhoso. Santa mentira diplomática! Os alemães podem ser orgulhosos, os americanos, os espanhóis... Os portugueses são cobardes! Os portugueses são mesquinhos! Os portugueses mordem nas costas e na cara sorriem! Os portugueses são um subpovo que não merece a terra que os seus antepassados conquistaram! Eu só não tenho vergonha de ser portuguesa porque não sei ser mais nada.» (texto completo)

Este texto da Isabela Figueiredo diz tudo aquilo que eu penso da maioria dos Portugueses. Pode ser que amanhã me surpreendam pela positiva. Pode ser que amanhã acreditem na união, e na força do grupo. Pode ser. Mas, para ser sincero, não acredito.

domingo, 11 de novembro de 2012

Ich Bin Ein Berliner



Comentários? Tudo mau, a começar pelo título, passando pelo guarda-roupas, a acabar naquilo que não é dito. Vídeo realizado por Rodrigo Moita de Deus, e «promovido» por Marcelo Rebelo de Sousa. Não se podia esperar muito mais.

Otários? Parolos? Provincianos? Aceitam-se sugestões...

sábado, 10 de novembro de 2012

Olhar-se ao Espelho

The Picture of Dorian Gray, Oscar Wilde, Dorian Gray
Ilustração baseada n' O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde


Olhar-se ao espelho. Olhar-se ao espelho como metáfora da tomada de consciência de si mesmo. 

Havia prometido a mim mesmo que não voltava aqui a escrever sobre esse povo que não sabe viver entregue a si mesmo, mas que querem - enquanto não me livrar deste fardo - nacionalidade - que carrego no passaporte... 

Os Portugueses não sabem, não querem, não conseguem, olhar-se ao espelho. Por isso preferem matar o artista, ou a obra, a verem-se retratados. Mas só quando nos vemos ao espelho, quando tomamos consciência de nós mesmos, das nossas virtudes e defeitos, das nossas forças e fraquezas, das nossas potencialidades e fragilidades, é que podemos traçar um caminho que nos permita chegar a alguma meta previamente estabelecida. Enquanto tal não acontecer andaremos a correr atrás de miragens, levados por caminhos alheios, transportados por quem quer que nos dê a mão. De mão estendida, nem que quem nos dê a mão seja um carrasco.

Incapazes de nos olharmos ao espelho, aplaudimos quem nos vende o discurso que queremos ouvir, em vez de exigirmos que nos digam a verdade. Frustrados quando a realidade nos cai em cima, ofendidos pelo engodo, protestamos. Não para exigir que seja reposta a verdade, mas para que nos dêem a mentira que nos prometeram.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

«Errar é humano, ser covarde não»*

Casablanca



«Se não ficares aí nunca mais nos voltamos a ver.»**


«If that plane leaves the ground and you're not with him, you'll regret it. Maybe not today. Maybe not tomorrow, but soon and for the rest of your life.»***

A Matemática da Felicidade****


Não há pessoas felizes. Até porque grande parte das pessoas não compreende a matemática. Não sabem o que é uma variável que tende para infinito, ou não concebem um eixo em Rn. Porque para elas o mundo tem apenas três eixos, vá, quatro para os metafísicos. Se as pessoas compreendessem a matemática, saberiam a diferença entre um fenómeno discreto e um fenómeno continuo. Saberiam que uma razão cujo denominador seja zero é indeterminada. E a diferença entre uma condição necessária e uma suficiente. E por isso não existem pessoas felizes. Porque a felicidade não existe enquanto fenómeno contínuo e o vazio das nossas razões também não. Somos felizes em momentos, discretos, ao longo da continuidade da nossa vida. Quando descobrimos que amamos, ou que somos amados. Quando parimos ideias, filhos, sonhos. Sem género. Ou que deixamos de viver no que devia ter sido, esse eixo que teimamos em construir ao lado esquerdo do zero das nossas amarguras.
E é por isso que me fascinam as histórias tristes. Porque são pontos no espaço. Simples pares de coordenadas diluídos nos eixos em que nos desdobramos. E que tentamos apagar nas curvas quase perfeitas daquilo que achamos ter de ser. Só, porque achamos que esses pontos não são função de nada mais que da má sorte. Mas isso, é tão falso como a Matemática ser difícil. E isto sim é uma verdade absoluta.


