quinta-feira, 30 de junho de 2011

Os Jogadores de Xadrez - Poema de Ricardo Reis



O conflito social e político que se vive na Europa, em que as diferentes posições, e consequentes decisões económico-financeiras, representam as partes em embate, fez-me recordar o poema de Ricardo Reis, abaixo transcrito. Enquanto nas ruas, os conflitos, as manifestações, o desespero alastra, nas esferas do Poder, políticos e grupos económicos, quais jogadores de xadrez, continuam indiferentes o seu jogo.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

o fim da Europa, o fim de um sonho



Citação, 2



em portugal, são em maior número aqueles que escrevem poesia do que aqueles que a lêem. a escassez das publicações e a depauperação do número das tiragens de poesia reflectem isso mesmo. se exceptuarmos os contextos escolares, rareiam os leitores de poesia na mesma proporção em que esta é tida como particularmente apta para, enquanto linguagem, ser lugar de expressão da subjectividade individual.

(...) do post os autores, no blog contra mundum.

Poetas, que tal começarem a comprar uns livrinhos para ajudar a causa!? E será só a Poesia? E o Drama? E o Romance? E as Crónicas? E os Ensaios? Mas ainda há Leitores que saibam o que estão a ler? É que o que grassa por aí são pessoas que sabem juntar letras, sílabas, palavras, frases, parágrafos; que sabem ler a forma, mas, e o conteúdo?!

terça-feira, 28 de junho de 2011

Pedro I - de Manuel Poppe



João - Foi mais a felicidade, meu Rei! Amaram-no tanto!

Pedro entende a paixão do outro - Meu João! Talvez, talvez... (fita-o) Sabes? Às vezes, quando não somos normais...

João - Quando não somos normais?

Pedro - Sim. Vemos e sentimos muitas coisas que não devíamos nem ver, nem sentir. Passamos para o outro lado do espelho.

João - Do espelho?

Pedro - O espelho é a verdade dos normais. (aponta os fidalgos, os eclesiásticos, o físico, etc., que se iluminam, imóveis) Não os vês? Normais, equilibrados, prudentes. Não vês como se aquecem uns aos outros? Bispos, fidalgos, físicos, sábios... Os senhores do mundo!

João observa-os como se os visse pela primeira vez.

João - Estão gelados!

Pedro - Porque não lhes arde nada dentro.

João - Estão mortos!

Pedro, sarcástico - Os senhores do mundo!

é permitido fumar neste poema



É permitido fumar neste poema
Pedir ou oferecer palavras
Acendê-las ou apagá-las
Atirar com elas para o chão
Perfumar a atmosfera
Com o seu cheiro. Esquecê-las
Sobre uma mesa, uma parede
Um pedaço de papel amachucado.
Ávidos, chupá-las, expirá-las,
Inspirá-las, sugá-las, expirá-las
Para o ar poluído da terra.
Podem fumá-las à vontade,
Não matam nem causam impotência.
Podem prender ou libertar,
Ferir ou curar. As palavras
Belas para uns, para outros feias
Ou apenas inúteis, as palavras
Não salvam os inocentes,
Não libertam dos carcereiros,
Nem acabam com os tiranos.
Tudo podem e nada conseguem,
Como um cigarro, acalmam.
Iluminam um instante, ficam
Como um fio de fumo cinzento
Na memória. E desvanecem-se.


A uns incomodam, fazem falta
A outros. Podem fumar à vontade
Neste poema. Não há ar puro
Na atmosfera onde se alimentam
As árvores de onde vieram
As fibras deste papel. Aqui,
Como numa velha tabuleta
Abandonada, está escrita
Uma velha e inútil indicação


É permitido fumar sozinho,
Aos pares ou em lúbricas orgias,
Homens com mulheres, mulheres
Com mulheres, homens com homens,
Ou outras possíveis combinações,
Livres e de comum acordo.
Às palavras não se colocam restrições,
É permitido beijá-las em público,
Aqui nenhum amor é impudico,
Os amantes podem expressar
O amor sem se envergonhar.


Poema e Imagem: André Benjamim.

