segunda-feira, 28 de março de 2011

Dia Mundial do Teatro


Celebrou-se ontem o Dia Mundial do Teatro. Ou melhor, assinalou-se. Todos os dias se assinalam datas destas. Mas celebrarem-se? Celebrar seria afirmar todos os dias a sua existência. E a sua importância. E quão importante é esta arte - Teatro - este "lugar para ver" - para olhar com atenção, para contemplar, e para reflectir. Este lugar para ver mais além. No tempo presente, furioso, apressado, inconsequente* - quão importante seria ir ao Teatro, ao lugar para ver, para observar, para pensar.


*Neste tempo sem vida, neste tempo de sufoco...

sábado, 19 de março de 2011

Dia do Pai*

Já era noite. Talvez sete, ou oito, ou mesmo nove horas da noite. Talvez fosse mais tarde. Na memória resta-me apenas o frio, o escuro e o último olhar. Agarrei-lhe o tecido das calças, e abracei-o pela cintura. Tocou-me na cabeça e disse que não podia ficar. Nunca fui pessoa de insistir. Mas insisti. Uma, duas ou três vezes. Talvez mais. Voltei para junto da minha mãe, e da minha tia. Ele afastou-se alguns passos. Olhou para nós, aquele último olhar que me resta na memória. Ou talvez já nem seja esse último olhar, não sei. Virou-se e caminhou lentamente, subindo a rua empedrada. Uma lágrima queria sair-me dos olhos, mas eu não deixei. Queria que ele ficasse, a minha mãe insistira. Eu também. A minha tia aconselhara-o igualmente a ficar. Ele disse que não, que não podia ficar. Já era noite. Acordei, à pressa vesti-me, empurrei os cadernos, os lápis e borrachas, os livros, a tralha para dentro da mochila vermelha. Ainda anda aí por um canto. Uma prima minha oferecera-ma. Era vermelha e branca, e no bolso de fora tinha escrito, a letras garrafais, vermelhas e maiúsculas, QUEEN. O nome da banda de Freddie Mercury, Roger Taylor, Brian May e John Deacon. Comi pão migado em leite com café. Era sempre o meu pequeno-almoço. Por nada deste mundo aceitava outro. Tinha que ser pão migado em leite com café, na minha tigela preferida. A tigela partiu-se meses, ou anos, depois. Anos depois a minha avó, que me dera aquela, deu-me outra igual. Ela não sabia, mas tinha pintado o desenho de um boneco animado de uma série alemã, ou talvez austríaca, que eu via todos os dias na televisão. A televisão era a preto-e-branco, comprada pouco tempo depois de eu ter nascido. Mas ali o boneco era a cores. O cabelo e o nariz são vermelhos, a t-shirt é amarela e as calças são verdes. Não sei se na televisão as cores do boneco eram as mesmas, mas a tigela está aqui para comprovar a minha memória. Acabei de comer, despedi-me da minha mãe e corri para a escola. Não era que tivesse muita vontade de ir para a escola; fugia do frio da rua. 

sábado, 5 de março de 2011

Amor é Amor


Pinguim, não resisti a roubar-te isto. Porque Amor é Amor. Porque o Amor se justifica a si mesmo, e quando necessita de se justificar, de se explicar, de se questionar, já não é Amor. É outra coisa qualquer, disfarçada de Amor, que precisa de se justificar, de se explicar, de se questionar, para se dizer aquilo que não é: Amor. Porque quem ama, quem verdadeiramente ama, ama apenas, não pergunta porque ama. Porque o Amor é Amor. Apenas.

quinta-feira, 3 de março de 2011

valter hugo mãe


Depois do desconcertante Manuel Poppe, o Café Desconcerto prossegue com valter hugo mãe, desta vez acompanhada a conversa por António José Dias de Almeida, e por quem se queira juntar. A entrada é livre. Podem aproveitar para tomar café, chocolate quente, ou chá - vermelho, preto, de limão. O que quiserem. Cerveja, vinho, ou whisky também estão à disposição. Poderão ainda encontrar "o nosso reino" (há quanto tempo perdido!), "a máquina de fazer espanhóis" (esperemos que não faça muitos, ou ainda teremos que chamar a Padeira), "o apocalipse dos trabalhadores" (enigmático este título... Então a única revelação dos trabalhadores não é a tomada de consciência de que estão na merda? E isso não está já revelado há muito?), "o remorso de baltazar serapião"...

quarta-feira, 2 de março de 2011

Desobediência - Poemas Escolhidos de Eduardo Pitta



Os meus amigos andam perdidos
um pouco por toda a parte.
De Lausanne ao Rio é o vasto mundo
dos desencontros, os mesmos que
de Naxos a Londres e de Manhattan ao Cabo
animam exílios vários. 


Andam em diáspora os meus amigos.
Une-os, porventura, a mesma nostalgia.


Feridas antigas hipotecadas
ao futuro.


*É mais logo, pelas 19 horas, na Livraria Leya, na Barata, que o livro Desobediência. Poemas Escolhidos, de Eduardo Pitta é lançado. Com apresentação de valter hugo mãe. Quem tiver disponibilidade, nomeadamente geográfica... O poema acima, não sei se faz partes dos escolhidos. Colhi-o do site do autor, e tenho a dizer-vos que me soube muito bem.

terça-feira, 1 de março de 2011

Anankê - Αυάγκη*




não posso ouvir
o teu nome
e saber-te distante
como a distância
de uma palavra
amo-te! serviria?
tanta ânsia
de amar-te! poderia?
e saber a possibilidade
da desilusão
tanta como
tão grande o
desespero
estou doido? seria
mais fácil, mas
é como quando passas
ao meu lado
um discurso
desfragmentado
porque me olhas?
porquê? poderei
algum dia
perguntar-te, e depois
esquecer?
como este cigarro
que acendo, e depois
apago
(ou seja, amanhã
quando acordar...)

*Destino. Elemento da tragédia grega: Hybris, Pathos, Ágon, Anankê, Peripéteia, Anagnórisis, Katástrophe, Khatarsis.