sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Prémio Nobel da Literatura 2011 - III


Já são conhecidas as datas em que serão anunciados os Prémios Nobel de 2011, nas várias disciplinas a que é atribuído. Assim, já na próxima segunda-feira, dia 3 de Outubro, será anunciado o vencedor do Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina; no dia seguinte, dia 4 de Outubro, será anunciado o vencedor do prémio de Física. A 5 de Outubro, será conhecido o vencedor do Prémio Nobel em Química. Depois, na sexta-feira, dia 7 de Outubro, é anunciado o vencedor do Prémio Nobel da Paz - o único que não é decidido na Suécia, mas sim pelo Parlamento Norueguês.

Desempregados

Desemprego, Desempregado, Chômage, unemployment, Desempleo

E agora faço parte da horda dos desempregados. Que fazer, com todo o dia à nossa frente? Sentamo-nos numa escadaria qualquer ou em qualquer canto de um imundo passeio. Os passeios são como tapetes desfiados que esperam por nós depois de uma sessão atroz de comida asquerosa e de bebida purgante: a noite passada os deuses do clima afogaram as suas mágoas, e depois vomitaram de dez mil metros de altura. Passamos horas e horas transidas e perplexos nos parques, rodeados de flores de castas inferiores. Ufa (pensamos nós), que a vida custa a passar! Atingi a maioridade nos anos 60, quando havia oportunidades, quando tudo parecia estar à nossa espera. E agora a malta vai deixando a escola para... para quê? Para nada, para o caralho.

Martin Amis, in Money.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Sacrifícios o Caralho



É correr com esta corja, antes que esta corja corra connosco! Juntem-se à Manifestação; Façam a Revolução!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Ela canta, pobre ceifeira



Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente 'stá pensando.
Derrama o meu coração
A tua incerteza voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Poema de Fernando Pessoa.


terça-feira, 27 de setembro de 2011

«The governments don't rule the world... Goldman Sachs rules the world...»


Não sei quem seja esse Goldman Sachs, mas não votei nele. Ainda assim, é corrê-lo do governo o quanto antes; é matá-lo mesmo! O quanto antes! Antes que ele nos mate a nós! Para com os vírus, as doenças, os «cancros», é esta a linguagem que tem que ser utilizada: exterminá-lo, como a uma praga! A Política não pode continuar a ser dirigida pela Economia; tem que ser dirigida pelos Povos. A Economia tem que existir para benifício das Pessoas, e não o contrário. Urge que se enfrente este monstro com determinação e coragem. Ou seremos sugados por ele, e com ele.

domingo, 25 de setembro de 2011

Prémio Nobel da Literatura 2011 - II


Manuel Poppe aposta no romancista Aharon Appelfeld para vencedor do Prémio Nobel da Literatura, em 2011. Aharon Appelfeld é um romancista Israelita, nascido em Zhadova, em 1932, localidade que pertencia nessa época à Roménia, e que actualmente faz parte da Ucrânia. Foi prisioneiro num campo de concentração nazi, na Ucrânia, de onde conseguiu fugir, para se juntar ao exército soviético, como cozinheiro. Após o final da II Guerra Mundial esteve largos meses em Itália, num campo para deslocados, antes de emigrar para a Palestina, em 1946, cerca de dois anos antes da independência de Israel. Escreve em Hebraico, a sua língua materna é o Alemão, e também fala Yiddish, Ucraniano, Russo, Inglês, e Italiano.
Nunca li nada de Aharon Appelfeld, nem sequer conhecia o nome até Manuel Poppe mo ter referido. Para Português está traduziada apenas uma obra, Fragmentos de uma Vida, na Civilização Editora.

Quanto a José Saramago, tenho uma opinião totalmente oposta à de Manuel Poppe - embora tenhamos a mesmíssima opinião relativamente a António Lobo Antunes ou a Afonso Duarte. A minha aposta - sim, porque é de uma aposta que se trata, nada mais - pois estas nossas opiniões em nada irão influenciar o nome que venha a ser o escolhido - mantém-se no escritor Michael Cunningham. Têm algum nome em quem apostar ou que gostariam que ganhasse?