Perdoem-me o facto de publicar novamente este poema, mas gosto muito dele...

sábado, 25 de junho de 2011

páginas dispersas de um diário, 1




Autonomia. Liberdade. Tudo conceitos. Demasiado vagos. Demasiado concretos. Não depender de Nada, nem de Ninguém. Ter só um livro para ler, e não o fazer. Como tu dizias, meu querido Fernando. O que é isto a que chamam Vida? Ter uma estante inteira, só para ti, que não quiseste ser célebre. Que plebeísmo! Como podem trair-te tanto, trair tanto a tua vontade, aqueles que te amam? Sabes, tu circulas nas minhas veias, no meu ser, desde aquelas longas tardes de tédio, em que te encontrei nas páginas de um livro que tinha para ler. E depois outro. E outro. E outro. E outro. E outro. E tu, no fim, onde estavas? Ah!, tu atingiste o mais elevado que pode o Homem - falta-me a palavra - almejar: o mito!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Todos os sonhos são, serão/ Sonhos que tivemos*

Sonhos, Nuvens, Horizonte, Dreams


Queria ter uma quinta isolada com um riacho ao fundo... onde pudesse ter os meus livros, uma máquina de escrever, um cão e um sótão... um perdigueiro... e a sombra de um salgueiro... um pôr-do-sol arroxeado... uma brisa estival... um pintassilgo e um pardal... e um horizonte prateado... gostava de não ter nascido, embora a ideia de morrer me assuste... gostava de ter resposta para duas ou três perguntas simples... aqueles porquês amargos que vamos coleccionando... ou talvez seja eu que não tenha coragem para fazer as perguntas certas... não acredito na hipótese de voltar a amar... "Todos os amores são a sombra daquele que nos alvoroça como um fantasma"... se alguém pensar que consegue fazer-me acreditar no contrário!... tenho duas pulseiras, uma de prata, outra com pedras (violetas, pretas e verdes)... disseram-me que eram um pouco amaricadas... "Ainda bem! É sinal que gostas, mas és cobarde demais para admitir!"... gosto de vestir roupas com cores fortes (vermelho, verde, laranja, violeta)... há mais de dois anos que não uso os meus quatro brincos... gostava de fazer um piercing e uma tatuagem... com a imagem de um anjo a masturbar-se, enquanto segura um crucifixo, sentado na Bíblia... tento sempre cumprir as promessas que faço, desde as mais simples às mais difíceis... tento... a coisa que mais odeio na vida é o facto de não poder ter por perto todas as pessoas de quem gosto... sou incapaz de dizer a alguém que tenho saudades... detesto pedir desculpas... e também não gosto que me peçam desculpas... não sei qual das duas situações é mais confrangedora para mim... sou disléxico, as pessoas nem imaginam o que me custa escrever certas palavras!... não sei o que são asneiras, para mim são interjeições!... o que mais me cativa nas pessoas é o sorriso e o modo de olhar... gosto mais das pessoas bonitas e tristes que das pessoas feias e alegres... tenho pena que a maioria das pessoas não entenda o non-sense... costumo pensar "coitada, nunca leu a Alice nem os livros do Boris Vian nem nada que valha a pena!"... é impossível (já desisti) ironizar com os portugueses, levam tudo à letra... ando sempre com um poema na cabeça... já soube o poema "Guardador de Rebanhos" de cor... ainda sei a primeira estrofe... gostava de ler todos os livros de Luiz Pacheco, mas tenho receio que depois desate a plagiá-los... por isso ainda não comprei nenhum... o whisky é a única bebida capaz de anestesiar as minhas dores do espírito... ou de afogar as mágoas, como diz um amigo de infância... gosto de cozinhar, mas detesto lavar e arrumar a louça... prefiro a comida um pouco insonsa e pouco doce... junto noz moscada a todos os temperos... às vezes fico angustiado quando estou a ler, porque penso que nunca conseguirei ler todos os livros que queria... detesto a barba... em vez de me cair o cabelo, devia cair-me a barba... tenho insónias... por causa disso, ando quase sempre mal disposto... ou talvez seja o contrário... eu sei que é um sintoma de um outro problema, mas não gosto de pensar nisso... porque não há nada a fazer, e quando não se pode fazer nada, tem que se aguentar... sou feio e infeliz... um mal nunca vem só!... e não me venham com falinhas mansas... que a beleza está por dentro!... O tanas é que está!... por dentro estão as entranhas... sou alérgico aos pólens de algumas árvores e à alegria... a alegria causa-me depressão... os pólens provocam-me comichão... e o acordo ortográfico irritação!... gosto muito de enchidos... e de reticências... dizem que são indefinição, indecisão... são uma ideia que fica no ar... a vaguear... algumas pessoas dizem-me que poderia ter ido muito longe... longe é muito distante!... sim!, se tivesse um alpendre, largo sobre o horizonte! 



