quarta-feira, 30 de novembro de 2011

As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain - livros que nunca devia ter lido, 12

A primeira vez que tentei ler As Aventuras de Tom Sawyer, tentei fazê-lo em Inglês. Não porque o meu Inglês fosse então suficiente para tal empreendimento, mas porque aquela prateleira daquela estante, com uma colecção de livros que eram os grandes clássicos da Literatura Infanto-Junvenil, tinha um apelo irresistível para mim, a cada vez que entrava na biblioteca da escola secundária. Eram livros como todos os livros deviam ser: capa dura, folhas espessas, daquelas que dá prazer ficar a folhear, e em que as letras impressas não são apenas letras, sílabas, palavras, frases... Folhei-os a todos, ainda que não chegasse a ler mais que algumas frases em cada um deles. De cada vez que entrava na biblioteca, por motivos lúdicos ou académicos, tirava os livros que precisava das estantes, e tirava também um daquela coleccção: só pelo prazer de lhes pegar e de os levar comigo para a secretária onde me ia sentar. Penso que havia um limite de livros que podíamos tirar de cada vez, e era regra não os repôr nas estantes, mas entregá-los à bibliotecária. Mas com o tempo passei sobre essa restrição, uma vez que a biblioteca era frequentada por poucos, e os poucos que a frequentavam era por motivos académicos. Recordo-me agora que na época foram instalados os primeiros computadores, e um deles tinha ligação à internet. Também em volta dos computadores estavam sempre os mesmos. E eu acabei também por me iniciar neste maravilhoso mundo.

Até que um dia encontrei uma edição em português, dos livros de bolso das Publicações Europa-América. Lado a lado estavam dois livros, As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn. Passava das onze da manhã desse dia de Verão. Por volta das duas da tarde começou a minha própria aventura. Já passava das sete da tarde e, no meio dos protestos da minha mãe por não querer lanchar, tinha acabado de ler As Aventuras de Tom Sawyer. Até às onze da noite, após um jantar tardio e uma ida ao café, lutei internamente com a minha vontade de começar a ler As Aventuras de Huckleberry Finn. Por fim cedi, sob o pretexto que eram só algumas páginas. Depois era só até à uma da manhã. De seguida era só até meio do livro, e nem dei conta das horas que eram quando cheguei a meio, nem quando cheguei a meio tinha a mínima vontade de parar com a leitura. Às sete horas e meia da manhã li a última frase. A leitura foi bastante mais demorada que a de As Aventuras de Tom Sawyer. Quando acabei os vestígios de sono que haviam atrasado a leitura já tinham desaparecido por completo. Restava-me apenas um aguda dor de olhos.

-Tom!
Ninguém respondeu.
-Tom!
Ninguém respondeu.
-Mas que será feito daquele rapaz? Ó Tom!
A idosa senhora puxou os óculos para baixo e olhou à volta da sala, por cima deles; depois puxou-os para cima e olhou por baixo deles. Raramente ou nunca olhava através deles para ver uma coisa tão insignificante como um garoto, pois eram o seu par de óculos de cerimónia, o orgulho do seu coração, e tinham sido feitos por uma questão de «estilo» e não de utilidade; via tão bem com eles como veria através de um par de tampas de fogão. Ficou um momento preplexa e, por fim, disse, sem cólera, mas em voz suficientemente alta para a mobília a ouvir:
- Ah, se te ponho as mãos, eu...

Excerto de As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain.

Celebrou-se hoje a data de nascimento de Mark Twain que, se fosse vivo, faria 176 anos. Durante o dia o Google dedicou-lhe este doodle:

(clique na imagem para ampliar)

4 comentários :

  1. Acho que toda a gente que hoje tem cerca de trinta anos ou mais leu algum desses dois livros. Eu segui a regra.
    Hoje, embora um clássico, os miúdos passam-lhes ao lado, estou quase certo, pois têm outras prioridades.
    Não sabem quanto perdem...

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  2. Olá André,

    Não li nenhum desses livros, mas também não tenho ainda 30 anos!

    Tenho algumas obras do Mark Twain em vista, que num futuro próximo quero ler. A ver vamos.

    Sei o que é isso, de planear ler apenas 1 ou 3 horas, depois mais uma, e mais uma, etc...
    Já aconteceu muitas vezes a mim. É quase como um vício.

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  3. Pinguim, é melhor que não descubram agora o que andam a perder, que os tempos que correm não estão para viciados em livros... Abraço.

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  4. Miguel Pestana,

    Não deixes estes dois clássicos da Literatura por ler...!

    Como forma de prevenção, começa a leitura num momento em que tenhas tempo livre, porque podes não ser capaz de parar...

    Abraço.

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