quarta-feira, 30 de novembro de 2011

As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain - livros que nunca devia ter lido, 12

A primeira vez que tentei ler As Aventuras de Tom Sawyer, tentei fazê-lo em Inglês. Não porque o meu Inglês fosse então suficiente para tal empreendimento, mas porque aquela prateleira daquela estante, com uma colecção de livros que eram os grandes clássicos da Literatura Infanto-Junvenil, tinha um apelo irresistível para mim, a cada vez que entrava na biblioteca da escola secundária. Eram livros como todos os livros deviam ser: capa dura, folhas espessas, daquelas que dá prazer ficar a folhear, e em que as letras impressas não são apenas letras, sílabas, palavras, frases... Folhei-os a todos, ainda que não chegasse a ler mais que algumas frases em cada um deles. De cada vez que entrava na biblioteca, por motivos lúdicos ou académicos, tirava os livros que precisava das estantes, e tirava também um daquela coleccção: só pelo prazer de lhes pegar e de os levar comigo para a secretária onde me ia sentar. Penso que havia um limite de livros que podíamos tirar de cada vez, e era regra não os repôr nas estantes, mas entregá-los à bibliotecária. Mas com o tempo passei sobre essa restrição, uma vez que a biblioteca era frequentada por poucos, e os poucos que a frequentavam era por motivos académicos. Recordo-me agora que na época foram instalados os primeiros computadores, e um deles tinha ligação à internet. Também em volta dos computadores estavam sempre os mesmos. E eu acabei também por me iniciar neste maravilhoso mundo.

Fernando António Nogueira Pessoa


Fernando António Nogueira Pessoa

[Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935]


I know not what tomorrow will bring

Polícia de Segurança Pública?


Polícia de Segurança Pública, diz o nome desta agremiação terrorista com «missões de defesa da legalidade democrática, de garantia da segurança interna e de defesa dos direitos dos cidadãos». Esta agremiação está hoje ao serviço do XIX Governo que não honra nem respeita as funções para as quais foi empossado a 21 de Junho de 2011 [Eu, abaixo-assinado, afirmo solenemente pela minha honra que cumprirei com lealdade* as funções que me são confiadas]. Como tal deveria ser de imediato destituído das funções pelo Presidente da República Portuguesa.

Vivemos hoje num Estado onde o Agressor investiga as Agressões sobre o Agredido. Num Estado onde o Governo, através desta agremiação de seu nome Polícia de Segurança Pública, leva a cabo desacatos e provocações com fins obscuros - talvez para justificar repressões, inibições, proibições... Acabar com a Democracia e a Liberdade. Um Estado onde se agridem cidadãos impunemente.

 *Lealdade, substantivo feminino, Qualidade de leal**; fidelidade; sinceridade; acção leal.

**Leal, adjectivo, Conforme com a lei; sincero; honesto; fiel; substantivo masculino, moeda de prata, que na Índia Portuguesa valia 12 réis; antiga moeda portuguesa.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

livros que nunca devia(m) ter lido


Já participaram nesta iniciativa o João Pedro Lopes e a Olinda P. Gil. Mais textos vêm a caminho. Participem também. Esta iniciativa está aberta a todos os que queiram participar.

Já vivi num país assim. E não gostei.*



Vamos empobrecer. Já vivi num país assim. Um país onde os “remediados” só compravam fruta para as crianças e os pomares estavam rodeados de muros encimados por vidros de garrafa partidos, onde as crianças mais pobres se espetavam, se tentassem ir às árvores. Um país onde se ia ao talho comprar um bife que se pedia “mais tenrinho” para os mais pequenos, onde convinha que o peixe não cheirasse “a fénico”. Não, não era a “alimentação mediterrânica”, nos meios industriais e no interior isolado, era a sobrevivência. 

Isabel do Carmo, no público de 28/11/2011. Texto completo pode (e deve) ser lido aqui.

domingo, 27 de novembro de 2011

Vá lá, Zé... É por Amor... Só uma de Cada vez...




Não sei se conhecem a história do sapo e da água quente? [Em Janeiro ainda havia alguém do PSD que falava nela, agora não sei se haverá?] Pois bem, se conhecem nunca é demais repeti-la. Se não conhecem, pensem nela. E apliquem-na às vossas vidas, ao País, à Europa, ao que quiserem... Assim é:

Se colocarem um sapo num recipiente com água e a aquecerem aos poucos até ferver, o sapo deixa-se estar, acabando por morrer cozido. Pelo contrário, se colocarem um sapo num recipiente com água já a ferver, o sapo poderá sofrer algumas queimaduras, mas salta dali para fora, vivinho da silva, como sói dizer-se.

Assim é o que estão a fazer aos Portugueses. Um corte aqui, um recorte ali, mais um furo no cinto de si já apertado, mais um sacrifício pelo país, empobrecer mais um pouco, tomar banho menos vezes, uma por semana no máximo, menos uma refeição por dia, mais uma taxa ali, outra além, mais um imposto extraordinário. E assim se encontram os Portugueses: uns quase despidos, outros remendados, à espera que a quentura páre de subir, suspirando de alívio quando o volume do bico do gás só aumentou para o vizinho, resignados quando aumentam a chama também para o seu lado, a morrer aos poucos.

Saltem daqui para fora enquanto ainda têm forças! Porque vai chegar o momento em que já nem forças terão para saltar do recipiente para fora! Saltem daqui para fora, feridos mas vivos!

Post também publicado no meu antigo blog.

sábado, 26 de novembro de 2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Stathis Apostolidis, um «Malakas»


Um Grego entre muitos, post/artigo de Paulo Moura. De leitura obrigatória. (link/artigo encontrado através do blog Entre as brumas da memória).

Adenda (25/11/2011, 20:44): Não é só este post que é de leitura obrigatória. Todo o blog deve ser lido!