*Versos deste poema.

Texto corrigido e alterado. Original aqui.

Citação


Quando era criança tinha o hábito de ser criança. É provável que lesse. Porém, ao olhar para trás lembro-me melhor dos mergulhos no rio, dos cigarros com barba de milho, das aventuras pela serra a apanhar rosmaninho para as fogueiras de Santo António. Seja como for, tenho uma teoria: uma pessoa deixa de ser criança quando começa a ler, aconteça isso aos cinco, seis, sete, oito anos…

Ao ler este parágrafo, que faz parte da resposta do Henrique Manuel Bento Fialho a um questionário (aqui), senti um arrepio. Literalmente senti um arrepio. Até hoje tinha uma teoria; que uma pessoa deixa de ser criança quando pela primeira vez lhe entra a morte na alma*. Hoje questionei a minha teoria, e já não tenho tantas certezas.


Quadro: Readind Boy, de Eastman Johnson.

*Na falta de melhor palavra.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Se te comparo a um dia de verão - soneto de William Shakespeare



Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Ás vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.


Poema: William Shakespeare.

Quadros de Edward Henry Potthast.

domingo, 19 de junho de 2011

livros que nunca devia ter lido, 2 - O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry

O Principezinho, O pequeno Principe, Le Petit Prince, Antoine de Saint-Exupéry
(2) - O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry. Ou neste caso particular, lido, relido, voltado a ler, uma, duas, três vezes, e outra e mais outra vez, não sei quantas vezes. Foi o livro que mais vezes li. É impossível saber quantas vezes o fiz. Recordo-me de não o ter lido apenas quando no programa curricular era suposto que o tivesse lido. Nunca li um livro, nem nenhum autor, do programa curricular quando tinha que o ler. A obrigação de ler sempre me tirou o prazer de ler. Em todas as outras oportunidades o li. E durante um par de anos li-o em exemplares diversos, que me eram emprestados por diferentes pessoas, antes de ter o meu exemplar.

É também o livro que mais vezes ofereci. De maneira que não sei se foram mais as vezes que o li, ou mais as vezes que o ofereci. E da mesma forma que cheguei a relê-lo duas e três vezes consecutivas, também aconteceu oferecê-lo a duas e três pessoas ao mesmo tempo. Foi por isso que só anos depois de o ter lido pela primeira vez me aconteceu ter um exemplar para mim: e desta vez foi-me oferecido. Foi-me oferecido por um amigo como forma de mostrar gratidão pelas dezenas de livros que lhe emprestei para ler. É assim o meu exemplar: um livro gasto, velho, rabiscado, pintado, sublinhado, manchado. Não sei por quantas mãos, porque não sei por quantas mãos passou antes de chegar a mim. Sei que chegou com gratidão e amizade. Sei que quando chegou vinha para ficar para sempre, ao contrário d' O Principezinho, que há-de sempre partir, por mais vezes que o leia, e por mais vezes que enquanto o leia deseje que ele decida ficar, não sei porque milagre.

sábado, 18 de junho de 2011

Aprendamos, amor, com estes montes - Poema de José Saramago



Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.


Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito. 


quarta-feira, 15 de junho de 2011

livros que nunca devia ter lido, 1 - Fome, de Knut Hamsun

Fome, Knut Hamsun, Cavalo de Ferro, Paul Auster
Fome, de Knut Hamsun
Prémio Nobel de Literatura 1920
(1) Fome, de Knut Hamsun. O meu exemplar é de uma edição brasileira, com tradução do poeta Carlos Drummond de Andrade. Capa dura, castanha, a imitar pele. É um excelente livro, que não haja dúvida. Embora o papel já esteja um pouco amarelecido - foi comprado em segunda-mão, num alfarrabista - é suave ao toque, e à visão: nem demasiado leve e fino, nem demasiado pesado e grosso. E a letra tem o tamanho ideal: nem demasiado pequena, daquela que fere os olhos, nem demasiado grande, daquela para fazer páginas. Capa dura, não demasiado pesada, pelo que pode ser lido em pé, sem que com isso se cansem muito os braços. Apelativo à vista, fica bem em qualquer estante. Ideal, como tal, para quem queira dar um ar culto, de intelectual. Especialmente se for de esquerda. Fica sempre no ar uma fragrância a ecleticismo, a presença de um nobel de direita na estante de um intelectual de esquerda. O contrário, perdoem-me, mas é o que mais se vê, razão pela qual deve ser evitado: é demasiado vulgar. Do género do capitalista com tiques de mecenas ou, pior, com tiques de amante da cultura. Ou do aristocrata com memórias de juventude rebelde. Enfim, um bom livro, um óptimo romance. Se possível, não deve ser lido. Provoca náuseas, dores d'alma, e outros efeitos secundários que só o tempo permitirá, em cada caso, descortinar.

terça-feira, 14 de junho de 2011

É urgente o amor - poema de Eugénio de Andrade


É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.


É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.


É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.


Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Poema de Eugénio de Andrade

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fernando Pessoa - 123.º Aniversário



No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Poema: Aniversário (15/10/1929), de Álvaro de Campos.

Fernando António Nogueira Pessoa, nasceu a 13 de Junho de 1888, em Lisboa. Há quem diga que tenha morrido a 30 de Novembro de 1935. Mas ele ainda vive, e viverá.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

o tocador de flauta


chegavas e partias como um ténue sonho
um aroma uma brisa uma palavra alada
dizias palavras delicadas imperceptíveis
notas murmuradas como se contivessem
segredos bem guardados envergonhados
escondidos na algibeira vazia rasgada
onde guardavas a flauta e partias

ias e vinhas como as notas da tua flauta
tocando com ternura e delicadeza a melodia
com que me aconchegavas nas noites frias
soprando segredos que escorriam suaves
pelo meu rosto como gotas de orvalho
até que um dia não voltaste e aquela melodia
tornou-se numa memória triste que persiste

ias e vinhas até que um dia partiste
guardando para sempre a velha flauta
na algibeira vazia, apertaste o sobretudo
e partiste indiferente ao meu pedido:

toca uma vez mais aquela melodia triste

da flauta saíam notas aladas que depois de tocadas
voltavam à pauta como se fossem segredos
eram palavras delicadas que eram murmuradas
enquanto trauteavas a tua melodia ao meu ouvido 


Imagem: Marcel Caram

ao desconcerto do mundo - poema de Luiz Vaz de Camões



Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.


Poema de Luiz Vaz de Camões, Poeta Português que terá vivido os seus últimos dias triste, pobre, e angustiado, libertando-se deste malfadado pedaço de terra a 10 de Junho de 1580. 

Onde quer que estejas, Luiz, o País continua o mesmo: tu Grande, ele Pequeno. Tu vives nos versos que nos deixaste; ele morre no verso da Glória que um dia cantaste. 

quinta-feira, 9 de junho de 2011

a cama vazia



às vezes, acordo sobressaltado
sempre com a mesma inquietação
sonho que partiste, angustiado
acordo quando o tu me olhas
pela última vez, um olhar
inexpressivo, uma expressão
que nada me diz, nada transmite
o teu silêncio, o teu olhar absorto,
a pacatez em volta do teu rosto
fazem tremer o meu coração,
o meu corpo ergue-se, corre
ao teu encontro. Um impulso
ávido, bate contra o meu peito
para te agarrar. Estico a mão,
tacteio. O leito está, sempre,
vazio. Respiro profundamente.
Não sei, nunca, se partiste
ou se nunca lá estiveste...


