quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Anjo Caído, de Lauren Kate

O livro que Olinda P. Gil nunca devia ter lido.

O Anjo Caído, Lauren Kate

E era por isso que estava a entrar no seu último ano de liceu no Sword & Cross, um mês inteiro depois de o ano académico ter começado. Ser uma aluna nova já era suficientemente mau e Luce sentira-se realmente nervosa com a perspectiva de ter de ingressar numa turma onde toda a gente já estava instalada. Mas pelo aspecto da coisa nesta visita guiada, não era o único jovem a chegar hoje.
Arriscou uma olhadela para os outros três estudantes, de pé, num semicír­culo à sua volta. Na sua última escola, o colégio particular de preparação para a faculdade em Dover, fora na visita ao campus, no primeiro dia, que conhecera a sua melhor amiga, Callie. Num campus onde todos os outros alunos tinham sido praticamente desmamados juntos, o facto de Luce e Callie serem as úni­cas que não eram filhos de antigos alunos deveria ter sido suficiente. Mas as duas raparigas não demoraram muito a perceber que sentiam exactamente a mesma obsessão pelos mesmos filmes antigos, em especial pelo actor Albert Finney. Depois de descobrirem, no seu ano de caloiras, ao assistirem a Two for the Road (Caminho para Dois), que nenhuma delas conseguia cozinhar um saco de pipocas sem fazer disparar o alarme de incêndio, Callie e Luce nunca mais se tinham separado. Até que... até que teve de ser.
Hoje, ao lado de Luce, encontravam-se dois rapazes e uma rapariga. A rapariga parecia fácil de definir, loira e de uma beleza tipo anúncio da Neutrogena, com unhas arranjadas de um rosa pastel que combinava com o dossiê de plástico.
- Chamo-me Gabbe.
Falou de forma arrastada, lançando a Luce um grande sorriso que desapareceu com tanta rapidez como tinha surgido, antes mesmo de Luce poder dizer-lhe o seu próprio nome. O interesse minguante da rapariga lembrou-lhe mais uma versão sulista das miúdas de Dover do que alguém que se esperaria encontrar no Sword & Cross. Luce não conseguiu decidir se este facto era ou não reconfortante, nem conseguiu imaginar o que uma rapariga com este aspecto estaria a fazer no reformatório.
À direita de Luce estava um tipo de cabelo castanho curto, olhos casta­nhos e uma leve camada de sardas no nariz. Mas o modo como nem sequer olhou para ela e como continuou simplesmente a roer um espigão na unha do polegar deu a Luce a impressão de que, como ela, estava provavelmente ainda atordoado e embaraçado por se encontrar nesta escola.
O tipo à esquerda, por outro lado, encaixava-se com demasiada per­feição na imagem que Luce tinha deste lugar. Era alto e magro, com um saco de DJ ao ombro, cabelo preto desgrenhado e olhos verdes grandes e encovados. Os lábios eram cheios e de um cor-de-rosa natural que a maioria das raparigas daria tudo para ter. Na parte de trás do pescoço, uma tatuagem preta com a forma de raios de Sol a surgirem por entre nuvens parecia quase brilhar na pele clara, erguendo-se acima da gola da T-shirt preta.
Ao contrário dos outros dois, quando este tipo se virou para a fitar, sustentou-lhe o olhar e não desviou os olhos. A boca firmava-se numa linha direita, mas os olhos eram calorosos e vivos. Olhou-a fixamente, tão imóvel como uma escultura, o que fez com que Luce se sentisse também pregada ao chão. Susteve a respiração. Aqueles olhos eram intensos, sedutores e, bem, um pouco desarmantes.

Excerto de Anjo Caído, de Lauren Kate.


Digamos que, devido ao fulgor que a fantasia urbana (muitas das vezes em Young Adult) tem tido nos últimos tempos, sobretudo desde que, para além de vampiros adolescentes, passaram a existir anjos pseudo-adolescentes, uma ideia que me acompanha desde a adolescência (há 15 anos, mais propriamente) sobre um anjo com tendência para as más ações, me ressurgiu. Depois de vários contos que escrevi durante esses anos, cada um de escrita mais infeliz que o outro, resolvi que, graças à nova moda, seria o tempo de avançar com este velho projeto e começar a escrever uma novela.
Resolvi, para isso, inteirar-me de alguns livros deste género, para perceber se o que iria escrever era original, se tinha clichés, conhecer os pontos dos quais me deveria aproximar, e sobretudo, conhecer os pontos dos quais me deveria afastar. Foi por isso que li, em primeiro lugar Hush, hush de Becca Fitzpatrick. Se achei este livro péssimo, que conseguiu reunir as piores caraterísticas da saga Crepúsculo e juntá-las num livro com personagens que são anjos, pior leitura seria ainda Anjo Caído, de Lauren Kate. A personagem principal, uma adolescente no último ano do secundário com mentalidade do último ano do básico, tonta, ignorante, e ao que parece, minimamente assustada por estar numa casa de correção por um crime que não se lembra de cometer (e poderíamos ter tido aqui um bom começo para um romance paranormal Young Adult) apaixona-se por um rapaz distante e antipático, que afinal é um anjo que anda fugido dela, pois a cada encarnação da rapariga ele se apaixona por ela e ela morre. Este anjo sofrerá possivelmente do mesmo síndrome desconhecido dos vampiros de Meyer que os impede de se afastar das escolas secundárias. Mas, digam-me: qual seria o ser fantástico e imortal que levaria a sua eternidade a frequentar a escola secundária?
Uma coisa tenho a certeza: estou a ir no bom caminho em fazer da rapariga do meu livro estudante universitária. E o anjo não está a estudar. O pior é que ele ainda não cometeu más ações.

Texto de Olinda P. Gil, autora do blog A Casa do Alfaiate.


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5 comentários :

  1. Gostei muito desta crítica, confirma o que já imaginava sobre o livro e está escrita com sentido de humor.

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  2. Olinda, de nada! Obrigado eu pela colaboração!

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  3. Redonda, eu desconhecia o livro e a autora... E acho que vou continuar a desconhecer (exceptuando este excerto, o título e o nome)...

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