sábado, 3 de novembro de 2012

Lançamento de Mazagran - recordações e outras fantasias, de J.Rentes de Carvalho




Sobre Francisco José Viegas: «Há pouco mandou um sms a dizer que ia para casa... eu acho que faz bem... não pertencia ali... Quer dizer... Não tinha cara, nem feitio, nem cabeça para secretário de estado...»  

Mazagran - recordações e outras fantasias é o oitavo livro de J. Rentes de Carvalho lançado pela Quetzal em Portugal, e não o sétimo como é dito na notícia, 20 anos após a primeira edição na Holanda. Continua a faltar a reedição, por exemplo, de Montedor e A Sétima Onda, e - entre outros inéditos - o inacreditavelmente inédito em Português, Portugal, a Flor e a Foice. Nem percebo porque é que a Quetzal não o edita logo - nos tempos que correm só podia ser um sucesso, já que o dinheiro mina esta merda toda. Mas (ia escrever incrivelmente, mas não é nada incrível, só quem não conhece a pantanosa sacristia que é Portugal é que pode pensar que é incrível - o inacreditável em forma de advérbio de modo ali atrás é incorrecto, que não é nada inacreditável), mas Portugal, a Flor e a Foice continua por editar, e o silêncio em volta da sua existência é ensurdecedor e confrangedor. E, no entanto (ou portanto) continuam a aparecer génios a cada esquina dessa paróquia a caminho de ser protectorado...

Monstruoso concubinato o de certos escritores portugueses com a Censura, escrevendo com o propósito de serem censurados e assim alcançarem o nadinha de notoriedade que, doutra forma, os seus escritos nunca lhes dariam. A mostrarem depois cicatrizes da alma como quem pendura medalhas num uniforme – para que se veja. E queixando-se da falta de liberdade, esquecidos de que a liberdade não é coisa que se receba doutrem, mas direito que se tem.
Se não fosse a Censura, diziam, escreveriam coisas grandiosas e quando chegasse a liberdade eles iriam tirar das gavetas os manuscritos lá escondidos, as obras primas, os soluços abafados pelo fascismo.
A liberdade chegou com o 25 de Abril, mas as gavetas nada continham. A Censura e o fascismo tinham sido a desculpa fácil, o pretexto visível a cobrir um mal mais profundo que a falta de talento: a demissão perante a realidade política e social do país, o alheamento voluntário em malabarismos de uma intelectualidade duvidosa.
J. Rentes de Carvalho em Portugal, a Flor e a Foice. Vamos lá Quetzal, não custa nada...

Atente-se nas palavras do próprio J. Rentes de Carvalho:

Se me enterneci momentaneamente com a Revolução dos Cravos, nem antes nem depois dela tive grande fé nas possibilidades de verdadeira mudança. Muita leitura de História e algum conhecimento da sociedade em que nasci e me criei, isso acrescentado pela visão que me dava o viver fora dela, já me poria de pé atrás. Depois, o contacto com as figuras da Oposição que andavam por Paris nos anos 60, as suas atitudes e planos, teorias e programas, não eram de molde a que os julgasse capazes de "salvar" o país. Fora isso, uma revolução tendo à cabeça um general fascista, apoiado pela CUF, também prometia pouco. E as cumplicidades levantinas – sim, levantinas – em que se embrulhavam gentes das mais variadas crenças e interesses, levantava em mim a suspeita de que a nova ordem, mais dirigida de fora do país do que nascida nele, não iria mais longe do que o preciso para calar as bocas do mundo e as exigências da Europa.
De modo que, em vez de me deixar levar pelos cantos de sereia, meti-me a escrever um livro – Portugal, a Flor e a Foice - que, apenas editado em Neerlandês em Novembro de 1975, me sairia caro em vários aspectos, ensinando-me que ninguém se deve arriscar a ser profeta na sua terra, como é de pouca conveniência chamar às coisas pelo seu nome ou dizer em voz alta o que ninguém quer ouvir.
No começo dos anos 80 um conhecido editor português pediu-me para ler o manuscrito, e logo de seguida foi franco:
- Editar isto? Nem pensar! Agora não, daqui a trinta anos também não!
Trinta anos passaram e provavelmente continuará inédito, mas que isso não obste. (DAQUI)


