segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Romeu e Julieta - livros que nunca devia ter lido, 5

Romeu e Julieta, William Shakespeare
(5) Romeu e Julieta, de William Shakespeare. Foi numa edição bilingue, da colecção de livros de bolso da editora Publicações Europa-América, que li um dos títulos mais conhecidos da Literatura. É um livro com letra grande - já referi que gosto de livros com letra grande, mas nunca é demais referi-lo. Todos os livros deviam ser publicados com letra grande, e com o texto original e a tradução. Parecia um livro perfeito. Porém, o meu exemplar teve o digníssimo azar de trazer folhas em branco! Folhas em branco! Foi a partir do dia em que comprei Romeu e Julieta que passei a folhear todos os exemplares de livros que compro! Fiquei tão frustrado que foi por pouco que escapou das chamas da fogueira que crepitava quando iniciei a leitura. Mas eu gosto muito de livros. E como as folhas em branco só apareciam na parte do texto original, a desgraça não foi assim tão grande. Pois: sou um grande comodista - prefiro ler traduções.

Romeu e Julieta não é apenas uma tragédia, é um sinónimo de «amantes». Ou era, porque a palavra «amantes» pressupunha o desafio, o segredo, a proibição, a ilicitude, os encontros secretos, eivados pela possibilidade de desonra, de ser descoberto, de perder o estatuto, e cair em desgraça. Agora tudo é dado. E o Amor perdeu aquela graça. Os encontros já não têm a mesma importância. Dito de outra maneira: os efeito das feromonas já não são potenciados.

O que tem esta obra de especial - para além da genialidade com que William Shakespeare manejava as palavras, trazendo para a luz da consciência aquilo que vive oculto nos lugares sombrios da mente humana? Provavelmente nada. Digo provavelmente nada, porque a história já existia. William Shakespeare pegou no enredo dela e, juntando-lhe os pozinhos mágicos da sua pena, escreveu uma história de amor que é um arquétipo de todas as histórias de amor. Hoje em dia seria processado por plágio. E talvez ainda não tivéssemos esta consciência aguda, que fere como um punhal que nos espetam no coração, que todas as grandes histórias de amor acabam. Porque todas aquelas que não acabam, se dissipam no esquecimento e no facilitismo da fórmula encantada: «E viveram felizes para sempre». 


(Saem MONTECCHIO e LADY MONTECCHIO. Entra ROMEU)

BENVÓLIO - Feliz madrugada, primo!

ROMEU- É assim tão cedo?

BENVÓLIO - Acabam de dar as nove.

ROMEU - Ai de mim! Como as horas tristes parecem longas! Não era meu pai essa pessoa que se afastava daqui com tanta pressa?

BENVÓLIO - Era. Mas que desgosto é esse que assim alonga as horas de Romeu?

ROMEU - É o de não possuir aquilo que, possuído, mas tornaria rápidas.

BENVÓLIO - Amores?

ROMEU - Privado...

BENVÓLIO - De amores?

ROMEU - Privado dos favores daquela a quem adoro.

BENVÓLIO - Ah! Porque será que o amor, sendo tão terno na aparência, se torna tirano e cruel quando se experimenta?

ROMEU - Sim! Porque será que, tendo o amor os olhos vendados, descobre, mesmo cego, os caminhos que a sua vontade deseja? - Onde iremos jantar? - Ai de mim! - O que é que houve aqui há pouco? Não mo digas, porque já soube tudo. - Muito dá o ódio que fazer, mas ainda mais dá o amor. Oh, amor turbulento! Oh, ódio de amor! Oh, coisa misteriosa que do nada vem! Oh, pesada leveza, vaidade séria, caos informe de formas sedutoras, pena de chumbo, fumo resplandecente, fogo gelado, saúde doentia, sono em perpétua vigília, que nunca é o que é! - Tal é o amor que sinto, sem sentir em tal amor amor algum. E tu não te ris?

BENVÓLIO - Não, primo, antes choro.

ROMEU - Querido amigo! E porquê?

BENVÓLIO - Pela opressão do teu bom coração.

ROMEU - Que queres? São assim as crueldades do amor! Os meus próprios pesares dilatam o meu peito, e tu fá-lo-às transbordar se lhe acrescentares os teus. Essa afeição que me mostraste vem juntar mais dor ainda ao excesso da minha. O amor é fumo feito de hálito dos superiores; se o alimentam, é fogo cintilante nos olhos dos amantes; se o contrariam, é um mar feito de lágrimas. E o mais é? Discretíssima loucura, fel que amarga e mel que sustenta. Adeus primo (Faz menção de sair).


Excerto de Romeu e Julieta, de William Shakespeare.

6 comentários :

  1. "Agora tudo é dado. E o Amor perdeu aquela graça."

    "…todas as grandes histórias de amor acabam. Porque todas aquelas que não acabam, se dissipam no esquecimento…"

    É assim mesmo. Porque só nos desafia (e fica marcado a fogo) aquilo que não conseguimos alcançar.
    Depois de alcançado, instalámo-nos comodamente, adormecemos e... acabou-se a história.

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  2. Acreditas que nunca li nenhuma obra de Shakespeare?
    É uma vergonha, não é?

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  3. Elisabete, acho que é a grande tragédia a vida: o facto de o Amor acabar...

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  4. João, não me atrevo a recomendar-te "uma" obra. Quanto muito recomendar-te-ia "a" obra. Ainda assim, atrevo-me a aconselhar-te que escolhas «uma» ao acaso, pelo menos «uma». E lê também os sonetos. Não te vais arrepender de certeza. William Shakespeare é «o» escritor. Talvez haja muitos de quem eu goste mais, mas não há nenhum melhor que William Shakespeare. Nenhum. Abraço.

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  5. Tem toda a razão! Porque ao contrário de muitos grandes, Shakespeare "criou" pessoas, com as quais nos identificamos ou não, mas que "vemos"...

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  6. MJ Falcão, é exactamente isso, as Personagens de Shakespeare são tão reais, que parecem sair dos palcos - ou no meu caso, que prefiro ler - embora grande parte das representações teatrais a que assisti fossem baseadas em obras de William Shakespeare - parecem sair dos textos.

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