domingo, 28 de agosto de 2011

Livros - um desafio aceite.



O Adolescente Gay desafiou-me a responder a um dos memes literários que circulam pela blogosfera. Aqui ficam as minhas respostas a este inquérito:

1 - Existe um livro que relerias várias vezes?

Sim, existe. Intitula-se O Principezinho. Também há quem o intitule O Pequeno Príncipe. Foi escrito por Antoine de Saint-Exupéry. E já disse para mim mesmo que nunca mais o hei-de (re)ler. Também reli a manhã submersa, de Vergílio Ferreira. E releio muitas vezes livros de poesia - embora neste caso, não costume reler o livro na totalidade, mas ao acaso. Reli muitas vezes o poema O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro. E volto sempre ao volume Poesia, de Álvaro de Campos, em edição da Assírio & Alvim. Apesar de tudo isto que digo atrás, em geral não tenho o hábito de reler.

2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O Remorso - Poema de Jorge Luis Borges




Até hoje, de Jorge Luis Borges (1899-1986), apenas havia lido as colectâneas de contos Ficções, e O Aleph. Pelo que li na internet são as suas duas obras mais famosas. Porém eu cada vez acredito menos naquilo que é publicado na internet. Porque escrevo isto? Porque recebi um e-mail com um poema supostamente de Jorge Luis Borges, e chamar àquilo poema é manifestamente exagerado: era uma coisa com forma de qualquer coisa, lamechas o suficiente para enternecer e encher de ais qualquer coração insensível. Era qualquer coisa intitulada Instantes (que nada tem que ver com o poema O Instante, de Jorge Luis Borges, que publico abaixo) - e eu fiquei irritado uns instantes: como é que é possível que haja quem acredite que uma coisa daquelas poderia ter sido escrita por Jorge Luis Borges? Mas há - pelo que andei a investigar, até professores universitários: nada que me impressione: os académicos nunca me inspiraram confiança. Faz-me lembrar aquela história das pedras que alguém atirou para o meio do caminho dos poemas do Fernando Pessoa. E no fim conseguiram construir um castelo, ah heróis! Por falar em pedras no meio do caminho, leiam o poema de Carlos Drummond de Andrade. E ainda assim era apenas uma pedra.

Enfim, o e-mail, a mim, serviu-me para alguma coisa: para me recordar que há um poeta a descobrir, de seu nome Jorge Luis Borges. No passado dia 14 de Junho, completaram-se 25 anos desde o seu falecimento em Genève. Aqui deixo alguns poemas:

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Citação, 8



A Companhia de Seguros Tranquilidade proibiu à última hora uma exposição no seu Espaço de Arte quando descobriu que ela tinha temática homossexual. Fez bem, sou cliente da Tranquilidade e sinto-me mais tranquilo. Antes não me sentia pois, ao preencher a papelada, verifiquei com estranheza e preocupação que a Tranquilidade não me perguntava se eu não seria, por acaso, gay. Ora tanto eu, segurado, como a pessoa segura poderíamos bem ser "bichas" e isso afrontaria aquilo que a Tranquilidade chama de "valores da empresa", secção vida íntima alheia.

A decisão de proibição (ou "cancelamento", que é palavra menos feia) da exposição "P-town", resultado de uma residência dos artistas João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira na cidade norte-americana de Provincetown, esclareceu finalmente as minhas dúvidas sobre a masculinidade dos "valores" da Tranquilidade. (Diga-se "en passant" que o Acordo Ortográfico perdeu uma boa oportunidade para pôr os pontos nos ii e mudar o género da palavra "masculinidade", já que o facto de ser do género feminino pode gerar equívocos em espíritos fracos).

É bom saber que, na "coutada do macho ibérico", há uma empresa que se mantém fiel aos viris valores ancestrais e tem a coragem de, como nos saudosos anos 40 na Alemanha e na URSS, "cancelar" a "arte degenerada".

Porque não se dedicam os artistas a pintar pores-do-sol e retratos dos 'stakeholders' do Grupo Espírito Santo?

Manuel António Pina, JN, crónica Arte Degenerada.

