sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Crítica Literária

Ora, na realidade, o mundo tem venerado exageradamente os críticos, imaginando-os homens de muito maior profundidade do que realmente são. Esta complacência inspirou aos críticos a audácia de assumir um poder ditatorial, e de tal modo foram bem sucedidos, que se tornaram agora os senhores e se atrevem a dar aos autores como suas as leis que originariamente receberam dos predecessores desses mesmos autores.

O crítico, bem vistas as coisas, não passa do escriba cujo ofício é transcrever as regras e leis formuladas por esses grandes juízes que pelo seu génio foram alcandorados à categoria de legisladores nas várias ciências que professaram. Esse ofício era tudo a que os antigos críticos ousavam aspirar, nunca ousando eles adiantar uma sentença que não estivesse escorada pela autoridade do juiz aonde a tinham ido colher.
Mas com o correr do tempo, e em épocas de ignorância, o escriba começou a invadir a competência e a assumir a dignidade do seu mestre. As leis da literatura deixaram de basear-se na prática do escritor para serem ditadas pelo crítico. O escriba tornou-se legislador e passaram a dar leis aqueles cuja função era, inicialmente, transcrevê-las.
Daqui surgiu um erro óbvio e, quiçá, inevitável: pois sendo esses críticos homens de pouco profundas capacidades, confundem muito facilmente a mera forma pela substância. Agem como o juiz que aderisse à letra sem vida da lei e lhe rejeitasse o espírito. Pequenas circunstâncias que foram, porventura, acidentais num grande autor, eram, por esses críticos, consideradas como constituindo o seu principal mérito e transmitidas como essenciais a todos os seus sucessores. O tempo e a ignorância, os dois grandes apoios da impostura, deram autoridade a estas usurpações; e assim foram estabelecidas muitas regras para bem escrever que não têm o mínimo fundamento na verdade ou na natureza e que em geral só servem para vergar e reprimir o génio, do mesmo modo que o bailarino seria reprimido se os tratados de coreografia proclamassem como regra essencial que todo o homem devia dançar acorrentado.


Henry Fielding, in Tom Jones (1749) - Tradução de 1979, de Daniel Augusto Gonçalves.

2 comentários :

  1. Frescor. Ao falante >> http://asinusauri.blogspot.com/

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  2. Frescor. Ao falante >> http://asinusauri.blogspot.com/

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