25 de Novembro



A vida humana é limitada, mas eu gostava de viver para sempre.

(Escreveu Yukio Mishima na nota deixada sobre a sua secretária, a 25 de Novembro de 1970, antes de sair de casa pela última vez. Depois suicidou-se, num ritual conhecido como seppuku. Antes ainda enviou o último volume da tetralogia O Mar da Fertilidade, A Ruína do Anjo, ao seu editor, e tentou um Golpe de Estado.)

Tão perto do puro azul do céu*


*Espectáculo Comemorativo do 812.º Aniversário da Cidade da Guarda, onde Música, Dança, Cinema, Fotografia e Vídeo se misturam. O espectáculo estreia amanhã, Sábado, 26 de Novembro (21h30) no Grande Auditório e sobe novamente ao palco no Domingo, dia 27 de Novembro (16h00).
Com produção do TMG (para a Câmara Municipal da Guarda), coordenação e encenação de Américo Rodrigues, e selecção de textos de António Godinho Gil.
No lote de autores escolhidos constam nomes como Alberto Dinis da Fonseca, António Monteiro da Fonseca, Augusto Gil, D. Sancho I, Eduardo Lourenço, João Bigotte Chorão, João Patrício, José Augusto de Castro, José Manuel S. Louro, José Monteiro, Ladislau Patrício, manuel a. domingos, Miguel Torga, Osório de Andrade, Pedro Dias de Almeida, e Políbio Gomes dos Santos, entre outros.
Em Palco, como protagonista /narrador, estará José Neves, actor residente do Teatro Nacional D. Maria II. E estarão também músicos e dançarinos. Haverá projecção de um filme e diversos vídeos produzidos especialmente para o espectáculo.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Junta de Bois - Citação, 17


Por ter morrido quando eu ainda era muito novo não o conheci a pontos de o entender, o meu avô. Lembro-me dele, samarra pelos ombros, autónomo e viúvo, seco e alto. E de uma das últimas coisas que me disse ao ver passar a família – da qual o outro que não podia dar mais que o comer ao ganhão era patriarca -, a caminho da missa um domingo de manhã: que quando pensasse em comprar uma junta de bois ou qualquer coisa do género numa terra que não conhecesse que fosse ao domingo, e que visse quem estava à missa. Que com os da frente que não fizesse negócio. Gente velhaca, – seriam os primeiros a enganar um homem. A regra do velho homem é boa, pelo que pude observar. Apesar de juntas de bois já não haver quem as venda. Que se afaste a gente das primeiras filas da vida e da sua fauna; por não se encontrar de ordinário lá nada que valha vinte e cinco tostões. Dos dele – bem entendido. Nesta vida incerta até o valor real ou nominal do dinheiro varia: consoante a mão.

soliplass, no post Vint’cinco tostões, no blog Âncoras e Nefelibatas.

Porque eu NÃO sou PARASITA...


... Porque se fosse estava no Governo...

Anjo Caído, de Lauren Kate

O livro que Olinda P. Gil nunca devia ter lido.

O Anjo Caído, Lauren Kate

E era por isso que estava a entrar no seu último ano de liceu no Sword & Cross, um mês inteiro depois de o ano académico ter começado. Ser uma aluna nova já era suficientemente mau e Luce sentira-se realmente nervosa com a perspectiva de ter de ingressar numa turma onde toda a gente já estava instalada. Mas pelo aspecto da coisa nesta visita guiada, não era o único jovem a chegar hoje.
Arriscou uma olhadela para os outros três estudantes, de pé, num semicír­culo à sua volta. Na sua última escola, o colégio particular de preparação para a faculdade em Dover, fora na visita ao campus, no primeiro dia, que conhecera a sua melhor amiga, Callie. Num campus onde todos os outros alunos tinham sido praticamente desmamados juntos, o facto de Luce e Callie serem as úni­cas que não eram filhos de antigos alunos deveria ter sido suficiente. Mas as duas raparigas não demoraram muito a perceber que sentiam exactamente a mesma obsessão pelos mesmos filmes antigos, em especial pelo actor Albert Finney. Depois de descobrirem, no seu ano de caloiras, ao assistirem a Two for the Road (Caminho para Dois), que nenhuma delas conseguia cozinhar um saco de pipocas sem fazer disparar o alarme de incêndio, Callie e Luce nunca mais se tinham separado. Até que... até que teve de ser.
Hoje, ao lado de Luce, encontravam-se dois rapazes e uma rapariga. A rapariga parecia fácil de definir, loira e de uma beleza tipo anúncio da Neutrogena, com unhas arranjadas de um rosa pastel que combinava com o dossiê de plástico.
- Chamo-me Gabbe.
Falou de forma arrastada, lançando a Luce um grande sorriso que desapareceu com tanta rapidez como tinha surgido, antes mesmo de Luce poder dizer-lhe o seu próprio nome. O interesse minguante da rapariga lembrou-lhe mais uma versão sulista das miúdas de Dover do que alguém que se esperaria encontrar no Sword & Cross. Luce não conseguiu decidir se este facto era ou não reconfortante, nem conseguiu imaginar o que uma rapariga com este aspecto estaria a fazer no reformatório.
À direita de Luce estava um tipo de cabelo castanho curto, olhos casta­nhos e uma leve camada de sardas no nariz. Mas o modo como nem sequer olhou para ela e como continuou simplesmente a roer um espigão na unha do polegar deu a Luce a impressão de que, como ela, estava provavelmente ainda atordoado e embaraçado por se encontrar nesta escola.
O tipo à esquerda, por outro lado, encaixava-se com demasiada per­feição na imagem que Luce tinha deste lugar. Era alto e magro, com um saco de DJ ao ombro, cabelo preto desgrenhado e olhos verdes grandes e encovados. Os lábios eram cheios e de um cor-de-rosa natural que a maioria das raparigas daria tudo para ter. Na parte de trás do pescoço, uma tatuagem preta com a forma de raios de Sol a surgirem por entre nuvens parecia quase brilhar na pele clara, erguendo-se acima da gola da T-shirt preta.
Ao contrário dos outros dois, quando este tipo se virou para a fitar, sustentou-lhe o olhar e não desviou os olhos. A boca firmava-se numa linha direita, mas os olhos eram calorosos e vivos. Olhou-a fixamente, tão imóvel como uma escultura, o que fez com que Luce se sentisse também pregada ao chão. Susteve a respiração. Aqueles olhos eram intensos, sedutores e, bem, um pouco desarmantes.