Actualização (06/10/2011): Tomas Tranströmer é o Prémio Nobel da Literatura de 2011, «Porque, através das suas imagens densas e lúcidas, dá-nos um novo acesso à realidade.»

Post anterior:

Citação, 12



Sequestro da democracia. O que há de comum entre os distúrbios de Inglaterra e a destruição do bem-estar dos cidadãos provocada pelas políticas de austeridade comandadas pelas agências de notação e os mercados financeiros? São ambos sinais dos limites extremos da ordem democrática. Os jovens amotinados são criminosos, mas não estamos perante uma “criminalidade pura e simples”, como afirmou o primeiro-ministro David Cameron. Estamos perante uma denúncia política violenta de um modelo social e político que tem recursos para resgatar bancos e não os tem para resgatar a juventude de uma vida de espera sem esperança, do pesadelo de uma educação cada vez mais cara e mais irrelevante, dado o aumento do desemprego, do completo abandono em comunidades que as políticas públicas anti-sociais transformaram em campos de treino da raiva, da anomia e da revolta.

 Boaventura de Sousa Santos, na crónica publicada no jornal Público, Os Limites da Ordem

sábado, 24 de setembro de 2011

MONEY



Sem dinheiro, um tipo tem um dia de idade e um centímetro de altura. E também está nu.
(...)
Se todos nós largássemos as ferramentas e durante dez minutos nos déssemos as mãos e parássemos de acreditar no dinheiro, então o dinheiro deixaria de existir. Nunca faremos isso, evidentemente. Talvez o dinheiro seja a grande conspiração, a grande ficção. A grande viciação, também: estamos todos viciados e não somos capazes de nos desabituar.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O Primeiro Dia

Imagem daqui.


Ainda não passou o primeiro dia. O primeiro dia será sempre aquele em que te conheci. Nesse deixei para trás todas as minhas histórias, pronto a começar outra narrativa. Era domingo. Deixa-me voltar atrás, porque minto. Falo a verdade, apenas a verdade, mas minto. Como é a frase do evangelho?! Não, a verdade não me salvará, a verdade não me redimirá, nem sequer me dará paz de espírito.

Porém, minto. Minto porque neste primeiro dia ainda não deixei nada para trás. Isso foi acontecendo depois, sem que eu me apercebesse, sem que eu quisesse, ou me importasse, até que em meados de Março do ano seguinte dei conta que. Espera! Espera! Lá chegaremos. Hoje ainda não és ninguém para mim, em mim. És ainda um estranho, e a única coisa que me liga a ti é estranheza. A estranheza e o que há nela de enigmático. Apenas a vulgar curiosidade, que surge no espírito humano quando dois estranhos se cruzam no acaso dos seus caminhos, nos une. Estás sentado no lancil do pátio, conversas com. Com um amigo comum. 

O Saldo

*

Faço contas à vida,
Livros que queria comprar,
Contas que tenho a pagar,
Os dias que ainda me restam,
Dinheiro, Amor e Ilusões
Não me chegam para continuar.
Observo o caderno vermelho,
Não há Haveres para cobrar,
Apenas Deves para saldar.
Fecho o caderno velho,
Nada mais há a registar.
Só dúvidas; sonhos e ilusões
Que não se podem pagar.



Citação, 11



O comportamento dos outros países europeus em relação à Grécia lembra-me o Ensaio sobre a Cegueira, de Saramago. Quando várias pessoas ficam cegas em resultado de uma doença misteriosa, são colocados numa prisão em isolamento para evitar o contágio. O problema é que o contágio não deixa de se verificar, crescendo o número de presos até que os próprios governantes são atingidos. Quando a Grécia cair (já não é se…) o contágio aos outros países europeus é inevitável. Passos Coelho já o reconheceu ontem. Lastimavelmente, no entanto, a Europa continua a caminhar para o abismo, insistindo numa via que já se provou que não resolve o problema dos países endividados. Por onde anda a proclamada solidariedade europeia?

Luís Menezes Leitão, no blog Delito de Opinião

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

De todos nós aquele



De todos nós aquele
em quem depositávamos
esperanças que teria
mais que um nome cravado
numa lápide sombria
ou num livro do registo civil
arrumado numa prateleira.

