domingo, 9 de outubro de 2011

A Criação do Mundo - livros que nunca devia ter lido, 7

A Criação do Mundo, Miguel Torga
(7) Comprei A Criação do Mundo, de Miguel Torga, numa Feira do Livro Usado, em Coimbra. Não sei se haveria algum livro na Feira que tivesse sido usado noutra função que não a de enchimento de estantes de livrarias ou caixotes de livros não vendidos. Quando penso n' A Criação do Mundo penso sempre na primeira vez que procurei esta obra numa livraria. Entrei à procura de Orfeu Rebelde. Perscrutei as estantes, mas não encontrei nada. Dirigi-me então à rapariga que detrás do computador pachorrento registava as compras dos clientes, lhes apresentava a conta, e perguntava maquinalmente se queriam embrulho. Não sabia em que embrulhada me ia meter.

- Queria saber se têm o livro Orfeu Rebelde... ou A Criação do Mundo - lembrei-me de acrescentar um título, não fosse demais importunar a rapariga apenas por um livro - de Miguel Torga, esclareci.
- Miguel Torga?! - Perguntou estupefacta. - É algum livro novo, saiu há pouco tempo?
- Não, já saiu há uns anitos.
- É português ou estrangeiro?
- É espanhol, de Cervantes, perto de Unamuno - respondi-lhe, enquanto me questinava como era possível que em Coimbra houvesse alguém a trabalhar numa livraria que não tivesse, pelo menos, ouvido falar de Miguel Torga.
- Não sei onde fica. - Perguntou a uma colega que vagueava por entre as estantes se tinha chegado algum livro sobre órfãos, que encolheu os ombros, desinteressada.
- Deixe-me procurar aqui. - Apontava enfaticamente para o computador. Começou a teclar, numa impressionante economia do uso dos dedos, que hoje se diria austera, apenas com o indicador direito. Eu tentava a todo o custo não olhar para ela, para conseguir reprimir a vontade de rir. Pouco depois, olhou para mim triunfal, e exclamou: 
- Diz aqui que não existe! Tem a certeza de que é assim que se chama?!
- Posso ver?
Miguel Toga
- Fala aí um érre. É T-O-R-G-A.
Voltou a repetir o processo de busca. 
- Agora já existe... mas não temos nenhum livro! Devem estar para chegar.
- Pois... 
- Quer que lhe telefone quando chegarem?!
- Não, não é preciso... Eu vou passando. Olhe, já que não têm o que eu queria, vou aproveitar para comprar outros.
Depois de ter um saco com três romances, não entres tão depressa nessa noite escura, de António Lobo Antunes, acabado de sair, e que comprei mais por ter um título que é um verso de Dylan Thomas, que por interesse, Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, e um romance qualquer de Paulo Coelho, que ao final da segunda ou terceira página me confirmou a certeza de que não andava a perder nada, nem gastaria mais tempo ou dinheiro com livros dele, despedi-me com outra certeza: nunca mais entraria naquela livraria.
Apenas três anos depois consegui finalmente comprar as duas obras. Foi na tal Feira do Livro Usado. Da velhinha edição de autor, da Coimbra Editora. A Criação do Mundo, originalmente publicada em 5 volumes, era a 2.ª edição conjunta, de 1997. Orfeu Rebelde, a 3.ª edição, de 1992. 

O mestre, encabado nos socos abertos e abafado no varino de surrobeco, sempre atido ao venha a nós, recebia-nos conforme a pingadeira.
- O senhor passou bem?
- Olá, seu pardal! Ainda agora?
- Trouxe uma cesta de batatas, que já entreguei à senhora Marquinhas, e demorei-me um migalho...
- Bem, bem... Amanhã vê se desembelinhas essas pernas.
Quando a dúzia de ovos tardava, ou o fumeiro parecia esquecido, ele próprio lembrava a falta. E até os mais pobres apareciam de saquitel ao ombro. Mas havia dar, e dar... E o tom de acolhimento variava.
- E tu, meu figurão?
- Fui prender a burra...
- A burra tem as costas largas!
E tinha. (...)
O mestre é que não queria saber de devaneios.
- Por hoje, as coisas ficam assim. Mas volta a repetir a façanha, e verás o que te acontece!

