domingo, 18 de dezembro de 2011

Crítica Poética Fatal



Tinha uma crítica poética fatal preparada para o acidente poético fatal, de Américo Rodrigues, mas depois pedi um autógrafo ao autor, e o autógrafo arruinou a minha crítica por completo. Como vi o livro ainda ele era só cadernos acabados de dobrar, depois de imprimidos, e capa por dobrar, ia afirmar que este era um caso de badanas ao contrário: tinha badanas a mais, badanas que eram quase outra capa. Porém o autor desmanchou a minha crítica todinha, autografando o livro na badana: um acidente fatal para esta minha teoria.

chamo-me
américo rodrigues
e acabo de matar-te
como te chamas?

Tendo que inventar um crítica literária nova, assim, à pressa, a sangue-frio, vi-me de mãos a abanar. Que faço agora? Podia dizer que este livro também não tem cadernos, só tem cola: cortaram os cadernos e colaram as folhas soltas daí resultantes, em vez de as coserem. A produção fica mais barata, mas quem perde é o livro. Porém, dizer isto é estar-me a repetir, e eu gosto de ter uma teoria nova para cada livro.

o amigo da verdade
jornal católico 
local
mostrará na primeira página
a foto do poeta 
local
que se matou
cumprindo uma tradição
local

Como podem ver na imagem, testado o livro junto doutros livros, também não fica nada mal. Ando a testar os livros sempre na mesma estante, não tenho outra? Que importa isso agora, se me vi de repente sem teoria para fazer a minha crítica literária deste acidente poético fatal? É que a próxima teoria só a inventei ontem, e como tal ainda a não sei hoje, e amanhã os correios estão fechados, sabe-se lá se uma nova chegará.

em uníssono
coro
entoavam 
loas
ao líder

Para terminar cito uma das ideias referidas por Pedro Dias de Almeida na apresentação deste acidente. A poesia - toda a literatura - é não saber bem o que significa, porque a poesia é a tentativa de desenhar com palavras o território indizível - misterioso - da alma. É buscar palavras que mostrem o obscuro, o nunca explorado, o inexplicável. Não foi isto que o Pedro Dias de Almeida disse? A estas horas, sei lá o que é que o Pedro Dias de Almeida disse! Se não foi isto que disse, digo eu agora. Se foi, repito-o.


Post-Scriptum: quem quiser adquirir esta bela obra leia AQUI como proceder.

2 comentários :

  1. André:
    Muito obrigado pelo teu texto! Gostei muito.
    O livro tem "barbadanas" (badanas que são também barbatanas) e, é verdade, a cola está mal aplicada. Talvez só reste a poesia...

    Abraço e um Bom Natal!

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  2. Américo,

    Gostei muito da apresentação e da sessão de leitura, embora devido a outros compromissos já tenha chegado atrasado à primeira, e tivesse que ter saído à pressa.

    Não está mau o livro, mas se só restasse a poesia, restaria o importante!

    Como gosto muito de livros (o objecto em si, independentemente do valor do que traz dentro), tenho o meu livro ideal. É a única coisa que considero sagrada, o livro-objecto. Jamais comprarei aquelas tretas do e-book.

    Abraço e Bom Natal.

    ResponderEliminar

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