Excerto de Anjo Caído, de Lauren Kate.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Pedro Passos Coelho, o Banho, e a Vidinha.



Caras amigas e amigos,

Nas últimas semanas esta wall tem recebido milhares de posts, vindos de Portugueses de todo o mundo. Como imaginam, e especialmente num momento tão complicado, é-me impossível acompanhar todos eles, mas a minha equipa faz-me chegar muitos dos vossos posts e leio-os com atenção. Considero ser verdadeiramente importante conhecer as histórias e preocupações dos Portugueses reais, de modo a nunca me esquecer que as decisões difíceis que tomo medem-se não só em números e percentagens, mas em vidas e sacrifícios (1).

Desde que anunciei, no dia 13 de Outubro, as medidas mais duras do Orçamento de Estado para 2012, muitas têm sido as mensagens de frustração ou desespero que li nesta página. Mensagens como a da Ana Isabel Albergaria que escreveu “ Exmo Sr Primeiro Ministro. Votei no senhor e ainda acredito que está a fazer o melhor que pode e sabe. Preciso muito da sua ajuda. É sobre o meu orçamento familiar. Até aqui o ordenado nunca chegava ao fim do mês. Era com os subsídios de natal e férias que eu conseguia equilibrar as finanças, pagar seguros, contribuições, irs, ou outra despesa extraordinária, como um par de óculos. Já cortei tudo... mas as despesas não essenciais. Tomo banho só uma vez por semana, só acendo uma lâmpada, dispensei a mulher a dias, só saio no carro em casos extremos (2). Não sei mais onde cortar e o dinheiro não chega. Por favor diga-me o que hei-de fazer para poder continuar a pagar as obrigações ao Estado. Estou desesperada (3). Agradeço que me ajude e dê sugestões de como equilibrar as minhas finanças.”

Como a Ana Isabel, muitos de vocês estão assustados com o desafio que temos de enfrentar. Mas acredito também que, por mais que estes sacrifícios nos custem, sabemos hoje que não podemos mais fechar os olhos aos erros do passado (4). O momento de rescrever o futuro dos nossos filhos é agora e eu acredito que vamos consegui-lo.

Felizmente tenho descoberto também nesta plataforma que muitos são os Portugueses que acreditam. Homens e mulheres inspiradores que não baixam os braços. E usando as palavras de um deles – um redactor de Oeiras chamado Richard Warrell, filho de mãe portuguesa, que escreveu “Chega. Chegou a minha hora. Vou acordar todos os dias e vou pensar no que vou fazer hoje para que amanhã seja melhor. Vou gastar menos em coisas supérfluas e mostrar aos meus filhos que é assim que deve ser (5). Vou educá-los de maneira a não caírem nos mesmos erros da minha geração e das anteriores. Esse será o meu legado e o melhor que todos podemos fazer. Estamos a desperdiçar o presente. Asseguremos o futuro. Por mim, o fim acaba aqui. Este barco não vai ao fundo.”

À Ana Isabel, ao Richard e a todos os que aqui escrevem diariamente peço que não deixem de acreditar.

As dificuldades existem e têm de ser enfrentadas. Mas vale a pena enfrentá-las e ganhar força para as ultrapassar. Trata-se também de uma oportunidade para fazermos as coisas de modo diferente para futuro. Estaremos não apenas a corrigir erros do passado mas sobretudo a construir uma perspectiva de futuro bem mais digna para os nossos filhos e para nós próprios (6).

Juntos, com trabalho, vamos conseguir.

Pedro Passos Coelho, no facebook.


O negrito é da minha responsabilidade, bem como os (números entre parênteses). Pedro Passos Coelho brindou-nos com este belo presente de Natal antecipado, uma verdadeira pérola, demasiado valiosa para não a guardar bem guardada. Por isso, antes que a conta no facebook, ou a publicação em questão desapareça, decidi copiá-la para aqui. E permito-me também fazer os meus comentários:

(1) Ainda bem que quando Sua Excelência toma decisões as mede também em vidas e em sacrifícios; também faz gráficos com as vidas que acabou de tramar? Já estou a imaginá-lo a dizer: «Ainda temos margem para acabar com mais dois ou três milhões de vidas» e «Esse milhão de vidas que escapa com esta medida, pode muito bem suportar mais cinco ou seis sacrifícios».

(2)(3) Até pode haver uma alminha chamada Ana Isabel Albergaria. Não é um alter-ego seu? Não é o Miguel Relvas a sussurrar-lhe ao ouvido? Olhe, a não ser que ma apresente, não acredito. Sabe, não tenho fé. Será que há alguém assim tão parvo, tão idiota, que chegado a uma situação em que só toma banho uma vez por semana [em tempos li um conto onde se dizia que as Portuguesas cheiravam mal, não sei se o Senhor Primeiro ministro corrobora isto - que conto?, sei lá - se não foi escrito pode muito bem vir a ser, ou pensa que o senhor é o único com imaginação?], como dizia, uma alminha chega a uma situação em que só toma banho uma vez por semana, só acende uma lâmpada, dispensou a mulher-a-dias (meu deus, a mulher-a-dias!), e só sai de carro em casos extremos! E qual a preocupação desta alminha? A verdadeira preocupação desta alminha é poder continuar a pagar as obrigações ao Estado! Que desespero, meu deus! Ao que isto chegou, Senhor Primeiro-Ministro! Mas o senhor está a tentar gozar com os Portugueses, ou com a inteligência dos Portugueses, Senhor Primeiro-Ministro?! Então uma alminha anda pelas ruas, fedorenta, a pé ou nos transportes públicos a cheirar a suor, e tudo isto porquê? Para pagar ao Estado!