Excerto de A Criação do Mundo, de Miguel Torga.

13 comentários :

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Grande livro. Li o Torga todo, há uns anos, à medida que ia adquirindo a obra através do Círculo de Leitores. Esse livro, de cariz autobiográfico, é muito bom. O diários são uma maravilha. Os contos uma lição de escrita. A poesia não é o melhor do Torga, mas atira para um canto muita da porcaria publicada que vem sendo levada aos ombros pela crítica dita especializada. Nunca me arrependi de ler o Torga. E, de quando em vez, vou lá espreitar

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  3. Curiosa história essa da senhora que o atendeu... Miguel "Toga"? Parece que nem na profissão do homem acertou sem querer, e isto que ele vivia ali por Coimbra. (supondo que poderia ser advogado)
    Estou neste momento a ler um livro de César Antonio Molina sobre o iberismo onde vem uma entrevista com o Miguel Torga e a visão do escritor sobre o tema e parece-me formidável. Tenho a sensação que devorarei os seus livros dos quais conheço alguns títulos embora nunca me tenha entusiasmado para a sua leitura...e já agora adorei o excerto! abraços e obrigado pelo incentivo

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  4. Cavalo de Pau, Miguel Torga era o médico otorrinolaringologista Adolfo Correia da Rocha. E não era nada de togas, nem de ir noutras fardas. Abraço.

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  5. hmbf, ainda não li tudo de Miguel Torga. Falta-me ler alguns diários. Não sei quais ao certo. Tenho o terrível vício de só ler livros meus - não peço emprestado, e detesto emprestar [voltam sempre num estado miserável]. Tenho tentado comprar a edição de autor da Coimbra Editora - vou comprando quando encontro e tenho o vil-metal disponível.

    Quanto a crítica, isso ainda existe?! É confrangedor ler essa dita crítica especializada: meras recensões mal escritas, com umas citações pelo meio. [e estou a ser indulgente]. Quando ainda comprava jornais e revistas dava comigo a pensar: porra, eu fazia melhor, e nem precisava de ler o livro! Mas para que diabo é que isto interessa?

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    Respostas
    1. Boa noite André ,
      Já passaram alguns anos, no entanto ainda disponhais de vários livros de Torga completamente novos e todos da editora Coimbra , se estiver interessado

      Vindima
      A criação do mundo
      Portugal
      Poemas ibéricos
      Orfeu rebelde
      Contos da montanha

      carlosfariamartins@gmail.com

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  6. Essa história da procura do livro, parece anedota...
    Torga é um grande Senhor das letras portuguesas.

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  7. Pinguim, parece, não parece?! Mas é absolutamente verídica. Sem tirar nem pôr. Livraria 115, aqui: http://maps.google.pt/maps?q=livraria+115+coimbra&hl=pt-PT&ll=40.211589,-8.429904&spn=0.008914,0.01929&client=firefox-a&fb=1&gl=pt&hq=livraria+115&hnear=0xd22f8c2c7cbeeb7:0x400ebbde49031d0,Coimbra&cid=0,0,1732280527539497303&t=m&z=16&vpsrc=0 Hei-de procurar no meu diário para ver a data exacta... Abraço.

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  8. André, história fabulosa. Mais sei que é bem verídica, já passei por coisas muito parecidas.
    E a sua resposta "de Cervantes, perto de Unamuno" é uma pérola.:)

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  9. Ola Ivone, é bem verídica, e cada vez mais é assim - havia de ser requisito gostar de ler, de livros, e de Literatura, para poder trabalhar em livrarias. Enfim, o vil-capital dá cabo de tudo.

    Quanto à resposta, pareceu-me apropriada... Ainda tive esperança que ela me dissesse «Está a brincar comigo!?» ou qualquer coisa parecida...

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  10. Paulo,

    Na altura não me pareceu nada divertido... Safou-se o «Cem Anos de Solidão».

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  11. Eu já acho incrível alguém não conhecer o Torga que fará a trabalhar numa livraria. Inacreditável.

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