sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O Remorso - Poema de Jorge Luis Borges




Até hoje, de Jorge Luis Borges (1899-1986), apenas havia lido as colectâneas de contos Ficções, e O Aleph. Pelo que li na internet são as suas duas obras mais famosas. Porém eu cada vez acredito menos naquilo que é publicado na internet. Porque escrevo isto? Porque recebi um e-mail com um poema supostamente de Jorge Luis Borges, e chamar àquilo poema é manifestamente exagerado: era uma coisa com forma de qualquer coisa, lamechas o suficiente para enternecer e encher de ais qualquer coração insensível. Era qualquer coisa intitulada Instantes (que nada tem que ver com o poema O Instante, de Jorge Luis Borges, que publico abaixo) - e eu fiquei irritado uns instantes: como é que é possível que haja quem acredite que uma coisa daquelas poderia ter sido escrita por Jorge Luis Borges? Mas há - pelo que andei a investigar, até professores universitários: nada que me impressione: os académicos nunca me inspiraram confiança. Faz-me lembrar aquela história das pedras que alguém atirou para o meio do caminho dos poemas do Fernando Pessoa. E no fim conseguiram construir um castelo, ah heróis! Por falar em pedras no meio do caminho, leiam o poema de Carlos Drummond de Andrade. E ainda assim era apenas uma pedra.

Enfim, o e-mail, a mim, serviu-me para alguma coisa: para me recordar que há um poeta a descobrir, de seu nome Jorge Luis Borges. No passado dia 14 de Junho, completaram-se 25 anos desde o seu falecimento em Genève. Aqui deixo alguns poemas:



O Remorso

Cometi o pior dos pecados
Que um homem pode cometer. Não fui
Feliz. Que os glaciares do esquecimento
Me arrastem e me percam, despiedados.
Meus pais me engendraram para o jogo
Arriscado e formoso da vida,
Para a terra, a água, o ar, o fogo.
Defraudei-os. Não fui feliz. Cumprida
Não foi sua jovem vontade. Minha mente
Se aplicou às simétricas porfias
Da arte, que entretece ninharias.
Legaram-me coragem. Não fui valente.
Não me abandona. Sempre está a meu lado
A sombra de ter sido um desgraçado.


O Cúmplice

Crucificam-me e eu tenho de ser a cruz e os pregos.
Estendem-me a taça e eu tenho de ser a cicuta.
Enganam-me e eu tenho de ser a mentira.
Incendeiam-me e eu tenho de ser o inferno.
Tenho de louvar e de agradecer cada instante do tempo.
O meu alimento é todas as coisas.
O peso exacto do universo, a humilhação, o júbilo.
Tenho de justificar o que me fere.
Não importa a minha felicidade ou infelicidade.
Sou o poeta.


Os Meus Livros

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.


O Instante

Onde estarão os séculos, o sonho
de espadas, o que os tártaros sonharam,
onde os sólidos muros que aplanaram,
onde a árvore de Adão e o outro Lenho?
O presente está só. Mas a memória
erige o tempo. Sucessão e engano,
esta é a rotina do relógio. O ano
jamais é menos vão que a vã história.
Entre a alba e a noite há um abismo
de agonias, de luzes, de cuidados;
o rosto que se vê nos desgastados
e noturnos espelhos não é o mesmo.
O hoje fugaz é tênue e é eterno;
nem outro Céu nem outro Inferno esperes.

2 comentários :

  1. Infelizmente o meu desconhecimento da obra de Borges não me permite omitir opinião.

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  2. Como referi, só li as colectâneas de contos. Nem sequer nunca tinha lido um poema de Jorge Luis Borges. No entanto, há certos textos que qualquer leitor experiente intui se pode ou não ter sido escrito por este ou aquele autor, com um mínimo de conhecimento - quanto mais académicos que estudam a obra de um autor! E no caso a sensação de falsidade era demasiado óbvia. Infelizmente a ignorância grassa. E a mentira prolifera pela internet...

    Abraço

    ResponderEliminar

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