quarta-feira, 8 de junho de 2011

da felicidade, 2

Agora é um mistério para mim, mas naquele momento sentia que estava certo, que nunca estivera tão certo. E ao mesmo tempo estava aborrecido. Não te conhecia. Porque haveria de ceder aos teus desejos? Sabes – vais chamar-me mentiroso – não te conhecia, porque havia de te aturar? Porém ao mesmo tempo tinha – custa-me pronunciar esta palavra – tinha pena de ti. Tinha pena… Não sei! Não sei se era pena. Pena é um sentimento desculpabilizador com que as pessoas lavam a consciência de assuntos com que não querem lidar. Pena é o sentimento que usamos para dizer a nós mesmos que não temos nada a ver com aquilo com que não conseguimos lidar. Se fosse pena, pena assim, ter-te-ia dado uma desculpa e tinha ido embora. Mas não fui. O que eras então para mim, naquele segundo criador? Não sei! Também não importa! Não importa, porque nada importa! Porque nada têm importância! Porque a importância só o é relativamente ao valor subjectivo que lhe atribuímos. E porque havemos de dar um nome a todos os sentimentos que nos aparecem na alma? Perdemos demasiado tempo a pensar naquilo que sentimos, e depois não nos sobra tempo para sentir. Tu sorrias. Tinhas um sorriso cândido – e belo. Um sorriso que explodia na tua face redonda, e me tocou, agarrou, feriu e prendeu. Mas detrás do teu sorriso espreitava a tristeza, a solidão, talvez. E enquanto sorrias parecia que ficavas ausente, e voltavas, e de repente. – Eu sou de Lamego! Conheces? Já ouviste falar? – Por entre o teu ímpeto mergulhei algumas palavras, todas para dizer apenas que sim. – É uma terra bonita! Um dia hás-de conhecer! (Desculpa estar para aqui a corrigir o Português, que importa que não tenha sido assim, com tamanha correcção ortográfica que tenhas pronunciado as palavras? Isso fica aqui apenas entre nós.) E o tempo passava, o pátio já estava deserto, só nós dois, esquecidos do mundo em redor, conversando encostados a um pilar. Subiste para o lancil. – Sou quase da tua altura! – Assim é batota! – Protestei. Desceste. A tua cabeça rapada chegava-me à altura do ombro. – Tens muitos amigos? – Mudavas tão depressa de assunto! Como um lobinho que vai pelo meio do mato a saltitar! Os lobos não saltitam? As raposas sim? Não sei, não conheço nenhum lobo! E raposinhas só conheço uma, mas não saltitava pelo meio do mato, saltava pocinhas, a matreira! – Deves ter! Pareces bem simpático! Eu ainda não tenho amigos! Sou novo aqui! Queres ser meu amigo? – Ao que me obrigas! Ainda o ponto de exclamação não tinha caído em desgraça! Ainda vivíamos numa época de afirmação, de breves ou longas exclamações, em que tudo era possível!
Tocou a campainha. Eram onze e vinte, estava a chegar a hora da missa. – Esperas por mim – pediste, perguntaste, ou exigiste? A tua maneira de falar, às vezes tão clara, era por vezes tão dúbia.


Imagem: quadro de J.L. Fleckenstein, retirado daqui.

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