A minha Vida numa Imagem, 2

Skrik, O Grito, Edvard Munch
Skrik - Edvard Munch

Skrik, obra de 1893 do pintor norueguês Edvard Munch. Skrik é a palavra norueguesa para gritar. Daí ser esta obra conhecida por «O Grito». No entanto, prefiro outra das possíveis traduções para a palavra: Chorar. Penso que está mais de acordo com a dor, o grito, o desespero, e a depressão que atravessam o quadro. O contraste entre cores quentes e cores frias dá a dimensão da quebra, do estilhaço; as linhas ondulantes dão a dimensão da perda, da alienação; os traços descaracterizados do personagem em primeiro plano dão a dimensão do desespero, da angústia - alguém que perdeu a própria identidade, e se encontra absolutamente perdido -, as personagens (ou figuras) difusas que se encontram em segundo plano dão a dimensão da indiferença. E tudo isto acontece no cenário tranquilo de um pôr-do-sol na doca de Oslofjord.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A minha Vida numa Imagem

Ascending and Descending, M. C. Escher, Ascendente e Descendente
Ascending and Descending - M. C. Escher

Neste desenho de Maurits Cornelis Escher, Ascending and Descending, de 1960, deparamos-nos com uma escada onde tanto se pode subir como descer. Se seguirmos os passos dos monges, chegamos à conclusão que cada um deles sobe (ou desce) sempre um degrau. No entanto, após uma volta, cada monge regressa sempre ao lugar de onde partiu. Embora andem sempre - o que poderá ser entendido como uma certa liberdade - os monges estão presos pelo seu movimento - por mais que andem, voltarão sempre ao mesmo lugar. No entanto, continuam sempre, iludidos pela ideia de que estão a subir ou a descer, iludidos pela ideia de que chegarão a algum lugar. 
De fora do círculo vicioso descrito estão dois monges, ao contrário dos outros, parados. Um parece observá-los - como se tentasse compreendê-los. O outro está sentado nas escadas, indiferente ao que se passa, como que conformado. À espera.

domingo, 21 de agosto de 2011

Alexandre O'Neill deixou de estar aqui há 25 anos


Há 25 anos que deixou de estar aqui quem falou. E Alexandre O'Neill (1924-1986) falou sempre o que quis e como quis. Agora que a cultura foi abandonada à sua (pouca? falta de?) sorte, não se vê por aí qualquer homenagem a este grande Poeta português - talvez seja melhor assim: antes assim que vê-los, a esses algozes da cultura, esses abutres dos votos, caçadores de minutos de fama na fama alheia, a rondar quais hienas. Como forma de homenagem deixo aqui quatro poemas. Podem também ler o poema Amigo aqui e o poema Há palavras que nos beijam aqui.


Redacção

Uma senhora pediu-me
um poema de amor.

Não de amor por ela,
mas «de amor, de amor».

À parte aquelas
trivialidades «minha rosa, lua do meu céu interior»
que podia eu dizer
para ela, a não destinatária,
que não fosse por ela?

Sem objecto, o poema
é uma redacção
dos 100 Modelos
de Cartas de Amor.

sábado, 20 de agosto de 2011

ASSÍRIO & ALVIM


Ora aqui está uma má, uma péssima, notícia: Assírio & Alvim e Grupo Porto Editora estabelecem acordo de parceria. Podem chamar-lhe parceria, acordo, protocolo, estratégico ou outra coisa qualquer, podem chamar-lhe o que quiserem. A verdade é que a Assírio & Alvim era uma editora boa demais para o panorama económico e cultural mundial, quanto mais para o português! Segundo os termos revelados no acordo!, dizem eles, a parceria passa também pela edição, mas com independência editorial da Assírio & Alvim... Não é uma questão de acreditar ou não, é uma questão de tristeza. Isto é triste, mas ao vil metal nada resiste. Uma notícia funesta. É a economia, estúpido! É a economia... É a economia que tudo destrói, tudo arrasa, tudo mata, tudo leva consigo... É a economia que por fim há-de acabar com tudo, e se há-de matar a si mesma. Raios partam a vida e quem lá ande! Eu já devia saber há muito que tudo isto, ou isto tudo, é um soneto já antigo...

