Segunda-feira, 20 de Maio de 2013

Membros do Conselho de Estado

Era uma Vez na América

Era uma vez na América um grupo de ilustres malandros, comentadores de tagarelalogia, generais sem labirinto, patriarcas de inverno, precoces reformados, aprendizes de feiticeiro, empreendedores de la larapiice, descarados aldrabões, professores de ladroagem, ladrilheiros da aldrabice, oportunistas de la palice, respeitáveis mafiosos, óbvios canalhas - e se algum não o fosse, que batesse com a porta, ou que rezasse a Nossa Senhora - meu Deus, tanta beatice!
Fechados num manicómio sem paredes, um manicómio a céu aberto com fronteiras que eram limites que podiam riscar no chão que mais lhes conviesse - viviam encarcerados  dez milhões de loucos fiéis que acreditavam quando este grupo lhes pregava que viviam num país. Os poucos que bradavam Onde iremos parar? não davam conta que parados estavam.

Domingo, 19 de Maio de 2013

Comment je suis devenu stupide - Martin Page

Comment je suis devenu stupide, Martin Page, Como me Tornei Estúpido

Sempre parecera a Antoine ter a idade dos cães. Quando tinha sete anos, sentia-se cansado como um homem de quarenta e nove; aos onze, tinha as desilusões de um velho de setenta e sete. Actualmente, com vinte e cinco anos, esperando uma vida mais fácil, Antoine tomou a resolução de vestir o manto da estupidez. Constatara muitas vezes que a inteligência é a palavra que designa o disparate bem construído e proferido, que ela está tão pervertida que, geralmente, é mais proveitoso ser-se estúpido que intelectual ajuramentado. A inteligência produz infelicidade, solidão, pobreza, quando o disfarce da inteligência oferece uma imortalidade de papel de jornal e a admiração daqueles que acreditam no que lêem.

Martin Page, em Como me tornei estúpido. [via No Vazio da Onda] Vejam também este vídeo.

Crónicas de Zwahlen #11

France, Chômage, François Hollande
Le Matin Dimanche, 19 Mai 2013

Na história da democracia portuguesa nunca tão poucos fizeram tão mal a tantos. Ao mesmo tempo que a cègada política transforma as nossas monumentais perplexidades numa exasperada interrogação: que mais nos irá acontecer? O rol de indignidades é extenso e não deixa de aumentar: mentiras, omissões, faltas à palavra e aos compromissos, desprezo por todos nós, ocultação de factos e de decisões, por aí fora.(...)

A coligação deixou de o ser há muito tempo. É um conjunto mal remendado de interesses, e um concentrado de servilismo a conveniências estrangeiras. A palavra perfídia anda perto.

A perfídia anda por aí, crónica de Baptista-Bastos.

Domingo, 13 horas, barriga cheia, hora de ir comprar o jornal e tomar um café. Estação de Saint-Imier. O que eu me rio com os cartoons do Mix & Remix - e a Suíça está na final do campeonato mundial de Hockey no Gelo, 60 anos depois da última medalha. A final será hoje às 20h30m (hora na Suíça). Que o dia de hoje seja dominado pelo vermelho. Adoro esta cor, e este país.

Sábado, 18 de Maio de 2013

Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico, de Pedro Correia

Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico, Pedro Correia

Embora eu considere que qualquer texto (crítica, resenha, recensão, apresentação, etc.) sobre um livro que tenha as palavras acutilante ou pungente devia ser banido dos jornais - isso não importa nada para aqui, eu é que não sei o que hei-de dizer sobre um livro cujo conteúdo desconheço e tenho - portanto - que falar de outra coisa qualquer. 

"O Acordo – diz Pedro Correia – é tecnicamente insustentável, juridicamente inválido, politicamente inepto e materialmente impraticável" - também não gosto por aí além de advérbios de modo, mas por vezes têm a sua graça. Ao contrário do Acordo Ortográfico, que além de não ter graça nenhuma, é uma desgraça.

Onde ia? Este exercício de andar à deriva entre pensamentos ainda há-de atar os meus neurónios - poucos e débeis, eu sei - com algum nó cego. Como sabem - não sabem? - recuso-me a escrever de acordo com o aborto ortográfico, como lhe chama o Pedro Correia. 

Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico já se encontra nas livrarias, e a sessão de lançamento do livro será na próxima terça-feira, dia 21 de Maio, às 18.30, na Bertrand do Picoas Plaza (Lisboa). A apresentação está a cargo do Pedro Mexia.

Este post é apenas para avisar que faço anos no dia a seguir, e se ainda não tiverem pensado no que é que me hão-de oferecer, aqui está uma boa opção. Mas calma - não se precipitem - reúnam primeiro - é escusado receber uma centena de exemplares do mesmo livro. Eu tenho uma lista que não pára - raios partam o corrector ortográfico! - que não pára de crescer.