(4) Chega! Chega Senhor Primeiro-Ministro de justificar os seus erros, as suas decisões [com gráficos a medir as vidas dispensáveis e os sacrifícios sádicos], enfim - as suas ideologias - com os erros dos outros. Então o Senhor Primeiro-Ministro quer convencer-nos a pensar no futuro, a olhar para o futuro, a reescrever (sic) o futuro, e passa o tempo a falar do passado! É o Senhor Primeiro-Ministro que vai ao volante, páre de olhar para o retrovisor, não vê o muro, desculpe, queria dizer a wall, que tem à sua frente? E olhe, o futuro não se reescreve. O futuro escreve-se.

(5) Tinha que ser um Estrangeiro - filho de mãe Portuguesa - a dar o tom moralista? Não podia ser uma tia de Cascais. Deixe-se de moralismos. Olhe que não somos todos Provincianos. Aliás, aqui na Província já quase não há ninguém - por vontade própria, ou à força, deixaremos todos de ser Provincianos.

(6) O seu modelo de dignidade intriga-me. Pobres, mas honrados. Que para ladrões estão lá os políticos e os banqueiros. Ou vice-versa. Deixe-se de arquitecturas estrambóticas. E se ainda tem um pingo de dignidade, demita-se, e leve consigo o fantoche. Ou é o senhor que é a marionete?


Adenda (22/11/2011, às 04h34m): Afinal o Richard Warrell existe mesmo. Começo a ficar preocupado! Será que a Ana Isabel Albergaria também existe?! Por vezes a realidade enfeita-se de ficção... Enfim, se existe mesmo uma alminha chamada Ana Isabel Albergaria, talvez isso me ajude a compreender, ou a entender, ou sei lá, como dizia a outra, a entender certos factos. Oh meu deus, a estas horas da madrugada quantas Anas Isabéis Albergarias suspiram no seu sono mal dormido, cogitando no pratinho de sopa que não comeram para pagar as suas obrigações ao Estado! [Espero por novos desenvolvimentos. A existir essa tal de Ana Isabel Albergaria, deve ser dali de ao pé de Aveiro,  deve ter aquele destilado sentido de humor, aquela refinada ironia, que falta aos Portugueses - humor bacoco não conta.]

Pesquisei no facebook o nome Ana Isabel Albergaria e não encontrei ninguém com esse nome. Mas existem quatro «Ana Isabel Albuquerque».

Post-Scriptum: Vale a pena relembrar o seu Curriculum Vitae, Senhor Primeiro-Ministro.

domingo, 20 de novembro de 2011

O Chão que Ela Pisa, de Salman Rushdie - livros que nunca devia ter lido, 11

O Chão que Ela Pisa, Salman Rushdie
(11) Enquanto olho para o meu exemplar de O Chão que Ela Pisa, de Salman Rushdie, tento lembrar-me da história de Vina Apsara e Ormus Cama, narrada pelo fotógrafo Rai. Mas já não me recordo. Claro que se começasse a (re)ler, depressa se acenderia na minha memória, como num enorme salão em que as luzes se vão ligando aos poucos, até se encontrar totalmente iluminado. Foi um livro que li demoradamente. Uma ou duas semanas, porque há momentos da nossa vida enquanto leitores, em que nos bastam algumas páginas por noite, antes de adormecer, para dormirmos satisfeitos.

Comprei o Chão que Ela Pisa numa tarde em que andava pelas livrarias à procura de Os Versículos Satânicos. Não os tendo encontrado, decidi que ao menos teria que comprar um livro do mesmo autor. Ainda foi num tempo em que as editoras não tinham sites na internet, e a própria internet era um bem escasso, muitas vezes pago a peso de ouro, em meias-horas num qualquer cyber-sítio. O Chão que Ela Pisa podia muito bem ser uma história de um amor impossível - não recordo a história, nem quero lembrar-me dela agora, talvez até seja a história de um amor impossível. Certo é que foi por esse motivo que me decidi por este título. Podia ser a história de um Cavaleiro Andante que segue as pisadas da sua Amada sem que alguma vez a consiga alcançar. 

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Rayuela, de Julio Cortázar

O livro que João Pedro Lopes nunca devia ter lido.

Rayuela, o Jogo do Mundo, Julio Cortázar

Jelly Roll estava ao piano, e à falta de melhor, marcava o compasso suavemente com o pé. Jelly Roll podia cantar Mamie's Blues balouçando-se ligeiramente, os olhos fixados num bocado de tecto falso ou numa mosca que ia e vinha nos seus olhos. Two-nineteen done took my baby away... A vida era isso, comboios que partiam e levavam os outros enquanto uma pessoa se deixava ficar na esquina com os pés molhados, a ouvir um piano mecânico e as gargalhadas a deixarem marcas nos vidros amarelentos dos salões onde nem sempre se tinha dinheiro para entrar...Two-nineteen done took my baby away...

Excerto de Rayuela, de Julio Cortázar


A minha declaração de intenções tem de ficar gravada desde o início. Para mim Julio Cortázar é de um génio literário como há poucos. Daí ter absorvido toda a sua obra como quem bebe lentamente um batido numa tarde quente de Verão, retendo o sabor de cada morango, a consistência de cada bolha da espuma e a delícia fluida de cada molécula de leite. Tendo esta relação de amor, positivamente algemado, às palavras de Cortázar, a sua obra-prima, diferente de tudo e de todos, entra a matar para o top daquilo que aqui se designa (ironicamente perfeito) como os "livros que nunca devia ter lido".

