domingo, 19 de junho de 2011

livros que nunca devia ter lido, 2 - O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry

O Principezinho, O pequeno Principe, Le Petit Prince, Antoine de Saint-Exupéry
(2) - O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry. Ou neste caso particular, lido, relido, voltado a ler, uma, duas, três vezes, e outra e mais outra vez, não sei quantas vezes. Foi o livro que mais vezes li. É impossível saber quantas vezes o fiz. Recordo-me de não o ter lido apenas quando no programa curricular era suposto que o tivesse lido. Nunca li um livro, nem nenhum autor, do programa curricular quando tinha que o ler. A obrigação de ler sempre me tirou o prazer de ler. Em todas as outras oportunidades o li. E durante um par de anos li-o em exemplares diversos, que me eram emprestados por diferentes pessoas, antes de ter o meu exemplar.

É também o livro que mais vezes ofereci. De maneira que não sei se foram mais as vezes que o li, ou mais as vezes que o ofereci. E da mesma forma que cheguei a relê-lo duas e três vezes consecutivas, também aconteceu oferecê-lo a duas e três pessoas ao mesmo tempo. Foi por isso que só anos depois de o ter lido pela primeira vez me aconteceu ter um exemplar para mim: e desta vez foi-me oferecido. Foi-me oferecido por um amigo como forma de mostrar gratidão pelas dezenas de livros que lhe emprestei para ler. É assim o meu exemplar: um livro gasto, velho, rabiscado, pintado, sublinhado, manchado. Não sei por quantas mãos, porque não sei por quantas mãos passou antes de chegar a mim. Sei que chegou com gratidão e amizade. Sei que quando chegou vinha para ficar para sempre, ao contrário d' O Principezinho, que há-de sempre partir, por mais vezes que o leia, e por mais vezes que enquanto o leia deseje que ele decida ficar, não sei porque milagre.



Muitos livros, filmes, músicas, ou quadros há que me emocionaram. Mas só este livro fez brotar lágrimas dos meus olhos. É o livro que mais detesto. O meu exemplar já foi arremessado contra tudo, coitado, se fosse de vidro estava esmigalhado, feito em pedaços. Mas é de papel - não sei como tem escapado à minha fúria e ainda não foi queimado. Ali está ele, uma tira branca, na estante, entre outras tiras brancas. Ali está ele, e está avisado: não me arrelies, sabes perfeitamente que nunca mais te vou ler! Porém, não tem nada ar de quem está convencido. Como um adolescente que está a receber o aviso do castigo, e nos olha com ar sarcástico de quem pensa «Sabes bem que isso não vai acontecer!»


A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o principezinho.
- Por favor... Prende-me a ti! - acabou finalmente por dizer.
- Eu bem gostava - respondeu o principezinho - mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e uma data de coisas para conhecer...
- Só conhecemos as coisas que prendemos a nós - disse a raposa. - Os homens, agora, já não têm tempo para conhecer nada. Compram as coisas já feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres um amigo, prende-me a ti!

O Principezinho e a Raposa


(...)

Foi só um clarão amarelo no seu tornozelo. Ficou parado por um instante. Não gritou. Caiu de mansinho, como caem as árvores. Nem sequer fez barulho, por causa da areia.

Excerto de O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry

Post-Scriptum: Porque é que sempre que encontramos O Principezinho nunca nos lembramos que chegará a hora em que ele partirá?

8 comentários :

  1. Que susto, André...
    Quando vi este título aqui nesta tua recente secção, pensei que tinhas ficado marado.
    Como tu, foi para mim, o mais lido e oferecido de todos os livros; sei passagens de cor e não sei nunca quando o voltarei a ler, mas sei que isso vai acontecer.
    Mas toda essa tua relação com o livro te leva a incluí-lo nesta rubrica? Não compreendo...

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  2. Pinguim, acho que não percebeste bem esta rubrica. São os livros que nunca devia ter lido, porque são os livros que me mudaram, ou pelo menos a minha visão, ou consciência, do mundo. É impossível dizer se seria melhor ou pior pessoa, ou simplesmente igual. Mas sinto que sou diferente daquilo que seria, caso não os tivesse lido. Sinto que mudaram qualquer coisa em mim. E penso que são livros com potencial para mudar qualquer pessoa que os leia.

    A juntar a isto, faço um pequena descrição dos meus exemplares.

    E sim, embora sejam por isso os meus preferidos, por vezes penso que seria melhor para mim nunca os ter lido - mais que não seja, porque seria a feliz ceifeira... A consciência de si, da vida, do mundo que nos rodeia, dói.

    Abraço.

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  3. Eu também tenho um afecto especial pelo Principezinho e pela sublime mensagem de afecto (leia-se amor) que, melhor do que ninguém, nos sabe expressar. Tenho um exemplar, há muitos anos, e ofereci um outro a alguém que foi há muito especial para mim. Alguém que me tocava, alguém que eu transportava no coração... :)

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  4. Luis, O Principezinho é para mim uma daquelas obras que nos faz acreditar, acreditar de mais. Às vezes acreditar mesmo contra todas as evidências. Ainda não sei se é bom, se é mau. Suponho que umas vezes seja uma coisa, outras vezes outra... Abraço

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  5. André,

    Gosto muito deste livro... apenas detesto a parte, embora seja uma frase de efeito e impactante, quando a raposa diz: "Vc é eternamente responsável por aquilo que cativas"... Veja bem, ser resposável pela felicidade de uma OUTRA pessoa, pra mim é utopia... Salvo isso, o livro é ótimo!!!
    beijos

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  6. Olá Fabiane Siqueira, sim, o livro é óptimo. Concordo que não sejamos responsáveis pela felicidade de outra pessoa. O que muitas vezes choca, é a indiferença com que as pessoas se tratam. Beijinhos.

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  7. André Benjamim, você é uma pessoa especial. Linda!

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  8. Obrigado, Elisabete, por tamanha simpatia. Beijo

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