domingo, 30 de outubro de 2011

Primeiro Amor


Cheguei a este post através do blog Delito de Opinião. Nele se pergunta «o que nos causa mais danos: o amor impossível, o amor turbulento, o amor parcial, o amor traído, o amor moribundo ou o desamor?»

É um post antigo onde já não é possível deixar comentários. Por isso não resisti a deixar aqui a minha resposta, porque falta nesta «votação» uma hipótese que considero a essencial: o primeiro amor.

Porque penso que é o primeiro amor que será para sempre a medida de todos os outros, e ainda que o amor seja imensurável, será sempre com referência nele que, consciente ou inconscientemente, pensamos os outros. Porque o primeiro amor será para sempre um arquétipo de todos os outros que vierem depois.

Enfim, todos os amores são a sombra daquele que nos alvoroça como um fantasma.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Jornais em Portugal


Eu ainda sou do tempo em que tinha dinheiro para comprar o Público todos os dias. Depois fartei-me do Público porque perdia qualidade a olhos vistos, e o dinheiro já não dava para tudo. Começei a comprar o Diário de Notícias de vez em quando. Agora nem isso.
Isto representa o empobrecimento económico-financeiro e o empobrecimento cultural de uma grande parte da população portuguesa. Mais grave, representa o corte - por via da carteira - do direito de acesso à informação. Uma população sem acesso à cultura e à informação é seguramente uma população mais facilmente manipulável.
Por enquanto vou lendo aquilo que está disponível de forma gratuita na internet. Até quando, não sei.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Citação, 15


Vou pôr o lixo no contentor que fica ao fundo da rua. Desvio-me do vira-lata do costume. Parou de chover por um momento. Acelero o passo porque o céu escuro promete mais um aguaceiro. Perdido nos meus pensamentos, tropeço na conversa. Terá uns cinquenta anos. Está ao telemóvel e começa a elevar a voz:

Sabes, vou-te dizer uma coisa... viste aquele queijo? Foi praticamente isso e pão que comi toda a semana. Tu não fazes ideia do que é ter uma vida confortável e perder tudo de repente. Hoje pedi ajuda à minha mãe. Vamos ver até quando...

Regresso a casa com as pernas muito pesadas. Não sei se há quem nos possa proteger do que aí vem.


Rui Rocha, no post Nuvens Negras, no blog Delito de Opinião.


Transcrevi o post na íntegra porque não há uma palavra a mais ou a uma palavra a menos, que eu pudesse cortar, para ser em rigor uma citação. Foi isto que fizeram às pessoas. Isto. E por isto não me coíbo de pensar que a sombra negra, a definitiva, é a única coisa que merecem a maioria daqueles que passaram pelos cargos de decisão política - eleitos ou nomeados. E que a sombra negra se abata sobre eles após passarem o suplício da, também negra, fome. Pulhas!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

À consideração do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura


Senhores (não digo senhoras, porque não sei se há senhoras numa organização, instituição, ou lá o que é o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura [SNPC], da Igreja Católica), senhores do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, fiquem a saber que também tenho um romance com uma nota "colocada estrategicamente à entrada do livro, a garantir que tudo é verdade", e que reza assim:

PORTUGAL

Portugal, Mapa de Portugal



"Se alguma coisa pode dar errado, com certeza dará"

Imagem daqui.

domingo, 23 de outubro de 2011

Citação, 14

The Migrant Mother (1936) - foto de Dorothea Lange

Há empresas importantes e com lucros altos que não têm escrúpulos de fechar fábricas e "deslocalizá-las" - ainda hoje, com a crise!- para outros países!

Até é fácil: falo de Acelor-Mittal, a empresa francesa-belgo-luxemburguesa, dos "aços", da siderurgia, que ainda há dias anunciou que vai fechar duas fábricas e lançar no desemprego milhares de empregados.


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

«Who the Hell You Think You Are?» Nigel Farage



«It's even more serious than economics because if you rob people of their identity, if you rob them of their democracy, then all they are left with is nationalism and violence. I can only hope and pray that the Euro project is destroyed by the markets before that really heppens.»

casas - poema de Américo Rodrigues

Skull with a Burning Cigarette - Vicent van Gogh


é uma das conquistas
do poder local
casas mortuárias
em todas as freguesias
depois das
piscinas públicas
e dos
fornos comunitários
agora os mortos
velam-se bem
as casas mortuárias
são sítios
quentes e acolhedores
chegam a ter sanita
e flores naturais
na verdade
vela-se melhor
morre-se melhor
em portugal

«casas» - poema de Américo Rodrigues, publicado no blog Café Mondego.

