quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Uma Conspiração de Estúpidos - livros que nunca devia ter lido, 6

Uma Conspiração de Estúpidos, John Kennedy Toole
(6) Uma Conspiração de Estúpidos, de John Kennedy Toole, vem com um aviso: Quando aparece no mundo um verdadeiro génio, é possível reconhecê-lo através deste sinal: todos os estúpidos se unem contra ele. É uma citação retirada da obra Thoughts on Various Subjects, Moral and Diverting, de Jonathan Swift, que serve de epígrafe: esta frase contém o tema, o resumo, e a justificação do título do romance. Não que exista verdadeiramente uma conspiração. (Mas com o nome Kennedy, nunca se sabe).

Li o romance aos solavancos, ao contrário do que normalmente faço; algumas páginas por dia; alguns dias sem ler, durante dois ou três meses. Porque é um romance cómico, de trazer lágrimas aos olhos de tanto rir, mas também um romance que nos angustia. Ignatius Reilly tem trinta anos e vive em casa da mãe, sem qualquer trabalho ou ocupação digna desse nome. Qualquer semelhança de Ignatius Reilly com o autor, John Kennedy Toole, ou com milhares de jovens da actualidade (da geração rasca, à rasca, mil-eurista, do trabalho máximo pelo salário mínimo, desempregada, desesperada, desencantada, endividada), não é pura coincidência. Há evidentes semelhanças. Mas também diferenças. Parafraseando o célebre início do romance Ana Karenine, de Leo Tolstoi, os jovens bem-sucedidos parecem-se todos; os mal-sucedidos são-no cada um à sua maneira.


Quando a mãe deixa de puder sustentá-lo, Ignatius Reilly vê-se obrigado a procurar um trabalho que lhe dê sustento, porém o mundo do trabalho nada tem para oferecer a uma pessoa com os seus conhecimentos, e parece conspirar para que todos os seus esforços para encontrar um trabalho digno saiam gorados.

John Kennedy Toole suicidou-se com 31 anos, em 1969, após várias tentativas sem sucesso para publicar o seu romance Uma Conspiração de Estúpidos, que só viria a ser publicado 11 anos depois, em 1980, graças aos esforços da sua mãe. Foi-lhe atribuído, postumamente, o Prémio Pulitzer de Ficção em 1981. Foi a depressão e a paranóia crescente do autor que deram origem ao romance, ou foi o romance (ou a sua não-publicação) que deu origem à crescente depressão e paranóia do autor? Uma coisa alimentou a outra, como numa profecia que se auto-cumpre.

- Ainda bem que não aceitaste o emprego - arriscou Mrs. Reilly maquinalmente.
- Não podia aceitar o emprego. Quando vi o presidente do Departamento de Cultura Medieval, as minhas mãos cobriram-se de bolhas esbranquiçadas. Era um homem totalmente insensível. Depois referiu-se ao facto de eu não ir de gravata e fez um comentário malacioso acerca do casaco. Fiquei pasmado por uma pessoa tão insignificante se atrever a tal afronta. Aquele casaco era um dos poucos objectos de conforto a que estava verdadeiramente ligado, e, se alguma vez encontrar o doido varrido que o roubou, denunciá-lo-ei às autoridades. - Mrs. Reilly reviu aquele casacão horrível, cheio de nódoas de café, que, em segredo, sempre desejara oferecer aos Voluntários da América juntamente com outras peças de vestuário preferidas de Ignatius. - Fiquei tão impressionado com a falta de educação daquele arremedo de «presidente» que saí do gabinete dele no meio de uma das suas divagações cretinas e corri para a casa de banho mais próxima, que, por acaso, era para «homens». De qualquer modo, sentei-me numa das cabinas e pus o casacão por cima da porta. De repente vi o casacão ser puxado do outro lado da porta. Ouvi passos. Depois a porta da casa de banho fechou-se. Naquele momento não podia ir atrás daquele ladrão sem vergonha; por isso, desatei a gritar. Alguém entrou na casa de banho e bateu à porta da minha cabina. Devia ser um membro da força de segurança da faculdade. Através da porta, expliquei-lhe o que acontecera. Ele prometeu descobrir o casacão e foi-se embora. De facto, com já lhe disse, sempre desconfiei de que ele e o «presidente» eram uma e a mesma pessoa. As vozes eram muito parecidas.
- Bem sabes que não se pode confiar em ninguém hoje em dia, querido.

Excerto de Uma Conspiração de Estúpidos, de John Kennedy Toole.

2 comentários :

  1. Com veia literária, muitos jovens de hoje poderiam escrever livros semelhantes.

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  2. Pinguim, penso que seriam menos cómicos e mais angustiantes, mas talvez evitassem alguns suicídios. Abraço

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