Rayuela é daqueles livros que ninguém consegue bem classificar. Se eu pudesse escrever algo na primeira página a seguir à capa, aquela primeira, sem nada, que funciona como posto de fronteira, esse Vilar Formoso dos livros, escreveria "se não quer passar a olhar para a vida de outra forma não abra este livro". Porque Rayuela marca. Rayuela define. Rayuela influencia.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Puta que os Pariu!

Puta que os Pariu!, João Pedro George, Luiz Pacheco

Puta que os Pariu!, biografia de Luiz Pacheco, de João Pedro George. Quero! Um bom livro - garanto-vos! - para oferecer a muito boa gente! Gente que não lê - portanto não importa se o conteúdo lhes diz alguma coisa! Embora, sussuram-me ao ouvido, os maiores filhos paridos por uma puta, também leiam. Assim, é muito bom para oferecer a médios e pequenos paridos por uma puta!

No blog da Pó dos Livros, podem ler sobre esta obra. Uma vez que ainda não li, isto é tudo o que vos posso dizer: um bom livro para oferecer com um sorriso sarcástico!

Disponível a partir de 25/11/2011

Papa Bento XVI beija Imã



By United Colors of Benetton

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

José Saramago

José Saramago, 16/11/1922 - 18/06/2010


Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... E, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.

José Saramago, in Cadernos de Lanzarote – Diário III (citação daqui)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Caixa Geral de Depósitos - Quanto mais Pobre mais Paga

PAP: Pobres a Pagar! (link)


(Cliquem na Imagem para ampliar - se não conseguirem ler, cliquem com o botão direito do rato e escolham a opção para abrir imagem / link numa nova janela / separador)

Portanto, deixa-me ver se entendo:

  • Quem tiver 3500€ ou mais (na soma de contas à ordem, prazo, ou outros produtos de investimento), não paga nada;
  • Quem tiver conta a prazo com mais de 2500€, não paga nada;
  • Quem tiver entre 1500€ e 2500€ paga 5,20€ por trimestre (20,80€ por ano);
  • Quem tiver entre 1000€ e 1500€ paga 10,40€ por trimestre (41,60€ por ano);
  • Quem tiver menos de 1000€ paga 15,08€ por trimestre (60,32€ por ano).

Quanto mais Pobre mais Paga. Se calhar o valor gasto na publicidade ridícula do PAP - Plano Automático de Poupança - dava para pagar estas manutenções todas. Mas, obviamente, na Caixa Geral de Depósitos a única coisa que é Automática é a roubalheira descarada!

Ide para a PAP que vos pariu!

Feirinha da Cultura


Quem viver por perto, e tiver oportunidade, não deixe de passar no Café Concerto do Teatro Municipal da Guarda. A Feirinha da Cultura foi prolongada por mais dois dias:

A "Feirinha da Cultura em Tempos de Crise e a Pensar no Natal" foi um sucesso e por isso, o TMG decidiu prolongá-la durante os dias de hoje e amanhã (dias 15 e 16).
Para além das participações individuais, a feirinha conta com várias instituições como a Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, o Instituto Politécnico da Guarda, a Associação Luzlinar, a Agência para a Promoção da Guarda e a Associação de Jogos Tradicionais da Guarda, entre outras, na colocação de produtos culturais para venda.
Livros, CD's, DVD's, Revistas, Jogos e objectos artísticos são alguns dos artigos que poderá a feira e tudo a preços simpáticos. (Informação daqui)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

23 anos - há dores que o tempo não cura.



Ele subiu a rua empedrada. Estava uma noite escura e fria. Ainda olhou para trás uma última vez, o último olhar que recordo, subiu para o tractor e partiu. Dez, ou quinze, ou mesmo vinte minutos depois estava morto. Estávamos no dia 14 de Novembro de 1988. (Texto Completo)

domingo, 13 de novembro de 2011

Teorias - de manuel a. domingos


manuel a. domingos
Teorias
tiragem única de 100 exemplares
composição, paginação e ilustração de Sérgio Nogueira
Edição de Autor
2011


Mais informações: blog do autor: meia-noite todo o dia

sábado, 12 de novembro de 2011

livros que nunca deviam ter lido


Os posts da série livros que nunca devia ter lido têm sido, em geral, os mais visitados deste blog, os mais partilhados, e os mais comentados e citados. Assim, teve este vosso anfitrião a ideia nada original, nem genial, mas ainda assim uma ideia, de abrir esta série à participação de todos os ilustres visitantes desta casa. Deste modo ficam desde já convidados todos os benévolos leitores deste blog, que queiram partilhar livros que nunca deviam ter lido, a participar nesta iniciativa. Para tal devem enviar os textos para o meu e-mail, acompanhados, de preferência, com uma citação do livro em questão, e da imagem da capa, bem como o link do vosso blog, caso possuam.

E-mail: andrebenjamim[arroba]gmail[ponto]com


Já participaram:

João Pedro Lopes - Rayuela, de Julio Cortázar;
Olinda P. Gil - Anjo Caído, de Lauren Kate;

Boa noite, Senhor Soares*


*Batam-me! Foi publicado em 2008, o livro da imagem acima, Boa Noite, Senhor Soares, de Mário Cláudio, e eu só soube da sua existência hoje, através deste post.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Escravatura em Portugal e na Europa



Noticiou a imprensa que a PJ resgatou quatro portugueses sujeitos a trabalho escravo em Espanha, tendo detido o "gang" suspeito da autoria do crime. Não se afigura, no entanto, provável que alguma Polícia venha um dia a resgatar os milhões de portugueses a quem o Governo pretende impor meia hora diária de trabalho não remunerado.