De todos nós aquele
de quem esperávamos
que no futuro seria
o nosso brilho nos olhos
nas conversas de café
nos frios invernos
nos quentes fins
de tarde de verão
numa esplanada
ou junto ao balcão.
Na troca de palavras
com um empregado
um colega de trabalho
ou um de nós que viesse
visitar-nos num serão.

De todos nós que tantas
esperanças tínhamos
que tantos sonhos tanta
imaginação possuíamos
cravada em nós como
um corpo que viola
outro corpo à força
de nos agarrarmos à vida.

De todos nós, aquele
em quem confiámos
as nossas esperanças
acabou como todos nós.

Com um tiro de caçadeira
saindo furioso pela nuca.
Ao menos, de todos nós,
tu tiveste a coragem
necessária para admitir:
- Basta! Não irei a lado nenhum!

The Printed Blog Portugal


Ontem ao chegar ao quiosque informaram-me que a revista que havia pedido já tinha chegado. Chegou, mas com um número de atraso, que aquela por que eu havia perguntado era o número 1. Lá fui ao bolso buscar uma moeda de 2€ - isto dos euros foi a maior ilusão que podiam ter inventado. Damos uma moedinha por uma revista, e pensamos que é barato. E quando damos uma nota das mais pequenas, pensamos que não é assim tão caro. Fui para o café, onde registei o Euromilhões - a mesma chave desde que existe Euromilhões - não sei se sou eu que não tenho sorte nenhuma, se é a chave que não presta, ou se são eles que não acertam em mim. A verdade é que continuo o mesmo pobretana, pois mais um sorteio passou e nem um número. Sentei-me a tomar a bica - finalmente consegui utilizar esta palavra num blog! - e folheei a revista, lendo pelo meio alguns artigos ao acaso. Quantos aos bloggers que escreveram para esta edição, mais de 90% já os conhecia da blogosfera. A novidade para mim está na fotografia: só conhecia um nome.

Se vou voltar a comprar? Se ainda tiver uma moeda no bolso, no próximo mês, quando passar perto do quiosque...

domingo, 18 de setembro de 2011

Prémio Nobel da Literatura 2011


Pela primeira vez em muitos anos não encontro, nas minhas preferências, um escritor que queira que ganhe o Prémio Nobel da Literatura. Falta menos de um mês para a Academia Sueca anunciar o galardoado de 2011, e não tenho qualquer expectativa. Durante anos desejei que fosse o nome de Mario Vargas Llosa o anunciado, e quando começava a perder essa esperança, eis que a Academia finalmente capitulou. Com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Mario Vargas Llosa, completou-se um triângulo iniciado em 1967, com Miguel Ángel Asturias, e que tem no outro vértice Gabriel García Márquez, que recebeu o Prémio Nobel em 1982. 

Lembrei-me disto a propósito do último romance de Mario Vargas Llosa, O Sonho do Celta, que finalmente transitou de uma das minhas estantes para a minha pequena secretária. Apesar de o ter adquirido no dia em que foi posto à venda, ainda não chegou a sua hora de ser lido. Li as primeiras páginas quando o comprei, e não lhe voltei a tocar, pois não me apetecia naquele momento: não tenho a certeza que já me apeteça agora; algo me diz que é a obra menos conseguida de Mario Vargas Llosa...

E quanto ao galardoado de 2011, em quem apostam?!

sábado, 17 de setembro de 2011

Claraboia [sic] - romance inédito de José Saramago


Claraboia [sic] - romance que José Saramago terá tentado publicar por volta de 1953, sem sucesso, chegou por fim às livrarias, pois como diz a epígrafe de A Viagem do Elefante «Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.» Ou quase sempre, pois por mais que espere, não há maneira do livro chegar a minha casa; lá vou ter que me resignar a ir comprá-lo a alguma livraria, esquecendo por momentos a crise: quando não tiver dinheiro para comer, faço sopa de parágrafos, com letras e palavras, e um pouco de sílabas para dar sabor; acompanhada por capítulos barrados com frases, deverá chegar para me alimentar na longa e austera estação que se aproxima.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Uma Conspiração de Estúpidos - livros que nunca devia ter lido, 6

