quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A Metamorfose, de Franz Kafka - livros que nunca devia ter lido, 10

Metamorfose, Gregor Samsa, Franz Kafka
Gregor Samsa acorda metamorfoseado num monstruoso insecto, n' A Metamorfose, de Franz Kafka. Ainda que isso seja evidente, Gregor Samsa continua a interrogar-se se será possível que não tenha acordado, que o despertador não tenha tocado.  Sabe prefeitamente que sim, que tocou, e sabe que está transformado num insecto. Contudo continua a tentar encontrar uma explicação racional. Mas que explicação racional poderá rebater a tragédia que se abateu sobre si? A única coisa em que pensa insistentemente é em voltar a dormir, para acordar deste sonho estúpido, e esquecer todas estas asneiras. Já passa das seis e meia quando por fim se resigna a confirmar que havia regulado correctamente o despertador para as quatro da manhã.

De todas as possíveis metáforas que podemos retirar desta obra de Franz Kafka, há uma que considero especialmente pertinente: vivemos tão alienados, que quando as tragédias se abatem sobre nós, continuamos a agir como se se tratassem de meras asneiras, fases, ou tolices, que hão-de acabar em breve. E tentamos voltar a adormecer para acordar dos pesadelos que temos que enfrentar. Ou continuamos a nossa vida como se nada fosse. Talvez isto explique a passividade dos Europeus perante a tragédia da crise da dívida que se abateu sobre eles, da mesma maneira que a passividade dos Europeus da época em que Franz Kafka escreveu A Metamorfose, em 1912 (publicada pela primeira vez em 1915), conduziu à I Guerra Mundial, ou a alienação dos Europeus, que conduziu à II Guerra Mundial. Talvez. Certo é que um dia todos temos que acordar, e temos que nos levantar. Por vontade própria ou, como Gregor Samsa, chamado pela mãe, primeiro, e pela irmã, depois.


Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de insecto.
Permaneceu de costas, as quais eram duras como uma couraça, e, erguendo um pouco a cabeça, conseguiu ver a saliência do seu grande ventre castanho, dividido em nítidas ondulações. As cobertas escorregavam, irremediavelmente, do alto da curva, e as pernas de Gregor, lamentavelmente finas, comparadas com o seu tamanho primitivo, agitavam-se, impotentes, diante dos seus olhos.
(...)
Gregor volveu o olhar para a janela; podia ouvir-se a chuva caindo sobre as vidraças. O tempo nevoento punha-o triste. «E se eu dormisse masi um pouco e esquecesse toda esta estupidez?» Mas isso era-lhe absolutamente impossível, pois estava acostumado a dormir voltado para o lado direito, e a situação em que se achava impedia-o de virar-se para tal posição. Por mais que procurasse virar-se, violentamente, para o lado, caía sempre de costas, com um pequeno movimento circular.

Excerto de A Metamorfose, de Franz Kafka, conforme a tradução de Breno Silveira, para a editora Livros do Brasil, que foi a edição em que eu li. Quem por acaso queira comprar, aconselho outra tradução.

3 comentários :

  1. Pinguim, não acho. Li em duas ou três horas, só tem 130 página (a edição que refiro), e achei extremamente simples. Toda a obra do Kafka é extremamente simples... As metáforas são todas bastante claras - para quem as quer entender. Os contos são geniais. Aconselho vivamente!

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  2. Também concordo que as metáforas são claríssimas. Para mim, o Processo é genial. Creio que deve ser um pesadelo recorrente de muita gente. Claro que falo por mim, mas não é a primeira vez que me sinto assim, «acusada» sabe-se lá de quê.
    Nesta altura parece que «os mercados» me acusam de ser perdulária a gastadora. Eu?????????

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