É que tal medida não constitui tão só uma redução ilegal, por vias travessas, do salário/hora de milhões de trabalhadores, mas verdadeiro trabalho escravo, de acordo com a Convenção n.º 29 da OIT, de 1930, que define trabalho forçado como "todo o trabalho ou serviço exigido de uma pessoa sob a ameaça de sanção e para o qual não se tenha oferecido espontaneamente".


Ora não só a meia hora diária de trabalho será obrigatória, implicando, pois, o seu incumprimento uma sanção, "maxime" o despedimento, como não consta que algum dos visados para ela "se tenha oferecido espontaneamente". Além disso não será remunerada, o que particulariza (as grilhetas caíram em desuso) o trabalho forçado como trabalho escravo e rebaixa a pessoa a mera coisa de que é possível, como o Governo fez, livremente pôr e dispor.


Se, em Portugal, as leis (e a moral) fossem para todos, incluindo o Governo - e não é, como, com a cumplicidade do Tribunal Constitucional, se viu no confisco dos subsídios de Natal e férias -, a PJ já estaria, como no caso ontem noticiado, a bater à porta do ministro Álvaro.


Manuel António Pina, na Crónica Chamem a Polícia, publicada no Jornal de Notícias de 11-11-11

(Via Sobre o Risco)

Outro Post sobre Escravatura Moderna.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Carta Aberta de «Gentes do Livro»



Senhor Presidente da República
Senhor Primeiro Ministro
Senhor Secretário de Estado da Cultura
Senhor Representante da República para a Região Autónoma da Madeira
Senhor Presidente do Governo Regional da Madeira
Senhor Secretário Regional da Educação e Cultura da Madeira

No próximo dia 21 de Novembro de 2011 o livreiro Jorge Figueira de Sousa, da Livraria Esperança - «primeiro estabelecimento comercial no Funchal e na Madeira a vender exclusivamente livros» - completa 80 anos de vida.

Continuador de um sonho e de um projecto iniciado pelo seu avô, Jacintho Figueira de Sousa [1860-1932], e mantido pelo seu pai, José Figueira de Sousa [1899-1960], Jorge Figueira de Sousa, nascido no Funchal no dia 21 de Novembro de 1931, continua firmemente no seu posto e é para todos nós, «gentes do livro», um exemplo de vida e uma figura que muito honra a classe profissional dos livreiros portugueses, por vezes tão esquecida, não obstante o lugar central que ocupa no que deveria ser um fundamental desígnio nacional: a promoção do livro e da leitura como alicerce de um País mais culto, logo mais justo, mais livre e mais feliz.

Porque julgamos que o Livreiro Jorge Figueira de Sousa, pelo seu exemplo de juventude, tenacidade e persistência, é merecedor de público reconhecimento, rogamos a V. Ex.as se dignem honrá-lo com a distinção tida por conveniente e justa nesta circunstância.

Encontro Livreiro, 5 de Novembro de 2011,

Se deseja subscrever esta carta aberta, envie-nos uma mensagem para encontro.livreiro@gmail.com com o assunto «subscrevo», indicando nome, profissão, localidade e blogue (se relacionado com o livro e a leitura). Agradecemos toda a colaboração na divulgação junto dos seus contactos entre as «gentes do livro». Obrigado - Encontro Livreiro.

O Curriculum Vitae Perfeito



















(Para conseguirem ler o Curriculum Vitae devem clicar com o botão direito do rato nas imagens, e escolher «abrir link numa nova página/separador».)

Na sequência deste post, e depois de muitos pedidos para deixar aqui um Curriculum Vitae perfeito, que garanta todos os trabalhos e empregos, e a maioria das entrevistas, aqui deixo esta proposta. Contudo, lembrem-se sempre que «um bom Curriculum Vitae abre a porta à maioria das entrevistas, mas é uma boa referência que abre as portas a quase todos os empregos». Eufemismos! Carregem nas imagens para poderem ler. Espero que vos seja útil. Deixem as vossas opiniões, para possíveis melhorias. Podem comparar com o Curriculum Vitae de Pedro Passos Coelho, e hão-de constatar que nem o de Pedro Passos Coelho é tão bom!

Curriculum Vitae de Pedro Passos Coelho, em resumo:

Nome: Pedro Passos Coelho

Morada: Rua da Milharada - Massamá

Data de nascimento: 24 de Julho de 1964

Formação Académica: Licenciatura em Economia - Universidade Lusíada (concluída em 2001, com 37 anos de idade)

Percurso profissional: Até 2004, apenas actividade partidária na JSD e PSD; a partir de 2004 (com 40 anos de idade) passou a desempenhar vários cargos em empresas do amigo e companheiro de Partido, o Engº Ângelo Correia, tais como:

(2007-2009) Administrador Executivo da Fomentinvest, SGPS, SA;
(2007-2009) Presidente da HLC Tejo,SA;
(2007-2009) Administrador Executivo da Fomentinvest;
(2007-2009) Administrador Não Executivo da Ecoambiente,SA;
(2005-2009) Presidente da Ribtejo, SA;
(2005-2007) Administrador Não Executivo da Tecnidata SGPS;
(2005-2007) Administrador Não Executivo da Adtech, SA;
(2004-2006) Director Financeiro da Fomentinvest,SGPS,SA;
(2004-2009) Administrador Delegado da Tejo Ambiente, SA;
(2004-2006) Administrador Financeiro da HLC Tejo,SA.

Post-Scriptum: Página para Desempregados no facebook.