Imagem de Lady Jayde.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

da felicidade, 2

Agora é um mistério para mim, mas naquele momento sentia que estava certo, que nunca estivera tão certo. E ao mesmo tempo estava aborrecido. Não te conhecia. Porque haveria de ceder aos teus desejos? Sabes – vais chamar-me mentiroso – não te conhecia, porque havia de te aturar? Porém ao mesmo tempo tinha – custa-me pronunciar esta palavra – tinha pena de ti. Tinha pena… Não sei! Não sei se era pena. Pena é um sentimento desculpabilizador com que as pessoas lavam a consciência de assuntos com que não querem lidar. Pena é o sentimento que usamos para dizer a nós mesmos que não temos nada a ver com aquilo com que não conseguimos lidar. Se fosse pena, pena assim, ter-te-ia dado uma desculpa e tinha ido embora. Mas não fui. O que eras então para mim, naquele segundo criador? Não sei! Também não importa! Não importa, porque nada importa! Porque nada têm importância! Porque a importância só o é relativamente ao valor subjectivo que lhe atribuímos. E porque havemos de dar um nome a todos os sentimentos que nos aparecem na alma? Perdemos demasiado tempo a pensar naquilo que sentimos, e depois não nos sobra tempo para sentir. Tu sorrias. Tinhas um sorriso cândido – e belo. Um sorriso que explodia na tua face redonda, e me tocou, agarrou, feriu e prendeu. Mas detrás do teu sorriso espreitava a tristeza, a solidão, talvez. E enquanto sorrias parecia que ficavas ausente, e voltavas, e de repente. – Eu sou de Lamego! Conheces? Já ouviste falar? – Por entre o teu ímpeto mergulhei algumas palavras, todas para dizer apenas que sim. – É uma terra bonita! Um dia hás-de conhecer! (Desculpa estar para aqui a corrigir o Português, que importa que não tenha sido assim, com tamanha correcção ortográfica que tenhas pronunciado as palavras? Isso fica aqui apenas entre nós.) E o tempo passava, o pátio já estava deserto, só nós dois, esquecidos do mundo em redor, conversando encostados a um pilar. Subiste para o lancil. – Sou quase da tua altura! – Assim é batota! – Protestei. Desceste. A tua cabeça rapada chegava-me à altura do ombro. – Tens muitos amigos? – Mudavas tão depressa de assunto! Como um lobinho que vai pelo meio do mato a saltitar! Os lobos não saltitam? As raposas sim? Não sei, não conheço nenhum lobo! E raposinhas só conheço uma, mas não saltitava pelo meio do mato, saltava pocinhas, a matreira! – Deves ter! Pareces bem simpático! Eu ainda não tenho amigos! Sou novo aqui! Queres ser meu amigo? – Ao que me obrigas! Ainda o ponto de exclamação não tinha caído em desgraça! Ainda vivíamos numa época de afirmação, de breves ou longas exclamações, em que tudo era possível!
Tocou a campainha. Eram onze e vinte, estava a chegar a hora da missa. – Esperas por mim – pediste, perguntaste, ou exigiste? A tua maneira de falar, às vezes tão clara, era por vezes tão dúbia.


Imagem: quadro de J.L. Fleckenstein, retirado daqui.

O Andaime - Poema de Fernando Pessoa



O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anônimo e frio,
A vida vivida em vão.

A ‘sp’rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha ‘s’prança,
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam — verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças —
Mortas, porque hão de morrer.

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim —
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser — muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.



Poema de Fernando Pessoa

Feira Jovens Criadores - Guarda


terça-feira, 7 de junho de 2011

da felicidade, 1

"Tenho todas as condições para ser feliz, salvo a felicidade. As condições estão desligadas umas das outras"


Barão de Teive, in A Educação do Estóico.



