domingo, 3 de julho de 2011

livros que nunca devia ter lido, 3 - manhã submersa, de Vergílio Ferreira

(3) manhã submersa, de Vergílio Ferreira. O meu exemplar perdeu a tinta, nas dobras da capa e da contracapa com a lombada, e nas dobras das badanas com a capa e contracapa. É um exemplar da Bertrand Editora, tal e qual o da imagem acima; em cima o nome do autor a branco, em letras garrafais, sensivelmente a meio o título da obra, a verde, em minúsculas, ao fundo o logótipo e o nome da editora. É uma capa simples, e gasta.

Comprei-o numa tarde estival de início de Outubro, num ano em que o Verão se prolongou pelo Outono adentro. Estava abandonado a um canto de uma montra de uma antiga livraria e papelaria que o dono mantinha aberta por vocação ou ocupação. Já tinha saído da tipografia onde fora a imprimir há três anos, e parece ter saído já velho e cansado, com as páginas mais amareladas que o que habitualmente o são as das obras da colecção do autor no mesmo formato, editora, e tipografia: talvez porque tivessem antevisto o quanto iriam ser folheadas, lidas, e relidas. Ali se encontra, na estante entre outros, do mesmo autor, com outras cores: preto, verde, laranja...

É o único romance que reli. Ou talvez seja outra a verdade: à medida que avançava na leitura, era o romance que me lia a mim. E de cada vez que o reli, lia em mim facetas que até então desconhecia, pormenores a que nunca dera importância, pensamentos que antes não ousara, sentimentos que não imaginara. Quiçá seja isto verdade em qualquer livro, em qualquer obra de arte, porém nenhum outro romance deixou tão vincadas as marcas da sua passagem. Tão nítidas. De cada vez que António dos Santos Lopes toma o comboio na Castanheira, sou eu que subo da plataforma, para o degrau da carruagem. E o destino que lhe talharam em casa de D. Estefânia, pressinto-o em mim. E as suas humilhações, revelações, questões e confusões, trespassam-me o ser. E sou engolido pelo casarão.


Lentamente, o casarão foi rodando com a curva da estrada, espiando-nos do alto da sua quietude lôbrega pelos cem olhos das janelas. Até que, chegados à larga boca do portão, nos tragou a todos imediatamente, cercando as mandíbulas logo atrás. Enrolado na multidão silenciosa, fui subindo a larga escadaria em cujo topo um padre quieto, de mãos escondidas nas mangas do viatório, ia separando as divisões para as respectivas camaratas. Mudos e quedos, ao pé dos muros, apareceram-me ainda, ao longo do corredor, vários padres de sentinela. E na pura ameaça do seu olhar de sombra eu sentia, mais escura, a grandeza ilimitada de um pavor abstracto. Fiquei na 3.ª Divisão, entre os mais miúdos, com lugar na camarata logo ao fundo do corredor. Doeu-me um tanto separarem-me do Gama, que, de vos entroncada e três anos de estudo, tinha já de ficar na 2.ª Divisão. Em todo o caso, como a sua camarata pegava com a minha, podia vê-lo de perto atravessar de coragem o nosso espanto e alarme, ao passar para o dormitório, na retaguarda da forma. Foi assim, como depois contarei, que durante os recreios nós pudemos cruzar-nos nos corredores desertos e eu me fortaleci na raiva pura que ele tinha.

Excerto de manhã submersa, de Vergílio Ferreira (Bertrand Editora, 19.ª Edição, pp. 21-22)

3 comentários :

  1. Agora que "finalmente" percebi o alcance desta tua rubrica, já não faço observações idiotas e dou-te inteira razão na inclusão nela deste livro do V.Ferreira.

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  2. O título da rubrica foi escolhido com um tom irónico, no sentido de dizer o contrário daquilo que literalmente se diz... E também por isso, em vez de comentar a obra propriamente dita, optei por comentar o livro em si, deixando uns pozinhos sobre o conteúdo - assim como os pozinhos irritantes que se acumulam nos livros que passam muito tempo nas estantes... Mas era uma boa ideia, fazer uma rubrica a falar daqueles livros que não devia mesmo ter lido.

    Enfim, talvez tenha sido porque além de gostar muito de Literatura, de todos os géneros, gosto muito do objecto livro.

    Abraço.

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  3. Ah! Não acho que as tuas observações sejam idiotas! Afinal, também pretendo lançar uma certa ambiguidade... Abraço.

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