sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Rayuela, de Julio Cortázar

O livro que João Pedro Lopes nunca devia ter lido.

Rayuela, o Jogo do Mundo, Julio Cortázar

Jelly Roll estava ao piano, e à falta de melhor, marcava o compasso suavemente com o pé. Jelly Roll podia cantar Mamie's Blues balouçando-se ligeiramente, os olhos fixados num bocado de tecto falso ou numa mosca que ia e vinha nos seus olhos. Two-nineteen done took my baby away... A vida era isso, comboios que partiam e levavam os outros enquanto uma pessoa se deixava ficar na esquina com os pés molhados, a ouvir um piano mecânico e as gargalhadas a deixarem marcas nos vidros amarelentos dos salões onde nem sempre se tinha dinheiro para entrar...Two-nineteen done took my baby away...

Excerto de Rayuela, de Julio Cortázar


A minha declaração de intenções tem de ficar gravada desde o início. Para mim Julio Cortázar é de um génio literário como há poucos. Daí ter absorvido toda a sua obra como quem bebe lentamente um batido numa tarde quente de Verão, retendo o sabor de cada morango, a consistência de cada bolha da espuma e a delícia fluida de cada molécula de leite. Tendo esta relação de amor, positivamente algemado, às palavras de Cortázar, a sua obra-prima, diferente de tudo e de todos, entra a matar para o top daquilo que aqui se designa (ironicamente perfeito) como os "livros que nunca devia ter lido".

Rayuela é daqueles livros que ninguém consegue bem classificar. Se eu pudesse escrever algo na primeira página a seguir à capa, aquela primeira, sem nada, que funciona como posto de fronteira, esse Vilar Formoso dos livros, escreveria "se não quer passar a olhar para a vida de outra forma não abra este livro". Porque Rayuela marca. Rayuela define. Rayuela influencia.

A originalidade e personalidade do livro são logo marcadas desde o início pela estrutura atípica, em que o autor propõe como capítulos imprescindíveis os que medeiam do início ao fim do capítulo 56. A partir daí encontram-se os capítulos que define como prescindíveis, para os quais oferece uma tábua de leitura em relação à ordem pela qual devem ser lidos. Essa ordem envolve o regresso pensado, magistralmente desenhado, a alguns dos capítulos já lidos, re-inventando a história na própria história. Claro que todos os capítulos são tão essenciais à vida como o oxigénio, mas esta invenção é uma como tantas outras em que Cortázar mostra o seu toque (sendo um mestre de neologismos e neocompreensões do mundo).

A linha geral da "história" centra-se em Horácio Oliveira, argentino a viver em Paris, na sua relação com a uruguaia Maga, no seu jogo de toca-e-foge, na sua vivência em comum com os dignos representantes da boémia parisiense. A música é o toque de caixa a toda a trama, com o jazz a correr toda a obra, dando uma impressionantemente vívida componente sonora ao livro. Depois a história estende-se. Em anos e em geografia. Mas tudo isso deixo ao vosso cuidado.

Rayuela é uma obra para a qual se parte com expectativas, por ser tão falada, por ser tão mítica. Sai-se dela de uma forma completamente metamórfica. Uma saída que não o é. Continuarão mergulhados toda a vida no que ali vão ler. Regressarão vezes sem conta a certas passagens. Migrarão ideias dali para a vossa vida e da vossa vida para ali. É um livro que fica tatuado. Não na pele, mas sim no coração.


Texto de João Pedro Lopes, autor do blog Oranginalidade


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2 comentários :

  1. Apenas li dele, e há muitos anos o "Bestiário".

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  2. Pinguim, já decidiste sobre que livro vais escrever?! Abraço.

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