quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Citação, 6


Portugal já não é a nossa Pátria: é um pedaço de terra em leilão, onde pagamos para viver mal.

Do post Adeus, ó Pátria!, no blog Sobre o Risco.


Sempre que ouço ou vejo a palavra Pátria, uma frase aflui ao meu pensamento: Minha pátria é a língua portuguesa. Antes de mais um esclarecimento: Ah, a frase de Fernando Pessoa!, pensarão em voz alta, exclamando, muitas pessoas ao lê-la aqui. É tão certo como fazer uma pesquisa na internet e vê-la atribuída milhares de vezes a Fernando Pessoa. Ora tal não é correcto nem verdadeiro. É tão verdadeiro e correcto como atribuir o romance Confissões de uma Máscara a Kimitake Hiraoka. Se alguém tiver dúvidas sobre a autoria desta frase, basta-lhe ler a correspondência entre Fernando Pessoa e João Gaspar Simões; passo a citar, em carta de 01 de Novembro de 1931: «(...) e tenho que passar a limpo vários trechos do ajudante de guarda-livros para a revista Descobrimento». Quem não perceber que seria impossível a Kimitake Hiraoka escrever as Confissões de uma Máscara, jamais será capaz de entender que quem escreveu esta frase foi Bernardo Soares, e seria impossível Fernando Pessoa escrevê-la. 

Portugal já não é a nossa Pátria: é um pedaço de terra em leilão. Um pedaço de terra que um bando composto por agiotas e plutocratas sistematicamente vem desvalorizando para que seja vendida, e logo comprada, pelo mínimo preço possível, ou menos que isso; têm os vendedores que pagar aos compradores em vez do contrário: onde pagamos para viver mal.

Vendida a nossa terra, e vendida a nossa Língua: aos interesses dos vil-metaleiros, num contrato de compra-e-venda forçado, sob a forma de acordo ortográfico. Como a Bernardo Soares, nada me pesa que invadam ou tomem Portugal, desde que não me incomodem pessoalmente. Mas odeio quem mal-trata a minha Língua. Porque é a minha Língua quem Eu Sou. É nela que concebo, que conceptualizo, que «Sou-me», e é nela que concebo o Outro, e o conceptualizo. E é nela que existo e me relaciono: comigo, com o Outro, com o que sou e com o que os Outros são em e para mim. Sem a minha Pátria (a minha Língua), não sou nada, ou apenas um esboço, um rascunho.

Uma Pátria que não defende a sua Pátria (a sua Língua), já nem uma Pátria sequer é! Portanto, nada espero de Portugal. Portugal é um território abandonado à sua sorte, como uma nau, ou caravela, que está a naufragar e de que vão saltando os marinheiros: aqueles que têm força, coragem, ou - mais importante que tudo o resto - sabem nadar. Enquanto viver sobre este mal-fadado planeta, em mim haverá a minha Pátria: a Língua Portuguesa. Ainda que traduza noutra língua para comunicar com os outros, aquilo que lhes comunicar é e será sempre filho desta linda, bonita, magnífica, maravilhosa Pátria, que é pai e mãe: a Língua Portuguesa.

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