quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O Primeiro Dia

Imagem daqui.


Ainda não passou o primeiro dia. O primeiro dia será sempre aquele em que te conheci. Nesse deixei para trás todas as minhas histórias, pronto a começar outra narrativa. Era domingo. Deixa-me voltar atrás, porque minto. Falo a verdade, apenas a verdade, mas minto. Como é a frase do evangelho?! Não, a verdade não me salvará, a verdade não me redimirá, nem sequer me dará paz de espírito.

Porém, minto. Minto porque neste primeiro dia ainda não deixei nada para trás. Isso foi acontecendo depois, sem que eu me apercebesse, sem que eu quisesse, ou me importasse, até que em meados de Março do ano seguinte dei conta que. Espera! Espera! Lá chegaremos. Hoje ainda não és ninguém para mim, em mim. És ainda um estranho, e a única coisa que me liga a ti é estranheza. A estranheza e o que há nela de enigmático. Apenas a vulgar curiosidade, que surge no espírito humano quando dois estranhos se cruzam no acaso dos seus caminhos, nos une. Estás sentado no lancil do pátio, conversas com. Com um amigo comum. 

E então? Então eu abri as portas do meu coração, metáfora que terás que suportar, e eu terei que usar, à falta de outra melhor, e abri as portas do meu espírito à possibilidade de te conhecer. E tu, tu que batias sofregamente, com o olhar triste, e me perguntaste se queria ser teu amigo. Foi mesmo assim. Queres ser meu amigo? Como são simples as relações humanas, quando são apenas relações, sem mais nada, sem significados nem atributos. Tu entraste. 

Entraste e começaste logo a instalar-te, a mudar os móveis, a decoração, a deitar paredes abaixo, a abrir novas portas, a fechar outras, a construir novas divisões. Que reboliço! Nunca estavas satisfeito! Todos os dias tinhas que mudar alguma coisa. Era o quadro que não combinava com a parede, o móvel que era muito pequeno. Ou muito grande! A alcatifa que estava suja, o pó que não fora limpo. Nunca estava nada a teu gosto!

Mas porque me adianto? Fui falar com o nosso amigo comum. Personagem que na nossa tragédia pessoal teve apenas estes poucos segundos de cena. Depois retirou-se, e não mais voltará a entrar. Cumprida que estava a sua função, foi à sua vida.

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