segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Hermes


Uma destas é que eu necessitava, para regressar ao essencial. Estes malvados computadores distraem mais que uma turma de crianças traquinas.

Se alguém tiver alguma por casa que não queira, eu disponho-me a adoptá-la, e a tratá-la com carinho...

sábado, 26 de fevereiro de 2011

a um amor que não ousou - poema de André Benjamim



Sei que o dia se apagou
E não voltarás. O silêncio
inundou-nos a alma!

Escutas ainda a melodia
Que nos embalava? A alma!
Notas o tom? O silêncio

Imenso que nos invadiu.
As palavras silenciadas
A voz seca, o áspero olhar.

O dia era claro, cintilante
Mas o silêncio, escutas
O silêncio que nos feriu?

É o som de uma alma
que se dividiu.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A Mulher Nua - Novela de Manuel Poppe



Não tivera coragem? Deixara-se enlear no conformismo dos outros, desistira. Porque lhe era impossível pactuar com a hipocrisia. Mas, não se levantava contra a hipocrisia. Esquivava-a. «Esquivava tudo», pensou, «a duplicidade e a sinceridade, a vida mesquinha, coberta de mentiras, e o apelo da vida verdadeira, que, se quisesse, se tivesse força para isso, podia encontrar a cada instante, na pureza do piccolo mondo».

Manuel Poppe, in. A Mulher Nua


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Manuel Poppe


Iniciou-se ontem o Ciclo dedicado a Manuel Poppe - uma inciativa conjunta do Teatro Municipal da Guarda e da Câmara Municipal da Guarda -, com o espectáculo/ oficina pedagógica “A menina do Circo”. O Ciclo continua hoje com a apresentação do livro do autor, “A Acácia Vermelha”. E, dia 23, a estreia da peça homónima, uma co-produção do Projéc~ e do Art’imagem, que conta com a encenação de Valdemar Santos. A peça ficará em cena até ao dia 26. 

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Amor e Loucura

Conta-se que um dia se encontraram, num local recôndito da terra, todos os sentimentos e características do Homem. Quando o TÉDIO bocejou pela terceira vez, a LOUCURA, tão louca como habitualmente teve uma louca ideia, e propôs: - E que tal se jogássemos às escondidas? Intrigada, a INTRIGA de imediato ergueu a sobrancelha mas, incapaz de conter-se, a CURIOSIDADE, adiantou-se e perguntou: - Escondidas?! Que jogo é esse?!



- É um jogo, explicou a loucura, em que fecho os olhos, tapo o meu rosto e começo a contar. Conto até 1000000, enquanto vocês se escondem e, quando eu tiver acabado de contar, vou à vossa procura. O primeiro que eu encontrar fica no meu lugar na vez seguinte, a não ser que algum de vós consiga chegar ao lugar onde a contagem é feita e o consiga salvar. Uma vez acaba quando todos tiverem sido descobertos ou salvos...
Assim que a LOUCURA terminou a sua explicação, o ENTUSIASMO começou a dançar com a EUFORIA, a ALEGRIA deu tantos saltos que acabou por convencer a DÚVIDA, e até a APATIA acabou por aceder, embora não estivesse nada interessada. Porém, nem todos quiseram participar. A VERDADE preferiu não se esconder, pois, como explicou, ela acaba sempre por ser descoberta. O ORGULHO disse logo que não queria, pois era um jogo tolo (no fundo o que o incomodava era que a ideia do jogo não era sua). Também a COBARDIA não quis arriscar, ficando de fora.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A Itália em 3 imagens

Valentine's Day

O BEIJO



Nos arredores da cidade ninguém notava,
Éramos apenas mais dois rostos anónimos
Correndo de mãos dadas, saltávamos
Por entre os despojos da grande metrópole,
Nome maior que a cidade lhe dávamos
Com ironia, gozávamos e ninguém reparava.

Nos arredores lamacentos da metrópole,
Os segundos, na ampulheta, tombavam
grãos de desespero, juntando horas,
sonhos efémeros, saudosas partidas
E chegadas passageiras - demoras! -
Espíritos sufocados pela mesquinhez,
Dizias, e apertavas a minha mão.
Juntas as nossas esperanças, corríamos
Pelas traseiras das casas, despojos
Ou quintais, muros cercando outros sonhos
Outras esperanças, fantasias e ânsias
Que outros, como nós, nunca largaram.
Dentro das casas os sonhos eram
Esboços apenas, de quadros que haviam
De pintar - se nas suas vidas houvera
Aquele momento que tanto aguardaram
Aquelas veredas escondidas que imaginaram
Se houvera nas suas vidas a primavera,
Aqueles caminhos misteriosos que vão
Terminar em douradas mansões,
longos serões - oh vida! - felizes Verões...
Crescemos. Os nossos sonhos eram - são! -
Vidros em queda. E a esperança um espelho
Que nada reflectia - ou apenas um velho
Sonho quebrado no duro chão da vida -
Largaram-se as nossas mãos. Perdida,
A esperança esvaiu-se entre os dedos,
Ficámos sozinhos, nós e os nossos medos...