Gostaram? PARTILHEM com os vossos amigos, para que todos tenham a oportunidade de escrever um Curriculum Vitae Perfeito!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A Metamorfose, de Franz Kafka - livros que nunca devia ter lido, 10

Metamorfose, Gregor Samsa, Franz Kafka
Gregor Samsa acorda metamorfoseado num monstruoso insecto, n' A Metamorfose, de Franz Kafka. Ainda que isso seja evidente, Gregor Samsa continua a interrogar-se se será possível que não tenha acordado, que o despertador não tenha tocado.  Sabe prefeitamente que sim, que tocou, e sabe que está transformado num insecto. Contudo continua a tentar encontrar uma explicação racional. Mas que explicação racional poderá rebater a tragédia que se abateu sobre si? A única coisa em que pensa insistentemente é em voltar a dormir, para acordar deste sonho estúpido, e esquecer todas estas asneiras. Já passa das seis e meia quando por fim se resigna a confirmar que havia regulado correctamente o despertador para as quatro da manhã.

De todas as possíveis metáforas que podemos retirar desta obra de Franz Kafka, há uma que considero especialmente pertinente: vivemos tão alienados, que quando as tragédias se abatem sobre nós, continuamos a agir como se se tratassem de meras asneiras, fases, ou tolices, que hão-de acabar em breve. E tentamos voltar a adormecer para acordar dos pesadelos que temos que enfrentar. Ou continuamos a nossa vida como se nada fosse. Talvez isto explique a passividade dos Europeus perante a tragédia da crise da dívida que se abateu sobre eles, da mesma maneira que a passividade dos Europeus da época em que Franz Kafka escreveu A Metamorfose, em 1912 (publicada pela primeira vez em 1915), conduziu à I Guerra Mundial, ou a alienação dos Europeus, que conduziu à II Guerra Mundial. Talvez. Certo é que um dia todos temos que acordar, e temos que nos levantar. Por vontade própria ou, como Gregor Samsa, chamado pela mãe, primeiro, e pela irmã, depois.

O Primeiro Amor Leva Tudo


É fácil saber se um amor é o primeiro amor ou não. Se admite que possa ser o primeiro, é porque não é, o primeiro amor só pode parecer o último amor. É o único amor, o máximo amor, o irrepetível e incrível e antes morrer que ter outro amor. Não há outro amor. O primeiro amor ocupa o amor todo.
Nunca se percebe bem por que razão começa. Mas começa. E acaba sempre mal «só porque acaba». Todos os dias parece estar mesmo a começar porque as coisas vão bem, e o coração anda alto. E todos os dias parece que vai acabar porque as coisas vão mal e o coração anda em baixo.
O primeiro amor dá demasiadas alegrias, mais do que a alma foi concebida para suportar. É por isso que a alegria dói — porque parece que vai acabar de repente. E o primero amor dói sempre de mais, sempre muito mais do que aguenta e encaixa o peito humano, porque a todo o momento se sente que acabou de acabar de repente. O primeiro amor não deixa de parte «um único bocadinho de nós». Nenhuma inteligência ou atenção se consegue guardar para observá-lo. Fica tudo ocupado. O primeiro amor ocupa tudo. E inobservável. E difícil sequer reflectir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada.
Diz-se que não há amor como o primeiro e é verdade. Há amores maiores, amores melhores, amores mais bem pensados e apaixonadamente vividos. Há amores mais duradouros. Quase todos. Mas não há amor como o primeiro. É o único que estraga o coração e que o deixa estragado. 

Miguel Esteves Cardoso, em Os Meus Problemas.

Texto partilhado por alguém no twitter, mas não me recordo quem. Este texto pode muito bem servir como uma boa resposta a esta pergunta.

Imagem: Ilustração de Norman Rockwell.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

As perturbações do pupilo Törless - livros que nunca devia ter lido, 9

As perturbações do pupilo Törless, Robert Musil
Quando li As perturbações do pupilo Törless, de Robert Musil, ainda o título era O Jovem Törless. Também a tradução era outra, de 1987, da Editora Livros do Brasil, feita por João Filipe Ferreira. Depois publicaram-se as obras completas de Robert Musil, nas Publicações Dom Quixote, com traduções da responsabilidade de João Barrento. O título As perturbações do pupilo Törless é mais fiel ao título original e ao conteúdo da obra; contudo prefiro o título O Jovem Törless. Preferiria até que o título fosse somente Törless. Penso que estaria mais de acordo com o livro que eu li. Houve alguém que disse - eu ouvi-o, ou li-o, já não sei, ao José Saramago - que ler era reescrever. É por isso que digo que o título devia ser simplesmente Törless. Um título só e desamparado. Porque foi assim que eu li, ou melhor, foi assim que na minha leitura reescrevi Törless.

Törless é um daqueles livros que li tarde demais. Há livros que lemos antes do tempo (li muitos livros antes do tempo, Os Possessos de Fiódor Dostoiévski, que referi neste post, foi um deles), outros que lemos na altura certa, outros que devíamos ter lido muito antes. Quando abrimos o livro, e depois de passarmos a epígrafe de Maeterkinck, que soa como um último aviso, chegamos a «uma pequena estação de caminho-de-ferro». Törless despede-se da mãe, ou a mãe de Törless despede-se dele, ou um despede-se do outro, nunca saberemos bem. E no momento seguinte já Törless está no internato fundado por uma ordem religiosa.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

acidente poético fatal

acidente poético fatal de Américo Rodrigues
acidente poético fatal

Dia 17 de Dezembro de 2011 será apresentado, na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda, o novo livro de Américo Rodrigues, pelas 18 horas. Depois, no mesmo dia, pelas 23 horas, serão lidos alguns poemas, pelo próprio autor, no Café Concerto do Teatro Municipal da Guarda. Apontem na agenda. Mais informações no blog Café Mondego.

domingo, 6 de novembro de 2011

George Steiner e António Lobo Antunes


Da minha leitura da conversa entre George Steiner e António Lobo Antunes retirei isto: George Steiner parece segurar uma bengala invísivel com a mão direita, à qual se apoia em todos os momentos: quando caminha em direcção a António Lobo Antunes para o receber, quando está sentado numa cadeira na sala principal, quando mostra os seus livros, quando passeiam pelo jardim, quando mostra a António Lobo Antunes um cartão assinado por Sigmund Freud. Há pessoas assim, que parecem ter nascido com uma bengala invísivel para se apoiarem ao longo da vida.