SENHORES DA QUETZAL, DAQUI DO MEU BLOG VENHO DIZER-VOS QUE SE NÃO PUBLICAM PORTUGAL, A FLOR E A FOICE URGENTEMENTE - REPITO: UR-GEN-TE-MEN-TE - ENTÃO NÃO PASSAM DE UNS VALENTES COBARDES (REPARE-SE NA FIGURA DE ESTILO), UNS MARIQUINHAS-PÉ-DE-SALSA. E PODEM CRER QUE PERDEM UM CLIENTE, POIS FAREI BOICOTE AOS LIVROS QUE OS SENHORES EDITAREM!

Koninklijke Nederlandse Voetbal Bond



KNVB: GAY? THERE'S NOTHING QUEER ABOUT IT.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Facebook Down...

Facebook Down
Oh não! E agora?

Post-Scriptum (01h04m): para mim já voltou a erguer-se, cerca de meia-hora após ter caído. Na internet continuam a encontrar-se relatos de pessoas sem acesso à maior rede social virtual. Parece que os engenheiros do facebook resolveram fazer uma experiência qualquer, alterando o DNS (Domain Name System) com o objectivo de fazer um teste de optimização do tráfego, tendo vários servidores ficado com problemas de roteamento - sempre a melhorar para ficar cada vez pior este facebook...

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Os Ninguéns - de Eduardo Galeano*

Xadrez, Ninguém, Solidão, Pobreza

As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que nalgum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.

Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Correspondência em Dia...

Correspondência, Carta com Selos

Gosto muito de receber cartas. Cartas daquelas que já não se enviam, com selos e tudo, com as rigorosas fórmulas de apresentação e despedida, com os sinceros - ou nem tanto - desejos de boa saúde, boa fortuna, e bom sexo. Pronto, exagero. Para que servem as regras, se não as pudermos quebrar? Cartas com postais lá dentro, com fotografias, com perfume, com beijos e abraços, cartas inesperadas, cartas mui aguardadas, e cartas desesperadas. Cartas apaixonadas, cartas abandonadas, cartas resignadas. Cartas enviadas, cartas rasgadas, cartas perdidas. Cartas...
Há quanto tempo não recebia uma carta! Em tempos escrevi muitas - não tinha outro meio de comunicar. Infelizmente, poucas tiveram resposta - e respostas não vieram às perguntas que faziam. Adiante. Recebi uma carta de uma amiga. Obrigado! Trazia lá dentro alguns poemas. Deixo aqui um deles, espero que a minha amiga não se importe:

A ESTRADA BRANCA

Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte.

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate.


José Tolentino de Mendonça, in A Noite Abre Meus Olhos

A resposta à carta, embora tardia, que tenho tempo para nada, e vontade para coisa nenhuma, vai a caminho. Dedico este post à minha amiga. E aos 100 seguidores deste blog. Se quiserem também me podem escrever. Prometo responder a todos. Só não prometo ser rápido na resposta.

domingo, 28 de outubro de 2012

Francisco José Viegas

Francisco José Viegas



Francisco José Viegas diz que regressa em breve. Talvez, então, ele nos queira explicar por onde andou neste último ano e meio, mais coisa menos coisa. Talvez. Francisco José Viegas é, entre outras coisas, o editor que ressuscitou a editora Quetzal, transformando-a (na minha opinião, claro), na melhor editora Portuguesa, a par da Assírio & Alvim - e eu sempre pensei que fosse impossível igualar a Assírio & Alvim. Vá, falta-lhe a poesia. Mas também não podemos pedir tudo: J. Rentes de Carvalho, aquelas capas fantásticas, letra em tamanho, tipo, e espaçamento decente...