Uma Conspiração de Estúpidos, John Kennedy Toole
(6) Uma Conspiração de Estúpidos, de John Kennedy Toole, vem com um aviso: Quando aparece no mundo um verdadeiro génio, é possível reconhecê-lo através deste sinal: todos os estúpidos se unem contra ele. É uma citação retirada da obra Thoughts on Various Subjects, Moral and Diverting, de Jonathan Swift, que serve de epígrafe: esta frase contém o tema, o resumo, e a justificação do título do romance. Não que exista verdadeiramente uma conspiração. (Mas com o nome Kennedy, nunca se sabe).

Li o romance aos solavancos, ao contrário do que normalmente faço; algumas páginas por dia; alguns dias sem ler, durante dois ou três meses. Porque é um romance cómico, de trazer lágrimas aos olhos de tanto rir, mas também um romance que nos angustia. Ignatius Reilly tem trinta anos e vive em casa da mãe, sem qualquer trabalho ou ocupação digna desse nome. Qualquer semelhança de Ignatius Reilly com o autor, John Kennedy Toole, ou com milhares de jovens da actualidade (da geração rasca, à rasca, mil-eurista, do trabalho máximo pelo salário mínimo, desempregada, desesperada, desencantada, endividada), não é pura coincidência. Há evidentes semelhanças. Mas também diferenças. Parafraseando o célebre início do romance Ana Karenine, de Leo Tolstoi, os jovens bem-sucedidos parecem-se todos; os mal-sucedidos são-no cada um à sua maneira.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Foste um sonho, amor...



Foste um sonho, amor,
E no sonho éramos felizes,
Mas eu acordei
E o leito estava vazio.
Eras uma miragem
E quando eu te toquei, amor,
Tu acabaste. Quando tive frio,
Foste o fogo que me aqueceu
Mas quando o Inverno chegou,
Amor, tu eras pequeno
E frágil. A tua chama
Extinguiu-se e eu arrefeci.
Não sei, amor,
Se eras tão pouco,
Porque é que nunca te esqueci.


Bilhetes

I know not what tomorrow will bring

Um bilhete de J.D. Salinger à sua empregada doméstica foi posto à venda no e-bay por 50.000 dólares. E este que se pode ver na imagem, de Fernando Pessoa ao futuro, quanto valerá?

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Literatura - A Arte de Conjecturar

Pietá - Paula Rêgo


«Uma ocasião em que o interpelava quanto à questão de como acabariam os estados modernos e o mundo, e de como se renovaria o mundo social, guardou um silêncio longo mas, por fim, lá consegui arrancar-lhe umas palavras:
- Acho que tudo isso ocorrerá de modo muito banal - disse - Todos os Estados, simplesmente, apesar de «feitos todos os balanços orçamentais e dada a ausência de défices», se verão un beau matin, todos, numa atrapalhação definitiva e não irão querer pagar para, no meio daquela falência geral, se renovarem. Entretanto, todo o elemento conservador de todo o mundo se oporá a isso, porque será ele, justamente, o accionista e o credor, e não quererá admitir a bancarrota. Aqui começará, obviamente, a oxidação total, por assim dizer: virão muitos judeus e começará o reino dos judeus; em seguida, toda gente, mesmo aqueles que nunca possuíram acções e, em geral, nunca possuíram nada, isto é, todos os miseráveis, não quererão, naturalmente, participar nesta oxidação... Dar-se-á início a uma luta e, depois de setenta e sete derrotas, os miseráveis liquidarão os accionistas, evidentemente. Talvez tragam uma palavra nova, talvez não. O mais provável é que também vão à falência. A seguir, meu amigo, sou incapaz de prever seja o que for nos destinos que mudarão a face deste mundo. Aliás, podes sempre consultar o Apocalipse...
- Será tudo assim tão material? Será que o mundo actual vai ruir por causa apenas das finanças?
- Oh, é claro que referi só um cantinho do cenário geral, mas esse cantinho está ligado ao resto por laços, por assim dizer inquebrantáveis.
- Então, o que é preciso fazer?
- Oh, meu Deus, não tenhas pressa: isso tudo não vai acontecer tão cedo. De qualquer forma, de uma maneira geral, o melhor é não se fazer nada: assim, pelo menos, terás a tranquila consciência de não teres participado em nada.»