sábado, 5 de novembro de 2011

Quando Hitler me Roubou o Coelho Cor-de-Rosa*

Quando Hitler me Roubou o Coelho Cor-de-Rosa, Judith Kerr
Comecei a escrever a série de posts livros que nunca devia ter lido num dia em que pensava neste livro de Judith Kerr. Embora no meu pensamento o título fosse outro: O Dia em que Hitler me Roubou o Coelho Cor-de-Rosa, e já não soubesse quem era a autora. Tinha a ideia que era uma autora, porque me recordava que o livro narrava acontecimentos auto-biográficos, e a personagem principal era uma menina: Anna, vim a descobrir depois. Porque é que na minha memória alterei o título ao livro?, não sei. E da história em si tenho umas vagas, muito vagas, recordações. É um livro que li há muitos anos, talvez em 1995 ou 1996 [a primeira edição é de 1992]. O que recordo lucidamente são as vicissitudes e contingências, que é o mesmo que dizer os acasos e eventos, que me possibilitaram e condicionaram a leitura do livro.

Era interno num colégio católico [como toda a gente sabe - ora aqui está uma fórmula para dizer nada, parecendo que se diz alguma coisa - os católicos, nomeadamente os colégios de tal estirpe, são tudo menos católicos - e ainda menos cristãos: não se ofendam, eu sei como é duro atirarem-nos com a verdade à cara; e, de qualquer modo este não é o assunto deste post; todavia, falando ou escrevendo sobre as circunstâncias que rodearam a minha leitura deste livro, não podia deixar de referir onde é que tal acção ocorreu], e um dia foi decidido criar uma biblioteca de turma: para tal cada um de nós contribuiria com um ou dois exemplares de livros que tivéssemos a mais, e daria uma quantia simbólica pelo aluguer dos livros.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Carta de Candidatura - Citação, 16

Carta de Candidatura, application letter, lettre de candidature, lettre de motivation, Carta de Motivação

Homem, emancipado de pais e de quaisquer cegos laços religiosos ou políticos, vem, por este meio, apresentar a sua candidatura, uma vez que se revê nos traços requeridos para líder de qualquer empreendimento terrestre ou divino. (...) Não vê as dificuldades como barreiras mas sim como escadas a pique para novos desafios, bem mais aliciantes e mais recompensadores. Assume as suas decisões e palavras sem qualquer pavor, padecendo, de quando em vez, de perseguições e de repúdios da parte de fracos sem carácter! (...) Capaz de integrar equipas, não deixa de se assumir como líder quando vê que não se vai a lado nenhum ou que a inércia assume proporções de estupidez colectiva. É politicamente incorrecto quando para isso apontam as circunstâncias, mas, na generalidade, pauta os seus tempos de intervenção por uma atitude diplomata e serena.

Nigel Farage «United States of Europe insane politics»



Vejam outra intervenção de Nigel Farage: «Who the Hell You Think You Are?»

Video deste post encontrado no blog Meditação na Pastelaria.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Os Anos Felizes



Nos últimos meses de 2003 - não sei a data ao certo, teria que ir consultar os meus diários - escrevi um poema, baseado no poema «Os Anos Felizes» de Mário Cesariny de Vasconcelos. Foi em 2003 que a palavra «crise» entrou de modo definitivo* no vocabulário político, social, e jornalístico: não necessariamente por esta ordem. Ainda se lembram?

Lembrei-me dele, agora que circulam pela internet conjugações semelhantes. Aqui deixo o poema que escrevi na época:

eu tlim tecnologias
tu tlim ciências sociais
ele tlim humanidades
nós tlim desemprego
vós tlim senhora
eles tlim bolsos cheios

E o original, de Mário Cesariny de Vasconcelos:

Conclusão a retirar do anunciado referendo grego*:



A Europa e os Mercados têm medo da democracia; a vontade dos povos é uma chatice...

*Uma de muitas...

O Tumulto das Ondas - livros que nunca devia ter lido, 8

O Tumulto das Ondas, Yukio Mishima
(8) Procurei durante anos O Tumulto das Ondas, de Yukio Mishima, de que lera um excerto nas aulas de Português. Estava sempre esgotado. Perguntava se podiam encomendar à editora, mas nunca mostravam grande vontade. Por isso acabei por comprar outras obras de Yukio Mishima, antes de consguir finalmente um exemplar de O Tumulto das Ondas.
Foi numa tarde de ócio em que cirandava pela cidade, e entrei numa livraria recentemente inaugurada. Andava por entre as estantes a observar os títulos, e a cogitar que finalmente encontrara uma boa livraria, talvez a melhor livraria onde entrara em toda a vida. A cada passo que dava, logo me detinha. Era difícil encontrar um título que não quisesse levar para casa. Até que... Ali estava, oito ou nove anos depois, finalmente encontrava um exemplar de O Tumulto das Ondas.
Peguei no exemplar, e não mais o larguei até sair da livraria com outros dois livros no saco de papel reciclado. A livraria fechou dois ou três meses depois, o livro li-o nesse final de tarde, acabando por o emprestar pouco tempo depois - nunca mais voltou às minhas mãos.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Eu, o habitante n.º 4.523.401.387


De acordo com este site, quando nasci era o habitante número 4.523.401.387. Antes de mim tinham pisado o planeta Terra 79.155.500.182 seres humanos. Como nasci em Portugal, e sou do sexo masculino, é expectável que viva até aos 75 anos - e é expectável que, se alcançar esta marca, quando morrer existam sobre o planeta Terra quase 10 mil milhões de seres humanos.