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Revolutionary Road - de Richard Yates


O que a Revista Sábado tem de bom são os livros que se vendem em conjunto, por preços acessíveis. Quando se consegue comprar só o livro, junta-se o útil ao agradável, porque de resto é uma revista para folhear tal como as outras, ainda que os temas de capa sejam frequentemente interessantes até serem lidos. Assim, sempre que a revista sai para as bancas acompanhada, e que me apercebo, compro o conjunto. Embora ao fim de três ou quatro números seguidos tenda a perguntar se vendem o livro em separado. Deste modo tenho para ali uma estante só com livros desta colecção - não são mais porque nem sempre me apercebo que a revista vem acompanhada, e porque muitos dos títulos que são publicados já os tenho; ainda assim, por vezes compro na mesma, para oferecer. 

Foi assim que me chegou o romance Revolutionary Road, de Richard Yates às estantes, e por lá ficou à espera da sua vez para ser lido. Pelos vistos houve uma adaptação cinematográfica recente, com Leonardo di Caprio e Kate Winslet, realizada por Samuel Mendes

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O filho de mil homens - de Valter Hugo Mãe



Nas livrarias em Setembro, o novo livro de Valter Hugo Mãe - agora em Maiúsculas - O filho de mil homens. Que, em rigor, para respeitar a regra das Maiúsculas, para os títulos, deveria ser: O Filho de Mil Homens. De acordo com fonte segura - o vídeo publicado por valer hugo mãe, no seu blog - conta a história de Crisóstomo que, chegado aos 40 anos, assume a tristeza por não ter tido um filho. Tal como o próprio autor. Todos os livros são auto-biográficos? Depende se a pergunta for feita no âmbito da Teoria da Literatura ou no âmbito da Psicanálise. Crisóstomo encontra Isaura. Quem quiser saber mais, vá a uma livraria a partir de Setembro.

Este País não é para _______*



Desacordo, por Leonor Barros. Sim, estamos de acordo. É triste...

Este País não é para Pobres, é uma hipótese para o título, post do blog Ladrões de Bicicletas. Pois não, este País não é para Pobres: Os espelhos, no blog Miss Pearls.

36 Euros de Pensão, no blog Da Literatura. Nem todos têm cartão de militante...

CGD com os salários mais baixos da banca em Portugal - Levante o dedo quem quiser um destes salários baixos! Parvos... salários desses não são para a Classe Média...

Atestado de Pobreza, no blog A Terceira Noite. O que eu gostava de ver os senhores deste País que brincam aos políticos e aos gestores declamar poeticamente o verso de Francisco Sá de Miranda...

Uma faúlha pode incendiar a pradaria, por Tomás Vasques. Se disser «Que incendeie!» posso ser constituído arguido por apelo à piromania!? 




*Podem completar o título do post a vosso gosto; há muitas hipóteses à escolha - também não é difícil é acertar em hipóteses erradas. Mas se for esse o caso, tomemos a coisa por irónica...

páginas dispersas de um diário, 4


Aqui estou, estendido sobre o tálamo triste da minha rija existência, sem almofada que aplaque a minha dor. Cheguei enfim a um ponto em que não desejo mais que a vida - não desejaria mais, ainda que pudesse.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Crítica Literária

Ora, na realidade, o mundo tem venerado exageradamente os críticos, imaginando-os homens de muito maior profundidade do que realmente são. Esta complacência inspirou aos críticos a audácia de assumir um poder ditatorial, e de tal modo foram bem sucedidos, que se tornaram agora os senhores e se atrevem a dar aos autores como suas as leis que originariamente receberam dos predecessores desses mesmos autores.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

London Riots - Citação, 7



«I think this is about sheer criminality.

»That is what we have seen on the streets. The violence we've seen, the looting we've seen, the thuggery we've seen - this is sheer criminality, and let's make no bones about it.

»That's why I say that these people will be brought to justice, they will be made to face the consequences of their actions and I call on all members of local communities to work with the police constructively to help the police to bring these criminals to justice.

»Once again, I would like to pay tribute to the bravery of the police officers who put themselves in harm's way to protect the public, their property and local businesses.»

Theresa May - Julga que isto não passa de pura criminalidade.

Em dias como este em que eu sinto uma nostalgia eterna



A M.J.L.P.