Hoje, também nós somos habitantes
Dos arredores dos sonhos, da esperança...
Fechámos o centro dos nossos espíritos
- Comércios que abriram falência -
E fomos viver para casas mais baratas.

Agora, de quando em quando, suspiramos
Observamos o horizonte, questionamos
- Mas não queremos ouvir respostas -
Facas espetadas nos nossos corações -
O que é feito do beijo que não demos?


*Não, não gosto nada deste dia. Desejo, no entanto, a quem por aqui passa, que nunca deixe um beijo por dar. Porque como diz o Henrique Manuel Bento Fialho no poema ali abaixo «Beijar é já fazer amor.» Imagem da série A kiss a day, d' O Bom Ladrão.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Assinar a Pele - Antologia de Poesia Contemporânea sobre Gatos

A editora Assírio & Alvim propõe para o Dia dos Namorados que se ofereça um livro. Oferecer um livro é sempre uma óptima proposta, seja em que dia for, seja a propósito do que for. Na impossibilidade de oferecer aqui livros, proponho-vos para o Dia dos Namorados esta antologia de poesia contemporânea sobre gatos: Assinar a Pele, também da Assírio & Alvim. Que livro mais apropriado para o Dia dos Namorados que uma antologia, contemporânea ou não, de poesia sobre gatos? Gatos, Poesia, Amor, está tudo relacionado: tanto para as horas de alegre partilha, como para as de triste solidão. Retiro desta antologia o poema Ode ao Gato, de Pablo Neruda:


Os animais foram
inacabados,
longos de cauda, tristes
de cabeça.
pouco a pouco foram-se
formando,
tornando-se paisagem,
adquirindo sinais, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente gostaria de ter asas,
o cão é um leão confuso,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser somente gato
e todo o gato é gato
desde o bigode ao rabo,
desde pressentimento a ratazana viva,
desde a noite escura até aos seus olhos de ouro.

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa única
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
é firme e subtil como
a linha da proa de uma nave.
Seus olhos amarelos
deixaram uma única
ranhura
para lançar as moedas da noite.

Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu,
das telhas eróticas,
o vento do amor
na tempestade
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no chão,
cheirando,
desconfiando
de tudo o que é terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, gimnástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
das habitações
insígnia
de um
veludo já desaparecido,
certamente não há
enigma nesse teu modo,
não és talvez mistério,
todo o mundo te conhece e tu pertences
ao habitante menos misterioso,
talvez todos o creiam,
todos se creiam donos,
proprietários, tios,
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.

Eu não.
Eu não concordo.
Eu não conheço o gato.
Eu tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com seus extravios,
o por e o menos da matemática,
as depressões vulcânicas do mundo,
a pele irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
têm seus olhos números de ouro.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A Dança das Feridas - de Henrique Manuel Bento Fialho

A Danca das Feridas Henrique Manuel Bento Fialho
A Dança das Feridas. É um livro (referindo-me apenas ao objecto) bem simpático, este publicado pelo Henrique Manuel Bento Fialho, em edição de autor; de fazer inveja a muitas editoras. Não está à venda nas livrarias, somente poderá ser adquirido junto do seu autor, através de e-mail. «Desta edição tiraram-se cento e cinquenta exemplares únicos e irrepetíveis.» Não serei o primeiro a dizê-lo, é uma pena. Mas o autor é soberano. Assim sendo, sou - desde o dia 1 de Fevereiro de 2011 - uma das cento e cinquenta pessoas afortunadas que possuem um exemplar.
A obra, constituída por «68 poemas de amor e morte», citando as palavras do autor, «têm por mote relações amorosas sublinhadas pela história.» Como uma dança, as relações amorosas existem no seu momento; ficam na memória, ou na ferida, do instante em que existiram. Porque a música acaba e os pares terminam a sua dança. Umas vezes seguem de mão dada até que a morte os separe, outras seguem as suas vidas por caminhos distintos. Uma única certeza, a de que dançaram. Ou talvez outra, mas para essa não é necessário ter dançado...

SID VICIOUS A NANCY SPUNGEN

Beijar é já fazer amor.
Beijar na boca,
abraçar as línguas,
colar os lábios,
é já fazer amor.

Beijar não é lamber,
nem sequer cumprir.
É ouvir bem o que
do lado de dentro
da língua o coração cala.

Beijar é bater com a língua
a saliva na boca,
é fazer o nosso alimento
na boca, o alimento
colhido no corpo
e ao corpo devolvido.

And death shall have no dominion*



And Death Shall Have No Dominion

And death shall have no dominion.
Dead men naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan't crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.


*Para começar transcrevo o poema de Dylan Thomas que dá, através de um dos seus versos, título a este blog.