Imagem daqui.

domingo, 16 de outubro de 2011

Citação, 13


O ano de 2011 fez-me chegar às três dezenas de anos. Sou casado e tenho uma filha de 20 meses. A única dívida que temos, cá em casa, corresponde a uma prestação mensal inferior a 8 por cento do nosso rendimento médio mensal, uma vez que sempre fugimos ao crédito fácil,(...)
A vontade de procurar um futuro comum que permitisse constituir uma família, difícil de vislumbrar em Coimbra, levou-nos a sair da terra que amamos para uma terra distante e desconhecida, que apropriámos como nossa, mas que, pela inexorável insularidade, nos obriga a inúmeros sacrifícios pessoais, académicos e profissionais, numa opção que poucos aceitam assumir por medo ou simples comodismo. (...)
Leio os jornais de hoje e acompanho o movimento dos indignados e, constatando as imagens das manifestações no dia de hoje, percebo que é suposto que, enquanto jovem adulto, pai de uma bebé, me sinta indignado, enfurecido contra tudo e todos. Não me sinto. Sinto-me amorfo, sinto-me preocupado, sinto-me, mais do que indignado, amputado. Amputado de uma perspectiva de futuro sólida, amputado do sentido de esperança nesta coisa chamada Portugal, amputado de um sentimento de doce tranquilidade ao contemplar o futuro e o crescimento da Mariana. (...)
Fiz, temos feito a nossa parte. O que não me, nos impede de nos vermos ancorados a um presente e futuro dependente de decisões draconianas que alimentam uma austeridade autofágica em quem ninguém acredita, que cada vez menos é contemplada como uma solução, cada vez mais vista como um mero paliativo para um enfermo sofredor e terminal.

sábado, 15 de outubro de 2011

Adjectivem...



...que a mim só me apraz praguejar. O melhor adjectivo fica isento de IVA.

Crédito do video: Aventar. Para que não fiquem créditos em mãos alheias...

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Pedro Passos Coelho fala ao país...


...Entretanto já te foram à carteira e nem deste conta... Uns chamam-lhe Orçamento de Estado... Outros chamam-lhe Assalto. Perdão, Asfalto.

Adenda (14/10/2010): Pedro Passos Coelho, o aldrabão que é mais rápido a assaltar os contribuintes que o Lucky Luke a disparar: PUM!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

15 de OUTUBRO


«Detesto as vítimas que respeitam os carrascos.»

Jean-Paul Sartre, in Os Sequestrados de Altona.

espero-te ainda


esperei-te mesmo quando
sabia que não vinhas
que nunca voltarias
esperei-te todos os dias
mesmo quando sabia
que esse dia não chegaria
que essa hora ansiada
era sonho feito de nada


domingo, 9 de outubro de 2011

A Criação do Mundo - livros que nunca devia ter lido, 7

A Criação do Mundo, Miguel Torga
(7) Comprei A Criação do Mundo, de Miguel Torga, numa Feira do Livro Usado, em Coimbra. Não sei se haveria algum livro na Feira que tivesse sido usado noutra função que não a de enchimento de estantes de livrarias ou caixotes de livros não vendidos. Quando penso n' A Criação do Mundo penso sempre na primeira vez que procurei esta obra numa livraria. Entrei à procura de Orfeu Rebelde. Perscrutei as estantes, mas não encontrei nada. Dirigi-me então à rapariga que detrás do computador pachorrento registava as compras dos clientes, lhes apresentava a conta, e perguntava maquinalmente se queriam embrulho. Não sabia em que embrulhada me ia meter.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Desde a Montanha - Poema de Tomas Tranströmer



Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.

«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.

Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.


Poema de Tomas Tranströmer - Prémio Nobel da Literatura 2011


Lido no Bibliotecário de Babel, onde podem ler outros três poemas.

Imagem daqui.

Tomas Tranströmer - Prémio Nobel da Literatura 2011



"Because, through his condensed, transluscent images, he gives us fresh access to reality" - Porque, através das suas imagens densas e lúcidas, dá-nos um novo acesso à realidade.*


*Tradução minha. Pode traduzir-se também como imagens condensadas e translúcidas.