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Livro do Desassossego

Livro do Desassossego, Primeira Edição, Ática, Bernardo Soares, Fernando Pessoa, Jacinto Prado Coelho

Em todo o caso, nesta revisão e classificação dos meus papéis, vou achando e arrumando o que pertence ao Caeiro.


Na verdade, chegou a compilar, metendo-os em maços, os versos deste heterónimo, as prosas daquele personagem que era Bernardo Soares, as poesias de ele-mesmo Fernando Pessoa. Muitas composições foram dactilografadas. Não chegou, porém, a fazer tudo, tanto mais que em muitos casos havia tudo a fazer - as próprias obras que não estavam feitas. É o caso do Livro do Desassossego, de que ficaram pouco mais que os capítulos publicados na Presença, na Contemporânea, no Descobrimento, na Solução Editora, etc.*

João Gaspar Simões, em Vida e Obra de Fernando Pessoa, 1954

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A minha Vida numa Imagem, 4

Nighthawks, Edward Hopper
Nighthawks - Edward Hopper


Nighthawks é um quadro de 1942 que Edward Hopper começou a pintar após o ataque a Pearl Harbor, assim reza a lenda. Nighthawks é uma expressão que pode ser traduzida como «Falcões da Noite», e que designa pessoas que ficam acordadas até tarde. Os quadros de Hopper são atravessados por uma estranha solidão que quase nunca é solitária. Uma solidão quieta e resignada, sem os laivos de desespero ou angústia, que tantas vezes acompanham a solidão. Como o homem sentado ao balcão, costas viradas para quem observa o quadro, muitas vezes deambulei pelas ruas de cidades desertas para ir acabar assim, a pedir um café ou um whiskey duplo sem gelo ao balcão de um café. Cogito que talvez este homem espere sem esperar que chegue alguém, alguém que partiu há muito, ou alguém que nunca existiu. Imagino-o a puxar dum último e melancólico cigarro, a fumá-lo lenta e sofregamente até ao último trago, enquanto faz um discreto sinal ao empregado para que lhe diga quanto deve. Não tem pressa, espera que o empregado demore, para que a demora lhe ocupe mais alguns minutos dos seus muitos e longos minutos. Recebido o troco sairá para a rua, olhará uma última vez para o casal do outro lado do balcão, imaginando um casal feliz e, embora pressinta dolorosamente a melancolia que consome o casal, imaginará o quarto do hotel onde irão passar o resto da noite, enfastiados do sexo que lhes consumirá o resto das forças, e deixará os seus corpos extasiados sobre uma cama estéril dum quarto vazio. Sairá, tentado olhá-los mais uma vez, de soslaio, sem chegar a vê-los. Irá para casa pelo caminho mais distante.

domingo, 21 de outubro de 2012

Por Outras Palavras

Manuel António Pina, Por Outras Palavras, Jornal de Notícias, Crónicas

«Chegou a hora de nos despedirmos do Manuel António Pina.
A dor é sempre grande quando morre alguém que brilha no nosso céu.
O Pina era a mente mais brilhante que escrevia nas páginas do Jornal de Notícias.
Enquanto eu tiver a honra de dirigir este jornal, ninguém mais escreverá opinião neste espaço que era dele mas que ele fazia questão que fosse sempre tão nosso.
Obrigado, Pina.»

Manuel Tavares, na última página do JN de 20-10-12 (via Aventar)


Não sei o que diria Manuel António Pina deste gesto. Mas que é um gesto bonito é!

