quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Tumulto das Ondas - livros que nunca devia ter lido, 8

O Tumulto das Ondas, Yukio Mishima
(8) Procurei durante anos O Tumulto das Ondas, de Yukio Mishima, de que lera um excerto nas aulas de Português. Estava sempre esgotado. Perguntava se podiam encomendar à editora, mas nunca mostravam grande vontade. Por isso acabei por comprar outras obras de Yukio Mishima, antes de consguir finalmente um exemplar de O Tumulto das Ondas.
Foi numa tarde de ócio em que cirandava pela cidade, e entrei numa livraria recentemente inaugurada. Andava por entre as estantes a observar os títulos, e a cogitar que finalmente encontrara uma boa livraria, talvez a melhor livraria onde entrara em toda a vida. A cada passo que dava, logo me detinha. Era difícil encontrar um título que não quisesse levar para casa. Até que... Ali estava, oito ou nove anos depois, finalmente encontrava um exemplar de O Tumulto das Ondas.
Peguei no exemplar, e não mais o larguei até sair da livraria com outros dois livros no saco de papel reciclado. A livraria fechou dois ou três meses depois, o livro li-o nesse final de tarde, acabando por o emprestar pouco tempo depois - nunca mais voltou às minhas mãos.

O Tumulto das Ondas é uma pequena novela, escrita numa surpreendente economia de palavras, é duma simplicidade brilhante, que condiz com a cândida história de amor entre Shinji, um jovem pescador, e Hatsue, a rapariga que vêm invadir-lhe os pensamentos e as emoções.

No dia seguinte de manhã, Shinji subiu ao barco do mestre como de costume e partiu para a pesca. Na água reflectia-se a cor branca do céu matinal tenuemente encoberto.
Era preciso cerca de uma hora para chegar ao pesqueiro. Shinji vestia um avental de borracha negra que, partia do peito do casaco e lhe descia até ao rebordo das botas, também de borracha, que lhe chegavam aos joelhos. Muito direito à proa do barco, e de olhar fixo no destino a que se dirigiam, um ponto longínquo lá ao longe no Pacífico, sob o céu cor de cinza, pensava o que vivera na tarde anterior, entre o momento em que partira para o farol e a hora a que se deitara.
A mãe e o irmão de Shinji haviam esperado o seu regresso na salinha debilmente iluminada por um candeeiro suspenso sobre o forno da cozinha. Este irmão mais novo tinha apenas doze anos.
- O faroleiro ficou contente?
- Ficou sim. «Entra lá, entra» - disse-me ele e ofereceu-me de beber daquela bebida a que se chama cacau.
- Cacau? Que é isso?
- É uma bebida estrangeira. [...]
De manhã, não lhe passara ainda o estranho mau estar. Mas o vasto oceano estendia-se, infinito, diante da proa . À vista do mar, a energia necessária do trabalho quotidiano e familiar invadiu todo o seu corpo e, sem querer dar por isso, o rapaz reencontrou a paz de espírito. O barco vibrava com o leve tossicar do motor. O vento austero da manhã fustigava a face do jovem. Lá no cimo da falésia, do lado direito, a luz do farol já se apagara. [...]

Excerto de O Tumulto das Ondas, daqui, uma vez que não tenho o meu exemplar.

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4 comentários :

  1. Também eu ando há tempos para encontrar alguns livros esgotados e a adiar uma visita aos alfarrabistas da zona da Trindade...
    E também desconhecia este livro do Mishima...

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  2. Pinguim, é uma obra muito simples e muito bela, com diversas adaptações cinematográficas. Sei que existem 5 versões nipónicas, e uma norte-amaericana. Abraço.

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  3. Sou de São Paulo, Brasil. Aqui nunca vi esse livro lançado, amo o Mishima.
    André, não entendi pq o nome "Livros que nunca devia ter lido"?
    Beijão

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    Respostas
    1. Olá Jutilde. No Brasil a obra está publicada com outro título, «Mar Inquieto». Aqui está o link para a Companhia das Letras: http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=11252

      Quanto ao título desta série «Livros que nunca devia ter lido», é um título irónico, que pretende dizer exactamente o contrário. Isto é, são livros que julgo que toda a gente devia ler. São livros que podem mudar a visão que temos da vida, do mundo, das outras pessoas, etc... Também nesse sentido, pode acontecer que não devêssemos ler mesmo... porque corremos o risco de ser mudados...

      Beijos, e obrigado pela visita e comentário.

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