quarta-feira, 15 de junho de 2011

livros que nunca devia ter lido, 1 - Fome, de Knut Hamsun

Fome, Knut Hamsun, Cavalo de Ferro, Paul Auster
Fome, de Knut Hamsun
Prémio Nobel de Literatura 1920
(1) Fome, de Knut Hamsun. O meu exemplar é de uma edição brasileira, com tradução do poeta Carlos Drummond de Andrade. Capa dura, castanha, a imitar pele. É um excelente livro, que não haja dúvida. Embora o papel já esteja um pouco amarelecido - foi comprado em segunda-mão, num alfarrabista - é suave ao toque, e à visão: nem demasiado leve e fino, nem demasiado pesado e grosso. E a letra tem o tamanho ideal: nem demasiado pequena, daquela que fere os olhos, nem demasiado grande, daquela para fazer páginas. Capa dura, não demasiado pesada, pelo que pode ser lido em pé, sem que com isso se cansem muito os braços. Apelativo à vista, fica bem em qualquer estante. Ideal, como tal, para quem queira dar um ar culto, de intelectual. Especialmente se for de esquerda. Fica sempre no ar uma fragrância a ecleticismo, a presença de um nobel de direita na estante de um intelectual de esquerda. O contrário, perdoem-me, mas é o que mais se vê, razão pela qual deve ser evitado: é demasiado vulgar. Do género do capitalista com tiques de mecenas ou, pior, com tiques de amante da cultura. Ou do aristocrata com memórias de juventude rebelde. Enfim, um bom livro, um óptimo romance. Se possível, não deve ser lido. Provoca náuseas, dores d'alma, e outros efeitos secundários que só o tempo permitirá, em cada caso, descortinar.



Abri os olhos. Para que fechá-los, se não podia dormir? As mesmas trevas reinavam em torno, a mesma insondável e negra eternidade, contra a qual o espírito se revoltava, incapaz de assimilá-la. A que poderia compará-la? Fiz os mais desesperados esforços para achar uma palavra bastante negra a meu gosto, que designasse aquela escuridão; palavra tão pavorosamente negra que me enegrecesse a boca, ao ser pronunciada. Santo Deus! Que escuridão! Eis-me de novo a pensar no porto, em navios, em monstros negros à espera. Iam aspirar-me, engolir-me, reter-me como prisioneiro, e navegar, levando-me através de mares e terras, através de reinos sombrios, jamais vistos por alguém. Estou a bordo; sou atirado à água; pairo entre nuvens; vou descendo, descendo... Solto um grito rouco, de angústia, e agarro-me à cama. Fizera uma perigosa viagem, degringolando pelos ares como um pacote. Que sentimento de salvação, ao apalpar o catre duro! "É assim que a gente morre - pensei comigo - e tu vais morrer." Fico um instante a reflectir: vou morrer. Sento-me na cama e pergunto severamente: "Quem disse que vou morrer? Fui eu que achei a palavra, tenho pleno direito de decidir o que deve significar." Senti que delirava; senti-o antes que acabasse de falar. Era um delírio feito de fraqueza e de esgotamento, porém não perdera a consciência. De repente, uma ideia varou-me o cérebro, a ideia de que enlouquecera. Tomado de pavor, saltei da cama, fui cambaleando até à porta, e tentei abri-la arremessei-me duas ou três vezes contra ela, para arrombá-la; mordi os dedos, chorei, praguejei...


Excerto de Fome, de Knut Hamsun. 

Sinopse, no Pó dos Livros: A acção de «Fome», um romance marcante e considerado um clássico da literatura mundial, decorre nos finais do século XIX. O narrador, um jovem escritor, um homem solitário, deambula pelas ruas de Kristiania (actual Oslo) numa miséria extrema, enregelado pelo frio e tolhido pela fome. Essa miséria em que vive provoca-lhe momentos de delírio e violentas variações de humor. Mas cedo nos apercebemos de que a “fome” desse sonhador não é apenas física. Há a procura de uma identidade e de um reconhecimento dentro das suas próprias alucinações.

4 comentários :

  1. Muito original esta nova rubrica.
    Vou estar atento.

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  2. Espero não desiludir...! he he he... Abraço

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  3. Respostas
    1. Náuseas: http://www.priberam.pt/dlpo/n%C3%A1useas (ver 3, figurado);

      Efeitos Secundários: http://www.priberam.pt/dlpo/efeito

      Não sei qual é a dúvida...?

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