Sexta-feira, 17 de Maio de 2013

Eu também deixava de fora o António Lobo Antunes.

Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, Bruno Vieira Amaral

António Lobo Antunes deve ser o escritor português mais inflacionado de sempre - temo que seja mesmo uma bolha especulativa - não sabendo se é efectivamente uma bolha especulativa, não sabemos se ou quando vai rebentar. Mas isto sou eu que digo; não sendo crítico literário - posso dar-me ao luxo de ter o meu gosto pessoal, deixando de lado critérios académicos e científicos: António Lobo Antunes é o autor que mais vezes deixei a meio. Não é problemático: há muitos autores que deixei a meio e que passados uns anos li de fio a pavio com grande entusiasmo. Penso nos livros que quase li de António Lobo Antunes, e não consigo encontrar nenhuma personagem interessante. Provavelmente teria que ler até ao fim - ou com mais atenção - para encontrar algum interesse no António Lobo Antunes. Não sei se o João Gaspar Simões ou o Eduardo Prado Coelho encontraram algum interesse no António Lobo Antunes ou não. Do João Gaspar Simões, além do que escreveu sobre Fernando Pessoa, pouco mais li. Do Eduardo Prado Coelho, lia as crónicas que escrevia no Público, quando o Público era um jornal, e se escreveu sobre António Lobo Antunes, não me recordo; mais que isso não li. Não tenho tempo, nem dinheiro, nem disponibilidade das obras, para tudo. Gostava de ler este Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, de Bruno Vieira Amaral. Tempo é a única coisa que tenho disponível para o efeito - mas quando falta o resto, o tempo não serve para nada, e torna-se um fardo. Bom - é o ponto em que tenho que me deixar de lamurias. Se o António Lobo Antunes ganha o Prémio Nobel estou tramado - tenho quatro ou cinco - ia dizer amigos, mas fico-me por conhecidos - que neste tempo de pobreza, mais que nunca temos que valorizar aquilo que nos resta - e as palavras - por enquanto - ainda não arranjaram forma de as taxar - tenho quatro ou cinco conhecidos que vão zurzir-me aos ouvidos durante muito tempo. Se tiverem que o dar a um autor de Língua Portuguesa, que o dêem ao João Ubaldo Ribeiro ou ao Rubem Fonseca. Pedir que o dessem ao único escritor português que eu julgo que o devia ganhar, talvez já seja pedir demais. Embora arrume o António Lobo Antunes a um canto. Ah, para ser justo tenho que dizer que gosto muito da maioria das crónicas do António Lobo Antunes, e que tem alguns dos títulos mais fantásticos que conheço - embora emprestados. É tudo.

(Quanto ao Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, espero que não estivessem à espera que eu me metesse a falar de uma obra que não li.)

Adenda: Cada vez mais gosto de ver, nas cidades ao longo do mundo por onde passo, os livros de Lobo Antunes expostos. Quer sejam usados em alfarrabistas, quer sejam novos nas livrarias. Lobo Antunes, queiramos ou não, goste-se ou não do seu estilo, tem um trabalho admirável de dar voz através dos seus romances - e no âmbito da sociedade portuguesa - a quem não a tem: loucos, abandonados, pobres, encalhados na vida, falhados na profissão; e pretos – como no caso de O Meu Nome é Legião. É, tem sido, para além de uma obra de arte literária, uma instituição representativa. Os seus romances têm sido em tantos casos como que um «empréstimo de voz»: o que o torna um exemplo de humanismo numa terra desumana. Num país que calca a voz dos seus naturais, e as suas razões. (soliplass, no blog Âncoras e Nefelibatas)

«loucos, abandonados, pobres, encalhados na vida, falhados na profissão» - tenho mesmo que voltar a António Lobo Antunes...

Não estás perdido quando não sabes onde estás - estás perdido quando não sabes para onde ir

Será Menino ou Menina? Será Pobre, Senhora, Será Pobre
- Será Menino ou Menina? - Pobre, senhora, será Pobre.

Graças a um site que agora não recordo, mas onde fui parar quando ando pela internet à deriva, pude «ver» o meu primeiro blog, e fiquei a saber que estará a fazer por estes dias 10 anos que cheguei à blogosfera - cheguei algumas semanas antes enquanto leitor. Não vou dizer-vos qual foi o meu primeiro blog (nem o segundo, nem o terceiro, nem muitos que eu próprio não recordo), porque não têm interesse nenhum, embora tenha nesses primeiros tempos chegado a ter um blog que esteve algumas semanas entre os mais visitados de Portugal. 