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Manuel António Pina, 1943-2012

Manuel António Pina, Gato


TODAS AS PALAVRAS

As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.

Manuel António Pina, morreu esta tarde, com 68 anos, no Hospital de Santo António, no Porto, onde estava internado. Obrigado pelas tuas crónicas, pelos teus poemas, pelas tuas histórias. Obrigado pelas palavras que nos deixaste. Até Sempre.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Enforcados*

Mussolini e Clara Petacci enforcados
Mussolini e Clara Petacci pendurados.

*Senhores, ia dizer «Senhores», mas que «Senhores»? Nem sequer «Garotos» ou «Catraios», nem sequer «Gaiatos». Bestas que estão à frente do Governo desgovernado de Portugal: ponham os olhos nestes dois: Mussolini e a sua amante Clara Petacci, fuzilados após tentativa de fuga de Itália. Não vos desejo menos. Talvez apenas que vos capem os genitais e os atirem aos tubarões - para que fiqueis equilibradamente capados, capados na mente e no sexo**.

(E PARA QUEM ACHAR QUE ESTOU A SER SANGUINÁRIO OU - VÁ, PARVO - DIGO: O QUE ESTE GOVERNO DE MERDA ESTÁ A FAZER AO POVO DO MEU PAÍS CHAMA-SE GENOCÍDIO. QUE VÃO PARA A PUTA QUE OS PARIU, COM UM TIRO NOS CORNOS.)


**Em retribuição pelas inúmeras vezes que foderam os Portugueses!

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

o amor e a morte

Amor, Morte, Death, Love






Não é sobre amor, este blog, equívoco que o nome propositadamente deixa entender; não é sobre amor, é sobre morte, sobre luta contra a morte, como saberá quem for ler o primeiro post, onde está publicado um poema de Dylan Thomas, de onde foi retirado um verso, o verso que apadrinha este blog, numa tradução muito livre. É assim o verso: Though lovers be lost love shall not; Ainda que os amantes se percam, o amor permanecerá. É um poema sobre a luta inglória contra a morte: And death shall have no dominion. E a morte perderá o seu domínio. É sobre a luta diária contra a morte, este blog. Uma luta viciada com vencedor anunciado. E o amor é a suprema, sublime ilusão, que quase nos leva a acreditar que nunca nada terminará. Amor, ilusão de eternidade. É feito de ilusões, devaneios, pedaços desfocados do dia-a-dia, migalhas de vida, memórias selectivas, recordações do que nunca aconteceu, do que nunca acontecerá, fantasias, sonhos, desejos, narrativas interiores constantemente reescritas, este blog. Enfim, uma desesperada luta contra a morte. 

(Desfeito o equívoco - que o espectáculo continue. E quem quiser que assista ao lento fragmentar dessa substância que chegou inteira e se vai desfazendo entre caminhos percorridos e caminhos perdidos.)

domingo, 14 de outubro de 2012

PENUMBRA

Penumbra, Poesia, Anjo, manuel a domingos

PENUMBRA
de manuel a. domingos
Tem fotografia de capa de manuel a. domingos
e desenho de Carla Ribeiro.
Foi composto e paginado por Pedro Ribeiro.


Penumbra. O meu exemplar já chegou a casa... coube-me o número 38 em sorte, se o autor não se enganou.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Mo Yan: Prémio Nobel da Literatura 2012

Mo Yan, Nobel Prize, Literature, Prémio Nobel Literatura


«The Nobel Prize in Literature 2012 was awarded to Mo Yan “who with hallucinatory realism merges folk tales, history and the contemporary”»

(link)

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Prémio Nobel da Literatura 2012: o anúncio



Amanhã, dia 11 de Outubro de 2012, quando forem 13 horas na Europa Central, 12 horas em Portugal, será anunciado o novo Prémio Nobel da Literatura. Podem assistir aqui em directo ao anúncio.