Actualização: já podem ler a notícia no Público.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O meu Candidato ao Prémio Nobel da Literatura 2011: Michael Cunningham


Michael Cunningham (site oficial) é um escritor Norte-Americano, nascido a 6 de Novembro de 1952, em Cincinnati, Ohio. Mais conhecido por ser o autor d' «As Horas», romance com que venceu o Prémio Pulitzer e o Prémio PEN/Faulkner Award, em 1999 - que foi adaptado ao cinema, em 2002. As suas obras estão publicadas em Portugal pela editora gradiva: Golden States (1984, não está publicado pela gradiva, nem por outra editora em Portugal, que eu tenha conhecimento); Uma Casa no Fim do Mundo (1990, também adaptado ao cimena, com argumento do próprio Cunningham); Sangue do Meu Sangue (Flesh and Blood, no original, de 1995); As Horas (1998); Dias Exemplares (2005); e Ao Cair da Noite (2010).

Não encontrei o seu nome referenciado em nenhum site de apostas. Não julgo que isso seja um handicap para ganhar o Nobel. A sua obra, literariamente falando, pertence com certeza, à «boa» Literatura, e ninguém poderá dizer que não é uma obra idealista.


Actualização (06/10/2011): Tomas Tranströmer é o Prémio Nobel da Literatura de 2011, «Porque, através das suas imagens densas e lúcidas, dá-nos um novo acesso à realidade.»

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Prémio Nobel da Literatura 2011 - IV


Já é conhecida a data e a hora a que será anunciado quem sucederá a Mario Vargas Llosa: quinta-feira, 6 de Outubro de 2011, 1 P.M. CET - 12h00 em Portugal. E, como é habitual, mais uma vez a Academia de Estocolmo irá surpreender-nos. Como sempre, será anunciado um completo desconhecido para a maioria das pessoas, ou um daqueles escritores que toda a gente estava à espera. É sempre assim. Não sendo a norma, mesmo quando o nome anunciado reúne algum concenso, é surpresa por isso. É o momento de recordar os termos em que Alfred Nobel legou a sua fortuna para a criação do Prémio Nobel, nas 5 categorias abrangidas:

A derrocada do Euro numa metáfora futebolística

 A Zona Euro, ou Eurolândia, como é apelidada pelos adeptos, é uma equipa constituída por 17 jogadores, que está em negociação com outros 7. Pretende deste modo chegar ao número ideal de 24 jogadores.

Dentro de campo, estão assim distribuídos: à baliza o ágil guarda-redes Irlanda, famoso pelas defesas impossíveis. No centro da defesa estão dois gigantes com quase dois metros de altura, Itália e Espanha. Itália mais lento, mas com uma cultura táctica superior que lhe permite ler os movimentos dos adversários, e Espanha mais rápido, com frequentes investidas no ataque. As laterais são ocupadas por Portugal e Grécia, dois laterais lestos, capazes de trocar os olhos a qualquer defesa quando estão no ataque, e de aparecer no caminho dos avançados quando já ninguém conta com eles. Tanto jogam à esquerda como à direita, alternando frequentemente entre si.

domingo, 2 de outubro de 2011

Cântico Negro - Poema de José Régio



Não sei porque caminho devo ir - porque caminho devemos seguir. Mas não é este que nos querem vender. Porque ninguém consegue responder a uma pergunta muito simples: como é que o aumento de impostos, que leva à recessão, que faz com que aumente o desemprego, o que diminui os impostos que são cobrados e aumenta os gastos do estado, o que faz com que seja necessário cobrar mais impostos, que consequentemente nos conduz a mais recessão, nos levará por fim a sair da recessão?!

Estes sucessivos Processos de Empobrecimento (ou Escravatização) em Curso são apenas uma forma tosca de protelar, esperando que aconteça um milagre.

Não, não sei porque caminho devo ir - porque caminho devemos ir; não sei o que fazer - mas tal não me impede de ver que este não é o caminho: alguns pretendem justificar a escolha deste caminho suicída com o facto de não haver outro caminho à vista. Pois há que procurá-lo. Por este caminho é que não!

Dito de outra forma: não é por não ter um medicamento que vou tentar curar-me com um veneno! Se o vosso médico vos receitar um veneno para uma doença que vos apoquente, vocês vão tomá-lo, só e apenas porque não conhecem um medicamento para a mesma?!?

sábado, 1 de outubro de 2011

no tempo da poesia

Desenho de Corpo Feminino Nu
Marie-Jo dans une pose de dix minutes.

I

a noite desce
pelo horizonte
pela janela
pelos teus ombros
e caminha
esguia
para o novo dia

tu queres ir embora
mas
espera um pouco
ainda está escuro
e frio
o teu corpo
junto ao meu