De quando em quando descubro alguns bloggers actuais que eram aquele blogger que escrevia com aquele pseudónimo. Não sei se era a regra ou não - pelo menos entre aqueles que eu lia era a regra - os bloggers não utilizavam o nome civil. Eram bastante engraçados alguns nicknames. Entre os primeiros blogs que li permito-me destacar três - não queria ser injusto, mas já não me lembro dos nomes da maioria - Mar Salgado, onde escrevia Filipe Nunes Vicente, Psicólogo e Ensaísta que já escreveu em muitos blogs e que acaba de lançar mais um: Depressão Colectiva. Abrupto, de José Pacheco Pereira, um caso de longevidade - pelo menos no mesmo endereço. E Gato Fedorento. Curiosamente todos eles escritos com o nome civil.

Por falar em José Pacheco Pereira, vejo que atracou ontem na mesma conclusão que eu havia alcançado aqui - não é difícil concluir tal coisa, que está à vista de todos. 

Não estás perdido quando não sabes onde estás - estás perdido quando não sabes para onde ir. Um título tão bom ou tão mau como outro qualquer para um post de um blog. Nunca levei a blogosfera demasiado a sério, no sentido de pretender escrever textos cuidados, estudados, como quem escreve uma tese ou um ensaio. Para mim um blog sempre foi um diário - e cada post uma entrada de um diário.

Quinta-feira, 16 de Maio de 2013

A maldição de Béla Guttmann

Béla Guttmann, Maldição


Não se sabe ao certo quais as palavras exactas de Béla Guttmann quando lançou a famosa maldição. As mais referidas são estas: "Nem daqui a 100 anos uma equipa portuguesa será bicampeã europeia e o Benfica jamais ganhará uma Taça dos Campeões sem mim." Numa entrevista posterior, ao jornal A Bola, à pergunta «- Quais os termos exactos da sua famosa maldição, que continua a dar muito que falar...?» respondeu: «- Nem daqui a cem anos um clube português volta a ganhar duas vezes seguidas a Taça dos Campeões.» Uma coisa é certa, seja qual for a maldição exacta, ela mantém-se. O Benfica nunca mais ganhou uma Taça dos Campeões (5 finais perdidas), nem nenhum clube português foi bicampeão (o F. C. Porto ganhou duas vezes, mas não foi bicampeão).

Quarta-feira, 15 de Maio de 2013

15 de Maio: Dia Internacional da Família

Eugênio Braga, Dia Internacional da Família, Pintura Abstracta
Pintura de Eugênio Braga.
15 de Maio. Dia Internacional da Família. A minha mãe em Portugal, a minha irmã, sobrinha, e cunhado na França, primos direitos que nunca vi, tios que não vejo há vinte anos (na França?), tios que já morreram sem que eu os tenha conhecido, o meu pai que morreu. Eu aqui quase sozinho. É isto. Celebrar o quê? Raios partam a vida e quem lá ande!

Futebol: Sport Lisboa e Benfica

Sport Lisboa e Benfica, Liga Europa

Dentro de instantes começa a final da Liga Europa. Recordo-me da última vez que o Benfica jogou uma final europeia: estava quase a acabar o meu primeiro ano lectivo no colégio interno católico - escusado será dizer que antes da final rezámos o terço para que o Benfica ganhasse - se eu acreditasse em Deus naquele dia teria deixado de acreditar - um aparte: uma das grandes interrogações da minha vida é porque é que nunca acreditei em Deus - e num colégio interno católico, podem acreditar que sempre me senti estranho por isso - naquela época éramos todos do Benfica - e que eu me recorde, tenho contacto - muito esparso, é verdade - apenas com uma das trinta e tal alminhas que enchiam a sala naquele dia - e esse agora é adepto do Sporting - é uma das desvantagens de termos contacto com os nossos amigos de infância - é mais difícil reescrevermos a nossa história, e eu gosto de o picar dizendo que não que ele nem sempre foi do Sporting. Perdemos 1-0 contra o A. C. Milan, na final da Taça dos Campeões Europeus; foi o dia a seguir a eu ter feito anos, e não tive a prenda que queria. No dia anterior tinha recebido umas calças, que só usei uma vez, como contei aqui. Foi no tempo em que ainda tinha a grande esperança de não ter esperança nenhuma. Agora sou apenas o «sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...» E nem o futebol acende em mim as paixões de antigamente.

Observava com delícia o prazer com que aqueles corpos atléticos corriam atrás de uma bola gasta, quase a rebentar. E, de quando em quando, corria também para aquela esfera misteriosa que nos unia de uma forma transcendente, ignorando os nossos vícios e virtudes, méritos e defeitos, medos e desejos, unindo-nos num todo denso e uno, num todo aconchegante e suado; era provavelmente esse o prazer do futebol, não nos distinguia: no momento da vitória festejávamos todos com a mesma alegria e euforia; e no momento da derrota o desânimo e as lágrimas eram partilhados na mesma dor.


Claro que gostaria que o Benfica ganhasse. Mas, do mesmo modo que as vitórias já não me alegram como antigamente, também as vitórias já não me doem como antes.

Terça-feira, 14 de Maio de 2013