Homem e Maça, René Magritte

Estávamos sentados, respirando em grandes golfadas, o ar perfumado do fim de manhã. Porque vieste sentar-te entre nós? Está tudo bem? – Perguntas. Era para o meu amigo que falavas, que a mim não me conhecias. Ou falavas para ambos? Ou era já só para mim?

Quem era este nosso amigo comum? Como é que ele se chamava? Se lhe desse um nome agora, o seu, aquele que tinha na vida real, que consta no registo civil, aquele que o bilhete de identidade exibia, ou outro, aquele que teria agora, real também, por passar a ser o seu, que diferença faria, o que mudaria? Os nomes, das pessoas, das personagens, ou das coisas, servem apenas para ajudar a distinguir e identificar àqueles que não têm disponibilidade para contemplar a verdade íntima de cada ser ou objecto. São apenas uma desculpa para maus caracterizadores escreverem romances. Bem vês, não deveria estar a escrever esta história, a nossa história, que foi minha e tua, dos dois, até ser apenas memória que a minha memória tenta desesperadamente passar para o papel para que não se desvaneça. Mas já não nos pertence. É tão pouco nossa como o era naquela manhã em que ainda podíamos escrevê-la como quiséssemos, em que éramos inteiros e livres.

aquilo que os sonhos

Sonhos, Dreams


Aquilo que os sonhos são
A vida dá, tira ou dispõe.
A alegria que os sonhos dão
A vida traz, leva ou repõe.
Nada está certo - ou errado,
O mal não é termos acreditado.
Não soubemos o que tínhamos,
O que abandonávamos - quanto
perdíamos.


Todos os sonhos são, serão
Sonhos que tivemos. Sonhados
Outra vez, sempre a mesma vez.
Uma corda mágica que vibra
Dentro do ser, que lhe dá vida
Até que, quebrada, se desfaz.
Agora os sonhos são, serão
Sonhos que tivemos, lembranças
De outros sonhos. Recordações
Felizes, talvez...


Este é um de vários rascunhos, publicados aqui: #1, #2, #3, #4, #5, #6, #7, #8, #9, #10, #11, #12, #13, #14, #15, #16, #17, #18, #19, #20, #21, #22, #23, #24, #25, #26, #27, #28, #29, #30, #31, #32, #33, #34, #35, #36, #37, #38, #39, #40, #41, #42, #43, #44, #45, #46, #47, #48, #49, #50, #51, #52, #53, #54, #55, #56, #57, #58, #59, #60, #61, #62, #63, #64, #65, #66, #67, #68, #69, #70, #71, #72#73, #74, #75, #76, #77, #78, #79, #80, #81#82, #83... Ando a pensar em passá-los a limpo, ou corrigi-los, ou reescreve-los, dar-lhe uma forma definitiva, e talvez, em conjunto com outros textos, fazer uma pequena edição de autor, numerada e autografada.

Casa Abandonada



Do nosso passado restam
algumas lembranças apenas
guardadas em caixas, baús,
e memórias há muito esquecidas.
Palavras já sem significado
como o retrato de um antepassado
desconhecido, que nos olha
da parede, na casa da província
onde, de quando em quando,
reencontramos familiares, e alguns
amigos de outros tempos,
da infância ou da juventude,
que foram ficando, sempre
com vontade de partir. Também
as memórias do nosso passado
são assim: momentos que quisemos
esquecer, mas foram ficando.
E nós, de tempos a tempos,
deparamo-nos com elas,
entristecemos alguns instantes,
pensamos nostálgicos num passado
e num futuro, que abandonámos.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Era Julho, época das ceifas

Ceifas, Coração, Trigo


Era Julho, época das ceifas
Quando os sorrisos percorrem
Alegres, os campos e cearas,
De boca em boca, e o voar
Das borboletas vai de flor em flor
Beijar as faces das ceifeiras.
Ouvia-se o seu límpido cantar
Vozes rumorejando pelo ar
O murmúrio estival do amor.
Sussurei baixinho o teu nome
Por entre o trigo e o centeio
- Ainda ouves a brisa fresca,
O lento gorgolejar da ribeira? -
E fiquei quietinho à espera,
A imaginar as tuas carícias,
O teu olhar e os teus beijos...