Fiódor Dostoiévski, in O Adolescente (1875), tradução de Filipe e Nina Guerra. Excerto lido no blog Tolan.

Tendo em vista que o juro cobrado à Grécia, em títulos de dívida a um ano, ultrapassou os 100%. Tendo em conta este «Pecado contra a Natureza»: a usura. Isto tudo vai acontecer em breve.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Novas Traduções

Oscar Wilde

A Relógio D’Água vai publicar, pela primeira vez, traduções da poesia de James Joyce e lançar novas traduções das suas principais obras de ficção narrativa.

A poesia, Música de Câmara, é traduzida por João Almeida Flor. Paulo Faria traduz A Portrait of the Artist as a Young Man e Margarida Vale de Gato Dubliners. Finalmente, Ulysses é traduzido por Jorge Vaz de Carvalho.

Vai ainda publicar as obras completas de Virginia Woolf, James Joyce, Oscar Wilde, Franz Kafka, Lewis Carroll e Joseph Conrad.


domingo, 11 de setembro de 2011

11 de Setembro


Os Amantes - de Jorge de Sena

Les Amants, René Magritte
Les amants (1928) - de René Magritte

Muitos internautas incautos têm vindo parar aqui ao blog em busca do conto «Os Amantes» de Jorge de Sena. O melhor lugar para encontrar este conto é na obra Antigas e Novas Andanças do Demónio. A obra foi publicada originalmente em separado: Andanças do Demónio, em 1960, e Novas Andanças do Demónio, em 1966. A segunda edição de ambas já foi publicada em conjunto, com o título Antigas e Novas Andanças do Demónio. Para todos aqueles que aqui chegam enganados, e para todos os outros, publico aqui o conto. Tal não dispensa a leitura integral desta obra, que incluiu um conto, logo a abrir a obra, de que gosto muito: Razão de o Pai Natal ter Barbas Brancas.

11 de Setembro de 2001



Foi pouco antes de o segundo avião embater contra as torres gémeas do World Trade Center, a torre Sul, conforme se pode ver na sequência de imagens acima, que liguei a televisão no dia 11 de Setembro de 2001. Ainda o jornalista falava na hipótese de um acidente. A primeira coisa que pensei foi que algum avião tinha sido sequestrado. Mas não imaginava que outro avião pudesse estar prestes a embater contra a outra torre gémea. Foi o que aconteceu. Eu estava de férias, tinha-me levantado havia poucos minutos, e ainda tinha vestido o pijama, e tinha acabado de fazer umas sandes para comer. Foi o que fui fazendo enquanto assistia ao noticiário que se prolongou pela tarde, estupefacto. E naquele momento já não me parecia um ataque terrorista; recordo antes que pensei (e escrevi nas notas do diário da altura): «uma vez mais a realidade ultrapassa a ficção». Quando vejo as imagens, em fotografias ou documentários, continua a parecer-me ficção. Infelizmente, os acontecimentos do 11 de Setembro de 2001, foram demasiado reais. E aquilo que até àquela data era uma dúvida para mim, desfez-se. O ser humano não tem salvação possível. Seremos os nossos próprios carrascos.

Post-Scriptum: um outro 11 de Setembro a relembrar: 11 de Setembro de 1973.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Saudade



saudade

dizias...
e eu acreditava
acreditava
porque as tuas palavras tinham
um sorriso
pronto a saltar
dos teus lábios
para a minha boca

dizias...
e eu acreditava
acreditava
mas as tuas palavras vinham
com um aviso
escondido no teu olhar

dizias...
e eu acreditava
acreditava
porque me seduzias


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Abraço - Poema de Américo Rodrigues

Abraços, Fabriano Rocha
Abraços sobre papel (3) de Fabriano Rocha.


