domingo, 2 de outubro de 2011

Cântico Negro - Poema de José Régio



Não sei porque caminho devo ir - porque caminho devemos seguir. Mas não é este que nos querem vender. Porque ninguém consegue responder a uma pergunta muito simples: como é que o aumento de impostos, que leva à recessão, que faz com que aumente o desemprego, o que diminui os impostos que são cobrados e aumenta os gastos do estado, o que faz com que seja necessário cobrar mais impostos, que consequentemente nos conduz a mais recessão, nos levará por fim a sair da recessão?!

Estes sucessivos Processos de Empobrecimento (ou Escravatização) em Curso são apenas uma forma tosca de protelar, esperando que aconteça um milagre.

Não, não sei porque caminho devo ir - porque caminho devemos ir; não sei o que fazer - mas tal não me impede de ver que este não é o caminho: alguns pretendem justificar a escolha deste caminho suicída com o facto de não haver outro caminho à vista. Pois há que procurá-lo. Por este caminho é que não!

Dito de outra forma: não é por não ter um medicamento que vou tentar curar-me com um veneno! Se o vosso médico vos receitar um veneno para uma doença que vos apoquente, vocês vão tomá-lo, só e apenas porque não conhecem um medicamento para a mesma?!?



"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.


Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

Poema de José Régio.


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