sábado, 4 de junho de 2011

Passos à Volta da Memória


(Cliquem na imagem para Ampliar)

Começa já na próxima semana, dia 7, a iniciativa “Passos à volta da Memória – uma visita encenada à Sé Catedral da Guarda”. A sessão inaugural é terça-feira, dia 7, às 10h30. Um actor guiará os visitantes, contando histórias e segredos sobre o monumento mais querido dos guardenses, uma das mais antigas, bonitas e imponentes catedrais de Portugal. Uma viagem no tempo e na imaginação com passagens pelo magnífico retábulo, as vigilantes gárgulas e outros recantos mais escondidos.

A iniciativa tem a concepção e coordenação geral de Américo Rodrigues, é encenada por Antónia Terrinha, seguindo o texto de Pedro Dias de Almeida (editor de Cultura da Visão) e terá a interpretação dos actores Miguel Moreira e André Amálio que, em períodos diferentes, guiarão o público por esta visita à Catedral.

A organização distribuirá aos visitantes o “Esboceto histórico-artístico da Sé Catedral da Guarda”, monografia sobre a Sé Catedral da Guarda da autoria do historiador de arte João Paulo Martins das Neves.

De referir que as visitas se realizam de 7 de Junho a 31 de Agosto, de terça a sexta-feira com sessões às 10h30 e às 16h00 e aos sábados com uma sessão às 17h30.

A inscrição para a visita encenada não é obrigatória, no entanto no caso de grupos a organização poderá ser contactada através do telefone 271 205 240 para marcação dia e hora.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

no tempo do colégio*


(Ao Marco José Lobão Paula)


No tempo do colégio, dizíamos
com crueldade, das freiras,
que caminhavam aos pares,
cabisbaixas, cochichando
que um amante as deixara
prostradas frente ao altar.

A euforia da vida latejava-nos
nos pulsos. Entrelaçada nas mãos
estava a inocência. Ainda
não tínhamos a grande dor
das desilusões, que viriam depois,
nem sabíamos das contradições da vida.

Mas isso era no tempo
em que a vida não tinha
obstáculos. Em que a existência
caminhava, inconsciente e livre.
No tempo em tínhamos
uma casa confortável
nos subúrbios, e viveríamos
felizes para sempre, como
nas histórias de encantar.

Não tínhamos, ainda, gozado
as experiências, ingénuas, do sexo
nem suportado o tédio
as noites pejadas de desejo

Tínhamos a paz, de quem se deitava
e calmamente, adormecia
para quem, entre o deitar e o erguer havia
apenas o sonho. Porém, a vida se interpôs

Não tínhamos , ainda, vivido
o primeiro amor, aquele que
ansiosamente esperámos. Aquele que
desperdiçamos. Aquele que
Para sempre, nos podia ter salvado.


*Poema de André Benjamim, publicado na Revista Cultural Praça Velha, n.º 24 (pp. 344-345)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Poesia, Saudade da Prosa - de Manuel António Pina



O Medo


Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.


É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.


Serei capaz
de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?


in "Nenhum Sítio"

EUROPA



A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.


O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,


A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.

Poema "Os Castelos", da obra «Mensagem» de Fernando Pessoa.


Li algures pela internet que hoje, dia 2 de Junho, era o dia da União Europeia. Eu que pensava que era dia 9 de Maio. Parece que esse é o Dia da Europa. Isto há dias para tudo. 

Fernando Pessoa dizia, na obra citada, que faltava cumprir-se Portugal. Aproveitando este «Dia», eu digo que falta cumprir-se a Europa. Uma Europa de Pessoas, de Cidadãos, não esta Europa fria de números.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A Indiferença - Poema de Bertolt Brecht*

Ricos e Pobres, Indiferença, Bertolt Brecht


Primeiro levaram os comunistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.

Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afectou
Porque eu não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.

Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.

Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.


*Na verdade esta é uma das muitas versões de um sermão de Martin Niemöller. E não um poema de Bertolt Brecht. Deixo o título do post assim, para que quem aqui venha à procura do poema de Bertolt Brecht fique a saber que este poema lhe é erradamente atribuído.