Abraço

abraço um desconhecido
na rua
e o homem granítico
afasta-me
com um palavrão
seguido
de um movimento
ríspido
de repúdio
e ventania
talvez este homem
nunca tenha sido
abraçado
na rua
por um vagabundo
dos afectos
especializado
em abraços rápidos
seguidos de fuga
e literatura de ocasião

Américo Rodrigues
6/9/11
(do blog Café Mondego)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Grande Oferta de Livros do Bibliotecário de Babel


José Mário Silva organiza, pela segunda vez, uma iniciativa que consiste na oferta e troca de livros. Dia 24 de Setembro de 2011, pelas 11h, na Pérgula do Miradouro do Monte Agudo - Penha de França - Lisboa. Para quem tiver interesse, e disponibilidade, aqui fica a informação.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

um país de espiões e aldrabões

Dama acompanhada pela Alcoviteira - imagem daqui.

Quem acompanhe as notícias deste país, sabe que este país está transformado num país de espiões e aldrabões; de delatores e mentirosos; de alcoviteiros e chico-espertos. Está transformado naquilo que nunca deixou de ser: num país de pides e ditadores. Eles até podem andar escondidos e anestesiados; mas aos poucos vão perdendo a vergonha que nunca perderam. Está-lhes nas veias, como um vício de que nunca pretenderam libertar-se, ainda que se tenham vangloriado duma suposta libertação.

Citação, 10

As Duas Faces - imagem daqui.

Afirmavam e provavam os oponentes que, como primeiro-ministro, o senhor Sócrates descaradamente mentia. Afirmam e provam agora os seus seguidores que o senhor Passos Coelho descaradamente mente.
Cidadão sem partido, sem tacho, amizades ou dependências políticas, livre que nem andorinha, pergunto-me que proveito move as senhoras e senhores que tanta energia e palavras gastam no fingimento de que protestam contra a mentira, e sinceramente querem endireitar o torto. Será mau hábito que têm? Achaque que lhes dá? Sendo apenas figurantes e vassalos, imaginam-se actores de primeira?
De qualquer modo o espectáculo é deprimente, menos pela fantochada do que pelo que põe à mostra de sabujice. E mal, muito mal, vai à vida política da nação, quando o debate público ganha o tom das rixas de taberna.

J. Rentes de Carvalho, no blog Tempo Contado.

sábado, 3 de setembro de 2011

Citação, 9 - José Saramago

José Saramago - fotografia de Sebastião Salgado


Ainda não tirei a limpo se o Saramago batia ou não na primeira mulher. Não quero saber. Reconheço a sensatez dos que dizem que interessam os livros, não os escritores, interessa pouco aquilo que pensam sobre o mundo, é irrelevante a sua vida privada. Fossemos nós, leitores, à procura, em quem lemos, de exemplos de vida, heroicidade, liberdade, valores sólidos, e ficávamos à míngua, sem nada para ler. Está tudo muito bem. É assim mesmo que deve ser. E, no entanto, foi a descoberta da intimidade, a dança das rotinas diárias, a partilha de um amor maior que a vida, essa extraordinária capacidade de encontrar o sagrado nos gestos profanos, banais e indignos, que me levou a ler um escritor, por mim, há muito, proscrito. 

Ana Cássia Rebelo, no blog ana de amsterdam: Saramago (1); e Saramago (2).

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A minha Vida numa Imagem, 3

Auto-Retrato Dupl, Egon Schiele
Auto-Retrato Duplo - Egon Schiele


Auto-Retrato Duplo, desenho de 1915 do pintor austríaco Egon Schiele. O auto-retrato podia ser triplo, quádruplo, tantas vezes quantos os estados de espírito. Porque não somos unos, somos múltiplos. E como os traços do desenho, alguns traços são difusos e outros são carregados; e alguns são difusos num momento e carregados noutro, e o contrário; a cada instante mudamos, ou voltamos a ser o que fomos. Por vezes ficamos vazios, para logo ficarmos repletos. De memórias, de sentimentos, de imagens. Quantas vezes nos odiamos, para de imediato nos amarmos, como na imagem, com estupefacção, admiração, ou compreensão. Somos incompletos, como um desenho inacabado.