As pessoas que amei morreram é um facto
As pessoas que amei já não estão vivas
Só para os necrófilos que insistem em mantê-las vivas onde têm tudo morto
Mas isso não me importa nem ninguém me importa
Porque o resto do mundo são apenas transeuntes
Ocasionalmente cruzando-se comigo por se cruzarem
Como ocasionalmente chove ou ocasionalmente neva
Ou ocasionalmente cai um avião em qualquer parte do mundo
Ou quem sabe voa em direcção ao infinito
Mas isso não me importa nem nada me importa
Porque o que sobra em mim são apenas pessoas
Ocasionalmente mortas por ocasionalmente terem morrido
Como os mortos aos montes ou os mortos aos pontapés
Que na minha alma vazia espaço dos meus amantes
Seres etéreos seres efémeros deixaram vaga

Por isso em dias como este ando distraído
Cruzando-me comigo por acaso me cruzar
E só depois reparando que comigo me cruzei
Quando já vou longe e se me chamo já não me posso ouvir

Isto porque vou a cismar no corpo de um amigo que ali jaze
Um pouco à frente do lugar onde jaze o corpo de uma amiga
E só paro para me chamar quando chego ao lugar onde eu ia a enterrar
Se tivesse reparado em mim a tempo de me poder chamar

Agora já não há nada a fazer
Já não há nada apenas o resto de o ter havido
A sombra de um pecado que não foi cometido

domingo, 7 de agosto de 2011

Chamada para o 112 do Grupo Parlamentar do PSD






A chamada telefónica do Grupo Parlamentar do PSD para o 112 é ridícula. Mas mais ridículas são as acusações de uns e a justificações de outros. O ridículo deve sê-lo sozinho. Quando o ridículo não o é sozinho, corre-se o risco de ser tomado o ridículo a sério, e o que é sério cair no ridículo.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Embora o instante de um milagre seja como um relâmpago sem fim*


I - Instante
Não. Não esqueças nunca
que num único momento
a vida, a morte, o amor
começa. Uma lembrança
que fica para sempre.
Os amigos que ficaram,
os que partiram, o amor
que esperámos. A saudade,
aquele dia que lembramos,
ainda. Quando chega o sono
E adormecemos nos braços
que ainda sentimos quando
pensamos naquele instante.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Romeu e Julieta - livros que nunca devia ter lido, 5

Romeu e Julieta, William Shakespeare
(5) Romeu e Julieta, de William Shakespeare. Foi numa edição bilingue, da colecção de livros de bolso da editora Publicações Europa-América, que li um dos títulos mais conhecidos da Literatura. É um livro com letra grande - já referi que gosto de livros com letra grande, mas nunca é demais referi-lo. Todos os livros deviam ser publicados com letra grande, e com o texto original e a tradução. Parecia um livro perfeito. Porém, o meu exemplar teve o digníssimo azar de trazer folhas em branco! Folhas em branco! Foi a partir do dia em que comprei Romeu e Julieta que passei a folhear todos os exemplares de livros que compro! Fiquei tão frustrado que foi por pouco que escapou das chamas da fogueira que crepitava quando iniciei a leitura. Mas eu gosto muito de livros. E como as folhas em branco só apareciam na parte do texto original, a desgraça não foi assim tão grande. Pois: sou um grande comodista - prefiro ler traduções.

Romeu e Julieta não é apenas uma tragédia, é um sinónimo de «amantes». Ou era, porque a palavra «amantes» pressupunha o desafio, o segredo, a proibição, a ilicitude, os encontros secretos, eivados pela possibilidade de desonra, de ser descoberto, de perder o estatuto, e cair em desgraça. Agora tudo é dado. E o Amor perdeu aquela graça. Os encontros já não têm a mesma importância. Dito de outra maneira: os efeito das feromonas já não são potenciados.

O que tem esta obra de especial - para além da genialidade com que William Shakespeare manejava as palavras, trazendo para a luz da consciência aquilo que vive oculto nos lugares sombrios da mente humana? Provavelmente nada. Digo provavelmente nada, porque a história já existia. William Shakespeare pegou no enredo dela e, juntando-lhe os pozinhos mágicos da sua pena, escreveu uma história de amor que é um arquétipo de todas as histórias de amor. Hoje em dia seria processado por plágio. E talvez ainda não tivéssemos esta consciência aguda, que fere como um punhal que nos espetam no coração, que todas as grandes histórias de amor acabam. Porque todas aquelas que não acabam, se dissipam no esquecimento e no facilitismo da fórmula encantada: «E viveram felizes para sempre».